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Com diferentes texturas, relevos e formatos, papel é utilizado como arte e experiência

Desde a fabricação de papel reciclado à encadernação manual, artistas e oficinas investem na produção de artigos como cadernos, agendas e scrapbooks

Gustavo Bruning
Florianópolis
01/09/2017 às 18H14

Por mais que os aparelhos de GPS e os smartphones tenham tornado os mapas obsoletos e os CDs e DVDs tenham sido abocanhados pelo streaming, a revolução tecnológica não é tão intensa em todos os mercados. Enquanto os e-readers não se tornam a prioridade das editoras, o papel continua dominando diversos cenários. Em Florianópolis, por exemplo, profissionais locais aproveitam o nicho para oferecer alternativas àqueles que ainda têm preferência por detalhes como a textura e o relevo.

Presidente da Coepad, Aldo Brito com as criações da oficina de papel reciclado, que chega a produzir 200 cadernos por dia - Daniel Queiroz/ND
Presidente da Coepad, Aldo Brito com as criações da oficina de papel reciclado, que chega a produzir 200 cadernos por dia - Daniel Queiroz/ND


O diploma de webdesigner e o apreço por livros digitais não substituem o carinho que Aleph Ozuas, de 43 anos, tem pelos trabalhos manuais. O catarinense explora os talentos na arte de crafting e encadernação manual por meio do site Corrupiola, que lançou em 2008, com a ex-mulher. O artista cria cadernos, agendas e ferramentas de encadernação, e acredita que o livro impresso está seguindo o mesmo caminho do vinil. “Antes do e-book não havia uma separação entre conteúdo e suporte. Com a chegada do digital, vimos como o suporte também é algo importante”, afirma.

Aleph considera os cadernos que produz como “livros em branco”. “Eles têm tiragem pequena e muitas pessoas os compram para colecionar. São livros-objeto, e cada peça é única”, garante. De fato, a combinação entre costura, tipografia e acabamento feito à mão deixa as suas peculiaridades. Para o artista, a questão sensorial – quando o tato capta detalhes da impressão da tipografia e da textura do papel – é algo que acrescenta à experiência de leitura e manuseio. “Eu leio muito no [e-reader] Kindle, e costumo comprar o impresso quando tem um acabamento especial que vale a pena, como em livros de arte”, conta. “A Cosac Naify foi uma editora que trouxe muita experimentação para o mercado editoral, com a combinação de várias técnicas.”

Aleph Ozuas acredita na experiência sensorial de leitura. Ele produz livros, agendas com as próprias ferramentas e também ensina - Daniel Queiroz/ND
Aleph Ozuas acredita na experiência sensorial de leitura. Ele produz livros, agendas com as próprias ferramentas e também ensina - Daniel Queiroz/ND


Para a idealizadora do projeto Armazém, Juliana Crispe, o manual e o digital têm tudo para colaborar no campo artístico. “Mesmo com os meios tecnológicos, a gravura, por exemplo, é algo que acaba resistindo – ela tem uma linguagem e uma técnica que permite pensar à frente”, conta. Como parte do Armazém, ela promove exposições e feiras de obras que sejam múltiplos, reunindo publicações, livros e cadernos de artista, além de postais, panfletos, cartazes, gravuras, cartões, entre outros. “Esse tipo de arte, produzida em papel, envolve o tocar e o sentir, envolve experimentar além do olhar”, afirma. Além disso, defende que a materialidade do papel torna a arte ainda mais acessível. “Quando você consegue reproduzir uma obra, o público consegue levá-la consigo.”

“O computador é uma coisa trivial para o meu trabalho, mas eu nunca tive agenda eletrônica”, garante a jornalista Angelita Maria Correa, de 45 anos. Segundo ela, o valor que o material físico agrega vai além do resultado final. Responsável pela marca Papel Bonito, a profissional produz álbuns utilizando a técnica do scrapbook há mais de uma década, e hoje investe na criação de artes para miolos de agendas. “Muitas pessoas não revelam mais fotos hoje em dia. Por isso o scrapbook é legal: ele permite contar uma história”, explica, apesar de atualmente ser demanda estar mais voltado mesmo às agendas.

Ferramentas e cadernos

Nos materiais que produz como parte da loja Corrupiola, Aleph Ozuas empresta diferentes técnicas de tipografia, colagem e encadernação manual, além de utilizar papel pólen e papel artesanal. Também usa sobras de papel e realiza trabalhos colaborativos, como os cadernos com capas criadas pela ilustradora inglesa Thereza Rowe e pela artista Pati Peccin, de Florianópolis, do selo Patifaria.

Aleph Ozuas produz ferramentas para encadernação e cadernos com capas criadas pela artista Pati Peccin - Daniel Queiroz/ND
Aleph Ozuas produz ferramentas para encadernação e cadernos com capas criadas pela artista Pati Peccin - Daniel Queiroz/ND


O primeiro contato com a arte, segundo o doutorando em literatura, ocorreu na infância. “Eu tirava os grampos e costurava as revistas de histórias em quadrinhos, para que eles não enferrujassem”, relembra. Foi quando Aleph conheceu o poeta e artista carioca Cleber Teixeira, fundador da editora Noa Noa, que a paixão foi intensificada. Junto veio o interesse pela encadernação manual e por cursos na Oficina Tipográfica São Paulo.

Apesar da essência artesanal do Corrupiola, o mundo virtual faz parte do projeto. “Mesmo que eu trabalhe com algo digital, o físico ainda traz as ideias”, afirma. Por meio do site, Aleph já vendeu prensas, gabaritos e berços de encadernação para clientes de Portugal, Estados Unidos e Canadá. As peças, feitas de madeira de lei, são definidas pelo artista como “versões mais práticas e portáteis de ferramentas clássicas”. Entre os desafios do negócio estão a logística de envio e a falta de matérias-primas na região. “Preciso buscar em São Paulo os materiais de marcenaria e para a confecção dos cadernos”, diz.

“O craft é um artesanato com design agregado. Sinto que nos últimos três anos esse mercado tem crescido muito, pois estamos vivendo um retorno às técnicas manuais”, garante. Parte do talento de Aleph é compartilhado em oficinas, como a que ocorre na próxima quinta-feira (7), na Faferia, no Centro de Florianópolis. Além disso, o artista é o convidado especial da 3ª edição da Feira de Arte de Florianópolis, que será realizada no Centro da cidade no próximo sábado (9).

Scrapbooks e agendas

O trabalho de Angelita Maria Correa com álbuns de scrapbook começou em 2004, após a perder a filha. A jornalista decidiu guardar os registros mais importantes da menina em um álbum especial, mas não encontrou um design apropriado. Foi então que conheceu a técnica por meio da internet, e, logo depois, fez aulas em São Paulo. “Hoje em dia é um grande mercado, tem muita gente fazendo scrapbooks em Florianópolis”, explica.

Angelita Maria Correa dispensa  a agenda eletrônica. Ela cria estampas para agendas e faz scrapbooks sob encomenda - Flávio Tin/ND
Angelita Maria Correa dispensa a agenda eletrônica. Ela cria estampas para agendas e faz scrapbooks sob encomenda - Flávio Tin/ND


Mesclando design e texto – suas duas paixões, Angelita começou a explorar diferentes tipos de papéis, como o chipboard. Depois de um tempo, abriu um escritório na própria casa e passou a ensinar a técnica. “Eu sempre fui muito ligada a cores, papéis e estampas, e aquilo era uma pira”, diz. A jornalista chegou a morar em Barcelona, onde ensinou a criar scrapbook em cursos.

Descontente com a simplicidade das páginas das agendas, escolheu criar estampas no Adobe Illustrator. “É [um trabalho] intuitivo. Nunca fiz pesquisa de tendências e sempre criei o que tenho vontade de usar”, revela. Com coleções anuais, o trabalho passou a ser mais intenso. “O que mais me realiza hoje é desenhar as agendas. Essa parte dos álbuns é muito legal, mas tem muita logística com fornecedores”, conta. No último ano, Angelita vendeu dois mil pacotes com 180 folhas para 37 lojas de todo o Brasil.

Oficina de papel

Quase duas décadas após a fundação da Coepad (Cooperativa Social de Pais, Amigos e Portadores de Deficiência), a oficina de papel reciclado ainda faz parte da rotina do espaço, que produz aproximadamente 200 cadernos por dia. “É o tipo de trabalho que ajuda a ter paciência com os outros”, conta a coordenadora da oficina, Fabrícia Silveira.

Solange Salles Schiefler (à esq.) é uma das participantes da oficina de papel reciclado da Coepad, que funciona há quase duas décadas - Daniel Queiroz/ND
Solange Salles Schiefler (à esq.) é uma das participantes da oficina de papel reciclado da Coepad, que funciona há quase duas décadas - Daniel Queiroz/ND


De segunda a sexta-feira, 12 pessoas participam da confecção de papel, que é utilizado em capas de cadernos, agendas e cartões. Após o processo de trituração, o material vai para a água e é mexido em um liquidificador. Quando vira massa, são adicionadas fibra e cola à mistura, que vai para o tanque e para a prensa antes de ser pendurada para secar.

Solange Salles Schiefler, de 52 anos, participa da Coepad há 10 anos já está habituada à rotina de produção do papel. “É bom porque é uma forma de a gente não ficar em casa e ver os amigos”, diz. O trabalho favorito dela é a capa que mescla sobras de papel à folha reciclada.

Voltada para deficientes mentais, a Coepad busca desenvolver a cidadania de seus cooperados através do trabalho. “Nós começamos reciclando papel, mas percebemos que faltava mercado. Aí criamos as oficinas, que hoje são de papel artesanal, cartonagem, acabamento gráfico, serigrafia e corte e costura”, conta Aldo Brito, presidente da cooperativa. Atualmente, o projeto tem uma linha de 40 produtos, que são vendidos na UFSC, em empresas e na sede, localizada no Estreito.

Programe-se

• 2/9, 14h, Aniversário de 1 ano Espaço Cultural Armazém - Coletivo Elza
Rodovia Gilson da Costa Xavier, 942, Sambaqui, gratuito
• 7/9, das 9h30 às 12h e das 13h30 às 17h, Oficina de encadernação com Aleph Ozuas
Faferia - DNA de Arte, rua Fernando Machado, 261, Centro, R$ 250
• 9/9, das 11h às 17h, Feira de Arte de Florianópolis – Ano 3 – Encadernação
Rua dos Ilhéus, 344, Centro, Gratuito

Corrupiola – Experiências Manuais
corrupiola.com.br

Papel Bonito
papelbonito.com.br / (48) 8805-3142

Coepad
coepad.com.br / (48) 3222-8757
Rua 14 de Julho, 107, Estreito

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