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Sábado, 17 de Novembro de 2018
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Chef Cadu Minutella conta como era cozinhar para membros da família real

Recém-chegado ao Brasil depois de viver dez anos na Europa, ele lembra das experiências que viveu em Londres

Ingrid Fagundez
Florianópolis
Rosane Lima/ND
Cadu Minutella no Café da Corte, em São José, onde hoje comanda a cozinha
Chef Cadu Minutella no Café da Corte, em São José, onde há quatro meses comanda a cozinha

“Nunca mais faça isso!”. “Você tocou nele?”,  perguntou o chef de cozinha do Cavarly & Guards Club, Paul Farmer, quando o também chef brasileiro Cadu Minutella contou que havia encontrado o príncipe William no banheiro dos funcionários. Os dois trabalhavam no restaurante do Cavarly, clube londrino exclusivo para ex-oficiais da cavalaria e guarda do exército britânico, o que inclui os homens da família real. “Não, só dei um ‘oi’”, respondeu. Minutella conhecia as regras - não se pode tocar, olhar ou falar diretamente com um membro da família real -, mas ele não tinha reconhecido aquele “cara alto, branco e de bochechas muito vermelhas”.

Segundo na hierarquia do restaurante, o chef que hoje está à frente da cozinha do Café da Corte, em São José, era o único brasileiro entre os sete chefs do lugar. A equipe do Cavarly era frequentemente deslocada para o Palácio de Buckingham e cozinhava em chás da rainha Elizabeth, eventos dos príncipes e até nas bodas de Kate Middleton e príncipe William.

Minutella foi morar em Londres em 2002, seguindo a irmã que se mudara pouco antes. Apesar das origens italianas, nunca havia trabalhado com gastronomia no Brasil – tinha uma loja de equipamentos para escalada em São Paulo. Com inglês limitado, no primeiro ano chegou a ter três trabalhos: entregava frutas, pizzas e lavava pratos em um pub. A rotina desgastante de três horas de sono por dia em uma cama alugada durou dois meses. Minutella dormia no mesmo quarto que outros três imigrantes, em uma casa onde moravam 17 pessoas.

O primeiro contato profissional com a culinária ocorreu quando um dos cozinheiros do pub deixou o cargo e Minutella começou a fazer as saladas. Depois, foi para Portugal, onde foi merendeiro em uma escola e cozinhou em restaurantes típicos, aprendendo os segredos de um bom bacalhau e a importância dos azeites. Em 2005 mudou-se com a mulher para a Itália. Lá, cursou gastronomia na cidade de Pollenzo: quatro anos de estudo para aprofundar o que aprendeu primeiro na prática.

De volta a Londres

Já casado e com uma filha, o brasileiro decidiu voltar a Londres em 2009. Trabalhou no Park Plaza Riverbank, um hotel quatro estrelas, onde ficou por um ano. Quando saiu, espalhou currículo por Londres. Um deles foi parar nas mãos de Paul Farmer, do Cavarly & Guards Club. No local presenciou momentos peculiares, como o dia em que rainha Elizabeth 2a se tornou a primeira mulher a entrar no clube – exclusivo para homens – pela porta da frente. Ela queria comer um sanduíche de salmão defumado, “uma das opções mais simples do cardápio”, já que o peixe é uma variedade comum no país. “Às vezes até a rainha quer um pão com ovo”, conclui.

Chefs durões

Cadu Minutella sofreu com a rigidez dos chefs ingleses. Paul Farmer o fez preparar seis vezes um omelete até que o resultado saísse completamente branco, segundo Farmer, a cor correta para um omelete. “Ele jogou as primeiras cinco tentativas no lixo”, lembra Minutella. O inglês jamais elogiava seus subordinados, soltando no máximo um “aceitável”. “Era muita pressão, pensei em sair várias vezes. Nos primeiros seis meses queria jogar uma panela na cabeça dele”, confessa.
Mas Farmer não era o primeiro na hierarquia dos cozinheiros durões.

O título era do chefe principal do Palácio de Buckingham, Mark Flanagan. No almoço do casamento de Kate Middleton, refeição que Minutella ajudou a preparar, Flanagan descartou centenas de yorkshire puddings – canapés tipicamente britânicos –, porque estavam alguns milímetros abaixo da altura ideal.

Se sofreu com os desmandos dos chefs no início, Minutella acabou agradecendo-lhes pela disciplina que adquriu. Aos 37 anos ele voltou ao Brasil para acompanhar a mulher fotógrafa e está trabalhando em São José há quatro meses.

Ele traz da organização britânica uma observação à gastronomia brasileira. “O Brasil ainda está começando a descobrir essa área. As faculdades não preparam os alunos para a cozinha em termos de pontualidade, precisão e cuidado”.  Ele lembra de uma expressão: “take care for”. “É preciso ter carinho, cuidado, preocupação, importar-se com a comida”.
Apesar das dificuldades iniciais, Minutella tenta passar essas noções a seus assistentes em seu emprego atual. O nome do lugar não poderia ser mais apropriado: Café da Corte.

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