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Segunda-Feira, 25 de Setembro de 2017
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Conto natalino - O mistério do Natal de tia Berta

Ficção - Escrito coletivamente por 12 autores convidados, conto de Natal narra as desventuras de tia Berta

Carol Macário
Florianópolis

Débora Klempous / ND
Tia Berta, personificada pela atriz Margarida Baird, é a heroína do conto criado a muitas mãos

 

Natal é uma data que inspira ficções. Do romance de Charles Dickens, com seu célebre “Conto de Natal”, um clássico da literatura universal, aos crimes e mistérios narrados por Agatha Christie, como em “A Aventura do Pudim de Natal”, o espírito natalino sempre abasteceu a imaginação literária. Mistério, morte, comédia, tragédia, romance. Para o bem ou para o mal, tudo pode acontecer na véspera ou no dia 25 de dezembro. E já que a data pede, o Plural embarcou na tradição (só que com uma ponta de subversão) e convidou 12 pessoas de Florianópolis ligadas à escrita para criarem um conto de Natal coletivo.

Abrindo as portas para a imaginação e o risco, escritores, cineastas, dramaturgos, jornalistas, tradutores e autor de história em quadrinhos ficcionaram em grupo. Ao longo do último mês, cada um continuou o texto a partir do ponto que o outro terminou, seguindo como regras apenas o limite do tamanho, a coerência narrativa e a liberdade de escrita. O resultado foi uma história cômica, misteriosa e com um final surpreendente. Para dar mais realidade, o  casal de atores Margarida Baird e José Ronaldo Faleiro deu vida a dois personagens do conto.

O Mistério do Natal de tia Berta

Ainda faltava comprar o presente da tia Berta... Sabonetes! Compraria meia dúzia... Canforados, sim, bom para as grossas e azuladas varizes que lhe cobriam a perna direita.

Não sei o que é mais impressionante, se as varizes da tia Berta ou a micose que lhe corroi uma das unhas, justo a do dedo indicador, que ela usa para fixar as cerejas no peru.

Tia Berta sempre foi mulher de fortes convicções morais e pouca higiene. Nunca se casou, não teve filhos, cuidou dos pais até a morte. É a mártir da família. Passa o ano organizando a noite de Natal e procura deixar evidente o esforço e dedicação empregados na tarefa, acrescentando uma dose extra de drama a c ada receita. A ceia, sempre igual e aborrecida, é seu momento anual de glória.

Está acompanhada sempre de seu inseparável gato pardo, cujo nome é Rufino - homenagem a um grande amor da adolescência que morreu asfixiado ao tentar engolir uma maçã do amor inteira como prova de seu amor. Tia Berta guarda fortes e emocionantes lembranças dos tempos que esteve ao lado dele.

Enquanto ela monta a árvore, seu gato, que tem o hábito de ficar em seu ombro se equilibrando, observa as bolas de Natal balançarem aos movimentos de tia Berta.

Lembrei daquilo que a mamãe disse uma vez – Estás ficando igualzinha à Berta...

abonetes canforados! Gosto de comprar os presentes nestas lojinhas de beira de estrada: toalhas para a família aqui tem, geleia caseira aqui tem, miniaturas aqui tem, sabonetes especiais aqui tem... À margem das estradas monótonas, paraísos de quinquilharias e preciosidades.

Justo alcançava os sabonetes na estante mais alta da loja, que levava o nome do passarinho do dono, quando de repente a luz foi cortada. Um breu absoluto tomou conta do local. Fiquei paralisada por um instante até que finalmente consegui me acostumar com a escuridão. Meus olhos aos poucos começavam a ver os contornos dos objetos expostos nas prateleiras. Como estava com pressa, porque ainda queria comprar flores para levar para nosso encontro de Natal, decidi pegar os sabonetes mesmo no escuro e seguir meu caminho. Comecei a tatear os objetos nas prateleiras até que percebi algo com o formato retangular aproximado de um sabonete e a textura esperada de uma embalagem de papelão. Ainda às escuras, aproximei o objeto do nariz, mas no lugar do esperado odor canforado deparei-me com um cheiro de bolor. Do bolso direito da calça jeans, tirei o isqueiro que uso para acender os cigarros que minha mãe tanto me diz para deixar de fumar. Com a luz azulada, pude descobrir o que tinha em mãos afinal. Era um livreto, antigo, uma encadernação do tipo que não se usa mais. Na capa, o título: Cadavre Exquis.

E lendo aquelas palavras... tudo veio com uma rapidez ensurdecedora à minha mente: tia Berta, o gato pardo, as varizes, as cerejas, as bolinhas de natal cintilantes, a ceia milimetricamente organizada. Tudo isso despertado por aquele momento... Tudo isso nascido, com um toque de surrealismo, do odor daquele livro embolorado. E foi uma sensação avassaladora.

Sim. Estava decidida. Era agora.

Larguei o livro na primeira estante e saí às pressas. Sabia que não era o interesse no assunto do livro que despertara tudo aquilo: era aquela terrível combinação do odor, da escuridão e daquelas palavras estranhas... mas estava decidida. Assim que cheguei em casa encontrei uma velha agenda. Bastou algumas ligações para descobrir velhos e novos amigos de Tia Berta, até um desafeto que mitigava culpas vetustas há vários solstícios.

O jogo era simples: só precisava criar as regras e entender que havia um sentido maior do que um paralelepípedo que se diss olveria na água. O sentimento deveria ser sincero. Apesar de sua distimia, ela merecia ter um Natal rodeada daqueles velhos amigos e dos novos também, bom, os novos mereciam experimentar o peru com cerejas da tia Berta.

Quando cheguei à letra “R” minha surpresa foi tal que o telefone caiu da mão, um súbito tremor tomou conta de mim. Em letras garrafais e com desenhos de corações no final, aparecia um nome que se destacava do resto, RUFINO. Mas ele?? Ele não tinha morrido?

Morreu há tanto tempo que eu não sabia por que ele estava ali na agenda. Mesmo assim liguei. Para minha surpresa atendeu um senhor, voz tranquila, que de fato se chamava Rufino. Perguntei pra ele se conhecia a Berta, e o senhor engasgou – estava comendo maçã. Contou que não a via há muitos anos. Conversamos. Tia Berta havia mentido pra gente da morte de seu amor.

Ele continuou a falar coisas e coisas pra mim, das quais eu apenas assimilei aquilo que queria ouvir. Subitamente aquele das lojas de varejo, da Coca-Cola, do vermelho, das luzinhas, dos filmes da tarde na véspera, das passas e castanhas…. Aquele! O espírito natalino tomou conta de mim. 

Tudo bem, talvez não tenha sido ele. Talvez tenha sido a vontade de ver a cara da tia Berta, com aquele sorriso tosco e incrustado, ao receber meu mais novo presente. Ou dos meus primos que tantas vezes ouviram a história da maçã. Danem-se os sabonetes! “Seu Rufino, onde o senhor está agora, neste momento?”. Enquanto eu dirigia ainda pensei no que poderia ter acontecido de tão grave para que ela nos mentisse a morte desse… Que nome engraçado… Rufino. Mas eu estava ainda mais decidida.

Bati na porta e toquei a campainha. Mamãe, juro que esse será meu último cigarro, mamãe. O senhor que abriu a porta sorriu. Seu lábio tremia. Os cabelos tingidos de castanho-pardo penteadíssimos. Antes que pudesse dizer algo, a gata saiu detrás da porta e se esfregou nas minhas pernas. “Parece que a Bertinha gostou de você”. No canto da sala havia uma mala estufada e um chapéu panamá. Em cima da mesa, além das xícaras de café, havia duas passagens para as Bahamas. Sem dúvida que o ato mais glorioso de tia Berta acontecia depois da ceia. Sempre tão igual e tão aborrecida para nós. Sabonetes canforados! – lembrei.  Voltei à lojinha na beira da estrada, pedi dois deles para presente e entreguei para titia. Silenciosamente.

 

 

Débora Klempous / ND

 

Tia Berta e Rufino, vividos pelos atores Margarida Baird e José Ronaldo Faleiro, viveram um grande amor na adolescência - paixão que guarda um mistério e é relembrada a cada Natal

 

 

 

Fotos
Débora Klempous / ND

Elenco

Margarida Baird, 67, atriz e terapeuta
José Ronaldo Faleiro, 65, professor e diretor de teatro

 

Lista de autores por ordem de participação

Dirce Waltrick do Amarante, ensaísta, tradutora e dramaturga

Renato Turnes, ator, diretor de teatro e dramaturgo

Igor Pitta Simões, diretor de filmes de animação

André Felipe, dramaturgo

Luiza Lins, cineasta e diretora da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis

Romeu Martins, jornalista, escritor, autor de HQs

Jefferson Bittencourt, diretor de teatro e músico

Chico Caprario, ator, produtor, cineasta

Esteban Campanela, produtor, tradutor e intérprete

Christiano Scheiner, escritor, diretor e produtor cultural

Cíntia Domit Bittar, cineasta, diretora de “Qual Queijo Você Quer?

Luiz Nadal, jornalista e escritor

 

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