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Morre aos 88 anos o cineasta italiano Vittorio Taviani

Ao lado de seu irmão Paolo, ele assinou alguns dos grandes filmes do cinema italiano

Folha de São Paulo
São Paulo (SP)
15/04/2018 às 18H57

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Vittorio Taviani, que, ao lado de seu irmão Paolo, assinou alguns dos grandes filmes do cinema italiano, morreu em Roma aos 88 anos. A morte do cineasta foi confirmada neste domingo (15) pela família.

Doente havia bastante tempo, ele realizou com seu irmão 15 longas-metragens. Entre os mais famosos estão "Pai Patrão", Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1977, e  "La notte di San Lorenzo", Urso de Ouro em Berlim em 1982.

Nascido em 20 de setembro de 1929 em San Miniato, na Toscana, Vittorio era dois anos mais velho que seu irmão Paolo, com quem formou um dueto quase único na história da sétima arte. 

Fortemente inspirados pelo mestre do neo-realismo Roberto Rosselini, os dois irmãos iniciaram suas carreiras na década de 1960. Abordando questões sociais, seu cinema atípico foi marcado por um estilo literário, misturando história, psicanálise e poesia.

Irmãos Taviani renovaram o olhar de esquerda no cinema

A morte de Vittorio Taviani em Roma, aos 88 anos, põe fim à dupla mais fértil da história do cinema, talvez desde Laurel & Hardy. Foram mais de 20 filmes feitos em parceria com o irmão Paolo. Colaboração mais complexa, porém, quando se trata de dois diretores-roteiristas, mas de rara constância e entendimento mútuo.

Em resposta a um jornalista que lhe perguntara qual a tarefa de cada um dos irmãos na direção e na escrita de seus roteiros, um deles respondeu: "Nós somos que nem o café com leite. Impossível definir onde termina o café e onde começa o leite".

Desse entendimento surgiu uma das obras mais significativas da geração italiana que começa a filmar nos anos 1960 na Itália, e que inclui nomes como Marco Bellocchio, Bernardo Bertolucci, Ettore Scola. A questão: como Paolo dará sequência a essa obra sem seu irmão?

Ela começa com a colaboração entre os cineastas nascidos em Pisa, na Toscana, e o amigo Valentino Orsini, da mesma cidade. Juntos os três montarão peças de teatro e se lançarão no cinema com "Un Uomo a Brucciare" (um homem para queimar) (1962) e "Os Fora-da-Lei do Casamento" (1963).

Anos antes, em um documentário feito em colaboração com Joris Ivens (1898-1989), já é possível encontrar a preocupação política que norteou o trabalho dos irmãos: "L'Italia non È un Paese Polvero" (a Itália não é um país pobre) (1960).

No início de carreira, eles encontram a esquerda em crise: logo em "Os Subversivos" (1967) é possível ver alguns militantes de esquerda discutirem suas escolhas e os rumos a seguir após o enterro do velho líder comunista Palmiro Togliatti.

Uma prefiguração do maio de 68, talvez. Mas tanto "Allonsanfán" (1974) como "Pai, Patrão" (1978) dão sequência a seu trabalho crítico. Esse último será seu primeiro grande sucesso internacional, após ganharem a Palma de Ouro daquele ano em Cannes.

A trajetória de Gavino, menino do sul da Itália que deve abandonar os estudos para ajudar o pai no trabalho diário é recebida como uma renovação na perspectiva do olhar de esquerda. Mais do que se fixar em ideias abstratas, os Taviani observam o que há de concreto.

Segue-se outro triunfo em Cannes com "A Noite de São Lourenço", (1982), reconstituição de um massacre praticado pelos nazistas na Toscana, já no final da Segunda Guerra.

No que tem de melhor, assim como em suas fraquezas, o cinema dos irmãos Taviani refletiu em grande medida a crise do pensamento de esquerda desde os anos 1960, mas também de um cinema que precisa se impor como produto cultural e cujo apelo popular diminui consideravelmente. É o que se sente em "Kaos" (1984), adaptação de série de contos de Pirandello sobre o Sul da Itália, e o solene "César Deve Morrer" (2012), ganhador do Urso de Ouro no Festival de Berlim.

Uma bela exceção a essa tendência é "Bom Dia, Babilônia" (1987), homenagem ao próprio cinema na pessoa de D. W. Griffith, aqui apanhado no momento em que filma sua obra-prima "Intolerância" (1917). Mas, sobretudo, tributo à participação dos artesãos italianos (toscanos, aliás) responsáveis pela construção de parte dos cenários. Entre a modéstia e a tradição europeia, de um lado, e a opulência e a vitalidade americana, de outro, Paolo e Vittorio Taviani ergueram um significativo monumento à arte que praticaram.

Arte essa que praticaram com dignidade em meio às turbulências da política italiana, da esquerda, do cinema italiano e do cinema em geral. Menos angustiados e inconstantes que Bellocchio, menos populares que Scola, menos sofisticados que Bertolucci, estabeleceram-se como talvez a melhor representação da solidez de uma tradição.

A questão é: sem Vittorio, conseguirá Paolo dar sequência a essa obra irregular e digna?

Veja abaixo filmografia assinada por Paolo Taviani e Vittorio Taviani, esse último morto neste domingo (15).

Filmografia

"L'Italia non È un Paese Povero" (a Itália não é um país pobre) (1960), co-direção com Joris Ivens

"Un Uomo a Brucciare" (um homem para queimar) (1962)

"Os Fora-da-Lei do Casamento" (1963)

"Os Subversivos" (1967)

"Sob o Signo do Escorpião" (1969) 

"Um Grito de Revolta" (1972)

"Allonsanfan" (1974)

"Pai Patrão" (1977)

"Il Prato" (o prado) (1979)

"A Noite de São Lourenço" (1982)

"Kaos" (1984)

"Bom Dia Babilônia" (1987)

"Noites com Sol" (1990)

"Aconteceu na Primavera" (1993)

"As Afinidades Eletivas" (1996)

"Tu Ridi" (você ri) (1998)

"Resurrezione" (ressurreição) (2001)

"Luisa Sanfelice" (2004)

"La masseria delle allodole" (a fazenda das cotovias) (2007)

"César Deve Morrer" (2012)

"Maravilhoso Boccaccio" (2015)

"Uma Questão Pessoal" (2017)

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