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Terça-Feira, 18 de Dezembro de 2018
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Confrarias de Florianópolis - Grupos se reúnem em torno de afinidades e interesses comuns

Confrarias do vinho, poker, história. Os interesses são distintos, mas todos se reúnem com o desejo de fortalecer os laços de amizade

Carol Macário
Florianópolis
M. Kisner / Divulgação / ND
Viagem na história - Sociedade Histórica Desterrense

O ser humano não veio ao mundo para viver sozinho. Nem poderia: desde o nascimento precisa da mãe para alimentar-se e, ao passo que se desenvolve, a interação com um semelhante é quase vital. Além disso, de nada adiantaria um planeta tão exuberante se não fosse para celebrá-lo e compartilhá-lo com o outro. Talvez venha desse pensamento quase metafísico a idéia de confraternizar.

Em Florianópolis existem grupos de amigos que seguem à risca esse ideal e criaram confrarias – de acordo com o “Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa”, confraria deriva do verbo confraternizar, com origem no latim da palavra “fratre” (irmão).

Algumas delas hiper organizadas, outras quase secretas e fechadas, ou ainda livres e estranhas, essas confrarias reúnem pessoas diferentes mas com interesses em comum com o simples propósito de celebrar a amizade. As desculpas são muitas: vinho, samba, poker. Importante, mesmo, é interagir. “A amizade é verdadeiramente o bálsamo que enriquece nossos corações, prevalecendo sempre o discernimento de cada um no sentido de brincar e interagir respeitando as diferentes formas de pensar das pessoas”, resume Norberto Becker, 35, integrante da confraria “The Oldest Poker”.

Saiba mais:
Séculos atrás, as confrarias eram associações religiosas que reuniam parar promover o culto a um santo. Na Idade Média, funcionavam também como centro de apoio e ajuda aos seus integrantes, propiciando auxílio financeiro e moral. Atualmente são grupos de pessoas com alguma afinidade.

Confraria do vinho 

Pelo menos dez minutos antes do primeiro gole é recomendável que se abra a garrafa de vinho. “Isso se faz para que a bebida respire e se obtenha seu melhor sabor”, ensina o grupo de confrades do Momento do Vinho, confraria de amigos que encontrou a melhor das desculpas para cultivar amizade.

Há cerca de um ano as noites de sexta-feira são reservadas para celebrar a amizade e a bebida dos deuses. “No começo não era nada oficial. Nos encontrávamos sempre para conversar e cada um trazia seu vinho. Daí nasceu a ideia de socializarmos nossos conhecimentos e, acima de tudo, bater um bom papo”, diz  o publicitário José Antonio Bittencourt, 47. O grupo era fechado de início, mas hoje as mulheres também são bem-vindas. São dez integrantes fixos, mais dez “itinerantes”.  

As normas são apenas três: 1) cerveja não entra, 2) a confraria está aberta a novos participantes somente se forem convidados e 3) seguir à risca o lema “traga seu bom vinho e seu excelente papo”. As reuniões ocorrem geralmente no restaurante de propriedade de um dos integrantes e cada um leva dois vinhos (um bom e um diferente). Às vezes elegemos temas, como tipo de uva ou nacionalidade. “Sempre surgem surpresas. Tem vezes que um vinho caro acaba não valendo o que custa e aquele mais em conta surpreende”, afirma Jader Lisboa, 42.

 

Edu Cavalcanti / ND
Confrades do Momento do Vinho: José Antônio Bittencourt, Jader Lisboa, Paulinho Barboza e Marcelo Bohrer

 

Amigas para sempre

No ano 2000, quando a maioria ainda era solteira e sem tantas responsabilidades, cinco amigas de Florianópolis com nem tanto em comum se encontravam para conversar e se divertir. Cada uma de um lugar diferente, com aspirações e profissões distintas, essas cinco mulheres viram surgir uma amizade que ao longo do tempo só amadureceu e se fortaleceu. Há exatos 11 anos elas se encontram – no começo a cada 15 dias, agora uma vez por mês – sem falta. Pode ser num bar, num restaurante, num café, um jantar na casa de uma ou de outra, o importante é mesmo sentarem para conversar, ouvirem e serem ouvidas.

Mesmo depois de terem literalmente assumido a idade adulta, com todos os seus extras como trabalho, casamento, filhos, empresa, universidade, falta de tempo, Leila Machado, Marinuta Almeida, Fernanda Daura, Yda Barcellos e Simone Korn transcenderam essas demandas e saboreiam a amizade como há 11 anos. “Já sentamos para conversar, para rir, para discutir, até para rezar. Compartilhamos tudo, do bom ao ruim”, conta Leila.

Clube do Gourmet

Entre os grandes prazeres da vida, comer com certeza ocupa um dos postos de primeiro lugar. E foi para unir boa comida com excelente companhia que há 21 anos um grupo de amigos decidiu criar o Clube do Gourmet, uma das confrarias mais antigas de Florianópolis. Não chega a ser secreta, mas é uma sociedade organizadíssima, com calendário anual de atividades, normas e regimento interno. Os 48 integrantes dividem-se em cinco grupos – cada um promove um jantar por ano. O calendário também prevê uma viagem anual. “Já preparamos grandes jantares nas embaixadas brasileiras de Portugal e do Uruguai”, conta o médico Luiz Fernando de Vincenze, 66, presidente do clube há 11 anos.  

Dentre as cláusulas do regimento interno está apresentar as receitas utilizadas pelos grupos nas reuniões. O cardápio ao longo do tempo tem sido tão apetitoso que os confrades criaram uma revista quadrimestral, “Chef Magazine”, com informações das atividades do clube, o cardápio dos jantares e assuntos de interesse dos sócios. Não é todo mundo, porém, que se assume um chef. “Tem gente que cozinha bem, aquele que cozinha mais ou menos e aqueles que contratam alguém”, revela o presidente. Importante, mesmo, é apreciar a boa mesa e a companhia dos amigos.

Confraria “The Oldest Poker”

Por cima da mesa há fichas, dados, cartas e apostas. Mas o que menos conta para o grupo de 35 amigos apaixonados por poker é a competição ou compensação financeira. “Nosso objetivo é puramente a diversão, a cumplicidade de interesses, união no caminhar, independente de cor, sexo, ideologias políticas, times de futebol e credo”, afirma o advogado Norberto Becker, 35. Ele é o mediador da confraria batizada “The Oldest Poker”, criada há cerca de dois anos.

Uma vez por mês o grupo se reúne na casa de um dos integrantes, que além de ceder o espaço para a confraternização, também é o responsável pelo jantar. “Mesmo sendo bastante polêmico, defendemos o conceito de poker como esporte, uma vez que comprovadamente traz benefícios a saúde, ajudando a manter a vitalidade cerebral porque o raciocínio abstrato e a memória são continuamente aguçados”, explica Becker. A maioria dos confrades se conhece dos tempos de faculdade, ou mesmo do colégio. Há quem viaje de outros municípios como Tijucas e Balneário Camboriú para participar do encontro. Novos integrantes são bem-vindos, mas devem antes passar pelo “teste” de afinidade.

 

Alexandro Albornoz / ND
Confraria "The Oldest Poker"

 

Sociedade Histórica Desterrense

Não se espante se no próximo dia 28 de maio você se deparar com personagens em carne e osso dos tempos do Velho Oeste no Centro de Florianópolis. São pessoas apaixonadas por história integrantes da SHD (Sociedade História Desterrense), um grupo reconstrucionista de Florianópolis, criado pela historiadora Pauline Kisner em 2010 com o objetivo de estudar a história de uma forma lúdica.

Além de um fórum de discussões na internet, que conta com 50 pessoas de todo o Estado e de diferentes áreas de atuação, a sociedade promove eventos temáticos com o objetivo de literalmente reviver o passado por meio da experimentação, ainda que por algumas horas, do espírito de outras épocas.  Isso se traduz em vestir trajes de época, estudar a decoração, música, dança, literatura e culinária de época.

A SHD foi oficializada no ano passado, com o 1º Encontro Vitoriano de Florianópolis, e é aberta a novos participantes. “Não importa a profissão ou idade. O que vale é o interesse pela história”, afirma o jornalista Romeu Martins, 35, integrante e um dos diretores da sociedade.

Confraria do Samba

Não há nada mais conciliador e agregador que uma roda de samba. Bem sabem os 59 amigos que há pouco mais de seis meses reúnem-se uma vez ao mês para confraternizar e fazer aquilo que o brasileiro em geral mais gosta: samba! Tudo começou em novembro do ano passado, quando Gabriel Charlier Pereira reuniu alguns amigos de música erudita (orquestras) com amigos das rodas de samba – uma desculpa a mais para um churrasco. “No primeiro encontro compareceram 18 pessoas e hoje já temos um grupo de 59 amigos que se encontra uma vez por mês para celebrar a vida, música, arte e gastronomia”, relata Pereira.

Como o molejo de um samba, o grupo é bem democrático e aberto. Para variar, são organizados encontros temáticos, como Samba do Chapéu (todos de chapéu), Samba do + 1 (cada convidado teve que convidar mais um amigo), Samba da Caridade(todos  levam 1kg de alimento ou roupas), Samba Antigo(todos vestem roupas da década de 50, 60,70 e 80). O próximo vai ser o Sambar & Love (aproveitando o mês dos namorados para tocar sambas de dançar a dois).
 
Confraria Feminina do Champanhe de Florianópolis

“Diamonds are the girl’s best friends” (diamantes são os melhores amigos das mulheres) é uma famosa canção imortalizada por Marilyn Monroe nos anos 1950. Mas há quem diga que as bolhinhas de um champanhe são também os grandes amigos da alma feminina.  Quem atesta são as confreiras da CFCF (Confraria Feminina do Champanhe de Florianópolis), um grupo super organizado de cerca de 60 mulheres que às terças-feiras de cada mês se reúne para degustar espumantes.

A CFCF teve início em 2003 quando a arquiteta Denise Cunha convidou cinco amigas apreciadoras dessa deliciosa bebida para formar um grupo que se dedicasse a ampliar o conhecimento sobre espumantes. “Desde que começamos a Confraria, a venda de champanhes aumentou em até 40%”, afirma a atual presidente, Carmem Laitano. Isso quer dizer que a CFCF têm um papel importante de formação opinião na área. Ainda que seja uma confraria de amigas, o aprimoramento técnico é fundamental. “Todo mês a diretoria é responsável por convidar enólogos e sommeliers para palestras”, explica Carmem.

 

Alexandro Albornoz / ND
Confraria Feminina do Champanhe de Florianópolis
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