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Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018
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Conto infantil de James Joyce ganha tradução em português de Dirce Waltrick do Amarante

Texto de "Os gatos de Copenhague" foi enviado por carta por Joyce para o neto em 1936

Carol Macário
Florianópolis

Janine Turco / Arquivo / ND
Dirce Waltrick do Amarante primeiro lê alguns textos para o filho de dez anos. Se ele gosta, ela traduz

"Não posso te enviar um gato de Copenhague”, escreveu James Joyce (1882 – 1941) para seu neto de cinco anos, Stephen James Joyce, hoje com 81. O dia era 5 de setembro de 1936 e o autor irlandês estava na Dinamarca. Na carta ele explicava: “É porque não há gatos em Copenhague." A carta-conto “Os gatos de Copenhague” é uma das duas obras escritas por ele para crianças, ambas enviadas para o neto. O texto foi descoberto no ano passado, e ganhou uma tradução em português da catarinense Dirce Waltrick do Amarante. O livro foi lançado pela editora Iluminuras no domingo retrasado no Bloomsday (16 de junho), data em que se homenageia o irlandês e uma de suas obras mais célebres, “Ulisses”. As ilustrações são da italiana radicada no Brasil Michaella Pivetti.

“Joyce é considerado um autor hermético, de difícil acesso. Mas é interessante que ele escreve duas histórias para crianças, extremamente simples e acessíveis”, comenta a tradutora. No conto, o autor descreve para neto peculiaridades da capital da Dinamarca, como a inexistências de gatos, os policiais dinamarqueses que passam o dia em casa, na cama, bebendo leite e fumando charutos, e ainda os garotos de vermelho que passam “indo e vindo de bicicleta o dia inteiro, com telegramas e cartas e cartões postais.”

“A linguagem é bem direta, tem algumas inversões, mas não é elaborado. É uma carta para o neto, ele tentando se comunicar com uma criança”, diz Dirce. “Mas sempre deixa um mistério.” Ela comenta que quando Joyce estava terminando seu último romance, “Finnegans Wake” (1939), “o mais hermético da literatura ocidental”, segundo a tradutora, ele diz que vai se dedicar a contos para crianças.

“O gato e o diabo” foi o primeiro conto enviado para o neto, escrito em agosto de 1936 na França. “Esse conto é um pouco mais político”, afirma Dirce, que também traduziu esse texto e publicou pela Iluminuras. Já “O gato da Dinamarca” sugere mil interpretações - alguns especialistas afirmam que é uma crítica a um regime autoritário, à falta de liberdade.

Reprodução / ND
Capa de "Os gatos de Copenhague", ilustrado por Michaella Pivetti

Convite às crianças

Para Dirce Waltrick do Amarante, “Os gatos de Copenhague” é um convite para as crianças começarem a conhecer a obra do autor irlandês. Ela tem uma relação íntima com a obra dele. É autora de “Para ler ‘Finnegans Wake’ de James Joyce” e “As antenas do caracol: notas sobre literatura infantojuvenil”, e cotradutora, junto com Sérgio Medeiros, de uma antologia de ensaios de James Joyce.

“As minhas traduções são todas para o Bruno Napoleão”, diz ela, referindo-se ao filho de 10 anos para quem lê textos em inglês e francês. “Ele é meu termômetro. Se ele gosta, eu traduzo. Ele achou esse conto misterioso.”

Imbróglio editorial

No começo do ano passado, quando a obra de James Joyce caiu em domínio público, uma controvérsia envolvendo a publicação de “Os gatos de Copenhague” caiu na mídia. A editora irlandesa Ithys Press foi acusada de se apropriar indevidamente e sem conhecimento da Fundação James Joyce, fundada por Fritz Senn, do conteúdo da carta de Joyce. Em outubro de 2012, a editora norte-america Scribner, com copyright da Ithys Press, publicou o conto nos Estados Unidos. Só que, segundo Dirce, “tendo a obra de James Joyce caído em domínio público ninguém mais pode cobrar direito de posse sobre ela, ou parte dela.”

Dirce recebeu o texto de “Os gatos de Copenhague” da Fundação James Joyce para traduzir para o português.

 

Os gatos de Copenhague (2013). De: James Joyce. Tradução: Dirce Waltrick do Amarante. Ilustração: Michaella Pivetti. Editora: Iluminuras. 24 págs. R$ 33

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