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Com o crowdfunding, produtores culturais tiram seus projetos do papel

Em apenas três anos, do início de 2012 a 2015, o número de projetos de Santa Catarina financiados coletivamente com sucesso através do site Catarse saltou de seis para 79, ou seja, aumentou mais de 13 vezes

Marciano Diogo
Florianópolis
Marco Santiago/ND
Banda Os Skrotes conseguiu materializar o CD e LP através do financiamento coletivo


Cansados de depender de editais públicos do Estado ou do incentivo de empresas privadas, artistas e agentes culturais catarinenses cada vez mais buscam maneiras alternativas de financiar seus projetos. O sistema de financiamento coletivo, através de plataformas on-line, tem sido a solução para muitos deles. Por esses sites, os artistas conseguem não só viabilizar a produção de conteúdo, mas também difundem e divulgam seus trabalhos com as recompensas oferecidas para os contribuintes, uma espécie de pequenos mecenas das ideias. O site de crowdfunding (traduzindo, financiamento de multidão) mais conhecido e antigo do Brasil, o Catarse (www.catarse.me/) é um exemplo: em apenas três anos, do início de 2012 a 2015, o número de projetos de Santa Catarina financiados coletivamente com sucesso através do site saltou de seis para 79, ou seja, aumentou mais de 13 vezes.

Atualmente, cerca de 80% dos projetos financiados através do Catarse são artísticos ou culturais, ou seja, envolvem a produção de algum álbum de música, livro ou filme. O sistema criado em 2011 por quatro empreendedores é inspirado no Kickstarter, plataforma americana que existe desde 2009 e é o maior site de crowdfunding do mundo. No Catarse, um dos atrativos é que o realizador oferece recompensas para cada pessoa que contribuir, essa recompensa pode ser um serviço ou produto. Mas o grande diferencial da proposta é o tudo ou nada: você estabelece uma meta, e tem um prazo de até 60 dias para arrecadá-la. Se atingir ou ultrapassar a meta, o produtor leva o dinheiro, porém se não chegar lá, não ganha um centavo e os colaboradores recebem o dinheiro de volta.

Muitos dos projetos financiados coletivamente alcançaram o sucesso de maneira excepcional, como o instrumento de arquitetura e engenharia “Mola”, que arrecadou mais de R$ 600 mil ou o filme nacional “Quando Parei de Me Preocupar Com Canalhas”, que arrecadou mais de R$ 35 mil e começa a maratona de festivais. Entre projetos de diferentes orçamentos está o da banda catarinense Os Skrotes, que através do site Todos Por Art (www.todospor.art.br/) arrecadou cerca de R$ 18 mil para conseguir produzir o LP e CD original, “Nessun Dorma”, lançado no último ano.

“Era nossa única solução. Já tínhamos o disco gravado, só não tínhamos como materializá-lo. Produzimos vídeos para ter um apelo maior e chamar as pessoas para contribuírem. Mais de 300 pessoas ajudaram. Também oferecemos recompensas para esses contribuintes, como o CD e LP, camiseta e adesivo”, afirmou o baterista Guilherme Ledoux. A banda, integrada também pelo baixista Chico Abreu e tecladista Igor de Patta, produziu 1.000 CDs e 250 LPs graças ao financiamento coletivo.

Eventos, cursos e shows financiados pelos fãs
Após o surgimento do Catarse, outros sites de financiamento coletivo foram criados com focos mais específicos. O Nós.Vc (www.nos.vc/pt) possibilita encontros como cursos, workshops, debates ou qualquer outra atividade de aprendizado. Entre esses encontros estão oficinas de vídeo, dança, literatura e até gastronomia. O próprio organizador do encontro define o número mínimo de inscritos e o prazo para alcançá-lo – se o encontro não tiver o número mínimo de participantes, não acontece. Os encontros acontecem nas cidades de Florianópolis, Manaus, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo. Em três anos de existência, 530 encontros já foram realizados.

As bandas que procuram financiamento para realização de shows e produção de CDs também têm alternativas pelos sites Traga Seu Show (www.tragaseushow.com.br) e Queremos (www.queremos.com.br/). A proposta é simples: os fãs se unem para escolher os artistas e onde querem vê-los tocar, e através de contribuições financeiras têm a chance de influenciar nas turnês e ganhar benefícios quando o show realmente acontecer. Eles também podem cooperar para que os músicos produzam seus álbuns. Para os artistas, esses sites também são uma boa maneira de conhecer sua popularidade.

Maira Bersch/ND
Escritor de Joinville Paulo Kielwagen possibilitou a publicação de seu livro através do site Catarse


O segredo: saber vender bem a ideia

O designer, ilustrador e cartunista de Joinville, Paulo Kielwagen, não pensou duas vezes quando decidiu inscrever o seu projeto do 2º volume de “Blue – Um dia de Gato”, no site da Catarse. O cartunista lançou o projeto em uma época bem agitada no país, durante a Copa do Mundo e mesmo assim superou a expectativa do financiamento. Ele explica que sabia o que poderia funcionar na divulgação do seu trabalho ou não, por que em 2013 ele já havia sido colaborador de outro projeto, que também teve sucesso e afirma: “tem que saber vender a ideia”. Em primeiro lugar, de acordo com ele, o projeto tem que ser bem feito, tem que pensar na parte visual, no design, ter as recompensas bem planejadas, se responsabilizar em pagar o frete, planejar bem o orçamento e ter paciência, muita paciência. “As pessoas tem um pensamento errado sobre financiamento coletivo. Elas acham que você vai colocar um projeto ali e todo mundo vai gostar e não é bem assim. Tem que ter uma estratégia”, afirma.

Nos dois meses em que o projeto esteve no ar, Kielwagen confessa que os apoiadores iniciais deram o impulso para que mais pessoas acreditassem na ideia. Para ele, não adianta colocar o projeto na plataforma e não divulgar, a dinâmica é realmente daqueles vendedores de livros que batiam de porta em porta, só que neste caso as portas são virtuais. Os dias que antecedem o fim do projeto, conta o autor, são preocupantes, pois a maioria dos apoiadores deixa para contribuir justamente nos últimos momentos.  “O pessoal recomenda 40 ou 45 dias, mas tem um período em que fica tudo parado. E no final bate o desespero mesmo”, brinca.

No dia 11 de julho de 2014 “Blue – Um dia de Gato” foi encerrado na Catarse e com 264 apoiadores, superou os R$ 15 mil orçados no projeto inicial e fechou com R$ 17.915. O projeto surgiu da criatividade e do olhar observador de Kielwagen. São histórias em quadrinhos, onde o gato da família é o personagem principal, Blue um gato da raça siamês que chegou a casa do cartunista em 2009 e junto com o seu irmão o gato Branco divide as atenções da casa. Em janeiro deste ano, Kielwagen participou, em São Paulo, do 31º Troféu Angelo Agostini, de onde voltou com o prêmio de Melhor Web Quadrinho com Blue e os Gatos. (Colaboração Suelen Soares)

Marciano Diogo/ND
O criador do site Catarse, Diego Borin, que o segredo para atingir o sucesso através do financiamento coletivo é abraçar o modelo e compreendê-lo


Em entrevista exclusiva, um dos criadores do Catarse, Diego Borin Reeberg, 27 anos, conversou sobre o crescimento da plataforma nos últimos anos. Formado em administração de empresas, chegou a morar em Florianópolis de 2004 a 2007, quando cursou engenharia mecânica na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Como e quando surgiu a ideia de criar o Catarse?

O site foi lançado na web em janeiro de 2011, mas vínhamos o desenvolvendo desde abril de 2010. Decidimos fazer uma plataforma de crowdfunding no Brasil, já existia o Kickstarter, que é o norte-americano, e ainda era pequeno e pouco conhecido. Vimos o modelo e constatamos que no nosso país havia muitos bons profissionais com bons projetos, que não tinham dinheiro para fazê-los acontecer. Os editais aqui funcionam, mas não funcionam para todo mundo, então buscamos um jeito de ajudar essas pessoas. Começamos em quatro pessoas que queriam empreender, e fomos em busca de um profissional de T.I. e criamos primeiro site de financiamento coletivo do Brasil. Agora já existem outros, como o Vakinha, mas que faz arrecadamento para questões mais superficiais, como comprar um presente de casamento. 

Existe um direcionamento ao tipo de projetos financiados através do Catarse?

Sim. São projetos criativos, que precisam ser finalizados, ter um começo, meio e fim. E precisam ser algo palpável, que seja entregue à comunidade, seja na forma de produto ou de serviço. Não pode ser algo exclusivamente pessoal e restrito, precisa ter um valor intelectual ou artístico compartilhável. Se for restrito, precisa ser direcionado às pessoas que apoiaram através de contribuições.

O mercado acolheu o Catarse quando o portal foi lançado?

Sim, aos poucos. Demorou um ano para o site ser conhecido e nos estruturarmos adequadamente. Foi um processo de pesquisa também de perfis dessas pessoas que estavam em busca de maneiras de financiar seus projetos. Mais do que isso, constatamos que existem pessoas que querem contribuir para esses projetos. Dos primeiros cinco projetos lançados no Catarse, quatro foram financiados, e juntos eles arrecadaram R$ 80 mil. Na maioria das vezes, as contribuições ocorrem através de pessoas conhecidas. Porém quanto maior o projeto, mais pessoas desconhecidas colaboram. Temos mais de dez projetos que captaram mais de R$ 100 mil cada. O maior deles captou mais de R$ 600 mil, o “Mola”, um instrumento direcionado para arquitetos e engenheiros para testarem estruturas baseadas em hastes de ferro.

Os projetos artísticos ocupam um espaço de qual relevância no Catarse?

Hoje, cerca de 80% dos nossos projetos são de arte e cultura. O financiamento coletivo vem com uma abordagem de independência, é o que esses agentes e artistas procuram, independência dos editais públicos, do Estado e de empresas privadas. Outros 20% são projetos que entram no escopo de empreendedorismo são projetos jornalísticos e científicos. Nosso modelo é tudo ou nada, se o proponente não conseguir atingir a verba proposta na apresentação do projeto, todo o dinheiro é devolvido para os contribuintes.

Como alcançar o sucesso no portal?

É necessário abraçar o modelo e compreendê-lo, entender como um trabalho e não como dinheiro fácil. As pessoas que alcançam o sucesso se preparam, estudam, fazem uma boa campanha de comunicação e entendem como podem beneficiar os contribuintes com as recompensas.

Catarse em números
Em cinco anos de existência, mais de 3.000 projetos passaram pelo Catarse, sendo que 1.600 deles acabaram sendo financiados com sucesso. Atualmente o portal tem 170 projetos captando que buscam financiamento; 90% dos projetos que captam mais de 1/3 do valor proposto na primeira semana de coleta atingem a meta; 25% dos projetos financiados através do site envolvem música; e 15% envolvem produção audiovisual. Santa Catarina é o 6º Estado com maior número de projetos financiados, com 79 projetos já financiados e 5 captando atualmente. Em apenas três anos, de 2012 a 2015, esse número aumentou 13 vezes – o número saltou de seis para 79, ou seja: apresentou um crescimento de mais de 1.200% dos projetos que conseguiram ser financiados coletivamente com sucesso. Ao todo, R$ 872 mil já foram arrecadados para projetos catarinenses, somando mais de 10 mil apoiadores. Em Florianópolis, 30 projetos já foram financiados pelo Catarse, sendo que 2 estão captando neste momento.

Leia também:http://ndonline.com.br/florianopolis/plural/26513-projetos-culturais-catarinenses-buscam-recursos-atraves-do-crowdfunding-um-financiamento-coletivo.html

Saiba mais:http://ndonline.com.br/florianopolis/plural/26515-abc-do-crowdfunding-saiba-no-que-prestar-atencao-quando-tentar-custear-seu-projeto-na-internet.html

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