Publicidade
Segunda-Feira, 19 de Novembro de 2018
Descrição do tempo
  • 24º C
  • 18º C

Cena 11 Cia de Dança cria financiamento coletivo para sair de situação de emergência

No alto de quase 25 anos de história, o o grupo de dança contemporânea de Florianópolis enfrenta sérias dificuldades

Karin Barros
Florianópolis
31/03/2017 às 17H38

Com medo de ter o mesmo fim de várias companhias de dança de processo continuado do mundo, o Cena 11 Cia. de Dança, de Florianópolis, com quase 25 anos de história, abriu uma conta de financiamento coletivo pela internet. Desde o começo de março, a companhia de dança contemporânea busca arrecadar R$ 45 mil, o que refletiria em dois meses de parcial manutenção da equipe, estreia da peça “Protocolo Elefante” na Capital e ciclos de aulas abertas e ensaios assistidos. A arrecadação segue até o dia 16 deste mês, e até a última quarta-feira o grupo precisava ainda de 70% do valor.

Parte do elenco, da esq. para a dir.: Jussara Belchior, Natascha Zacheo, Marcos Klann, Alejandro Ahmed, Aline Blasius, Malu Rabelo e Mariana Romagnani - Daniel Queiroz/ND
Parte do elenco, da esq. para a dir.: Jussara Belchior, Natascha Zacheo, Marcos Klann, Alejandro Ahmed, Aline Blasius, Malu Rabelo e Mariana Romagnani - Daniel Queiroz/ND


Segundo o diretor e fundador do Cena 11, Alejandro Ahmed, 45, a base histórica e motivacional para iniciar o projeto no site Catarse é que é raro um grupo de pesquisa continuada no Brasil e no mundo. “A gente precisar postular novas lógicas que comecem com essa participação de pessoas que de alguma forma se interessem pelas questões de produção de conhecimento por meio da dança ou o reconhecimento da área artística como pesquisa, criar novos modos de operar, para que a coisa não pare”, coloca ele.

O Cena 11 tem como foco de formação e manutenção do elenco técnico e artístico, um local de aprimoramento vertical. Por causa de trabalhos realizados por eles, pesquisas sobre e para o corpo obtiveram êxito maior do que se fossem realizadas por cálculos binários ou atendimentos funcionais. Atualmente, o grupo conta com nove integrantes mais o diretor, sendo que três deles estão há mais de 20 anos juntos, como é o caso da bailarina Karin Serafin, Hedra Rockenbach e de Malu Rabelo. A mais nova é Natacha Zacheo, que integra o grupo há um ano.

Durante 2006 e 2007 e os anos de 2010 e 2013, a companhia sobreviveu por meio do patrocínio do edital da Petrobras. Porém, o último lançado, e que seria válido por três anos – voltado para manutenção e continuação de companhias, coisa rara no país –, eles não venceram. “Ali começamos a visualizar o que era patrocinado e o que era colocado à margem do objetivo principal do patrocínio. Se fazia necessário uma clareza de como trabalhar com esses editais. A ideia de produto fazia com que toda uma pesquisa fosse negligenciada como algo que não tem valor de resposta”, explica Alejandro.

Porém, agora a companhia não recorta mais o projeto como se fossem produtos a serem consumidos por meio do financiamento do edital, mas sim colocam o edital em função da elaboração, conclusão e engajamento de um projeto maior. O caso do espetáculo “Protocolo Elefante”, que ainda não estreou em Florianópolis, tem ligação com outros três editais: o Elisabete Anderle, de Santa Catarina, mas que não é lançado desde 2014, o federal Klauss Vianna e o Rumos Dança, do Itaú Cultural. “Nossa dança se qualifica pela singularidade, mas não coopta com o tipo de dança para exportação de brasilidade, regionalismo, que transforma sua comunicação em uma mensagem barata, de adesão a parâmetros de identidade, que aliás nem sempre respondem a realidade de cada local onde você está inserido. Mesmo assim, nossas apresentações sempre têm lotação máxima”, salienta o diretor.

Aquecimento da bailarina Aline Blasius.  Cena 11 é um dos grupos mais consistentes de dança contemporânea  do país - Daniel Queiroz/ND
Cena 11 é um dos grupos mais consistentes de dança contemporânea do país - Daniel Queiroz/ND



Dança contemporânea internacional 

Com 15 obras estreadas entre 1994 e 2017, o grupo tem ultrapassado as fronteiras de Florianópolis e do Brasil e tem sido reconhecido pela singularidade de suas propostas e criações em dança. Para o diretor, em geral tanto a arte quanto a educação são menosprezadas e as pessoas começam a achar que tê-las é um privilégio e na verdade é um direito. “Nós temos no mínimo o compromisso com a história da companhia, que reflete em um compromisso com a história da sociedade na qual estamos inseridos”, diz.

Historicamente, o Cena 11 colocou a dança contemporânea catarinense a nível internacional. Já recebeu bailarinos de diversos lugares do mundo, como Argentina, México e Alemanha, e mesmo de diversas cidades brasileiras. Porém, o diretor acredita que a quebra da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, que não é lançada há quase dez anos, dificulta o acesso a patrocinadores e à condição mais aberta a pesquisas verticais para a arte. “Hoje, nenhum bailarino consegue viver só do Cena 11, todos fazem alguma espécie de ‘bico’, como motorista de Uber, por exemplo, para se sustentar. Ninguém consegue estar ligado com a tranquilidade necessária para os estudos”, pontua ele.

Muito no Cena 11 já foi mudado em busca de atender de forma mais clara o público, porém, Alejandro afirma que isso foge do conceito. “Não é sobre reconhecimento, mas conhecimento. Falta gabarito técnico sobre as questões da cultura no país para que a gente tente entender o que é isso com relação ao mundo em 2017”, explica ele sobre a falta de apoio no país.

O grupo, mesmo com as dificuldades, nunca parou de se apresentar. Eles precisam manter uma equipe que custa de forma mínima cerca de R$ 340 mil por ano.

"Nossa dança se qualifica pela singularidade, mas não coopta com o tipo de dança para exportação de brasilidade, regionalismo, que transforma sua comunicação em uma mensagem barata, de adesão a parâmetros de identidade, que aliás nem sempre respondem a realidade de cada local onde você está inserido.” - Alejandro Ahmed, diretor e fundador do Cena 11

 

Sem o Catarse, o Cena 11 Cia. de Dança entra em estado de emergência total - Daniel Queiroz/ND
Sem o Catarse, o Cena 11 Cia. de Dança entra em estado de emergência total - Daniel Queiroz/ND




Grande horizonte superficial 

Entre os nove bailarinos presentes, não há um padrão de perfil, e isso é justamente uma das características principais dos estudos e do próprio grupo. “A questão do elenco é vital para que a gente crie um modo de existência, e não é para fazer da diferença de cada corpo uma bandeira de diversidade. É justamente entender que sem a diferença não existe diversidade. A diferença vai gerar um modo de pensar dança que advem dela”, coloca o diretor.

Cada trabalho do Cena 11 carrega um pouco dos anteriores, com isso o resultado de um reverbera no próximo espetáculo e assim por diante. “A tensão dos estudos se transforma em outras coisas o tempo inteiro”, conta.

Para esse ano, acreditando que a verba do Catarse entrará, a equipe já tem projeto para procurar coproduções internacionais e no Brasil, em parceria com o Sesc São Paulo e o Jurerê Sport Center, que cede o espaço para os ensaios. Também tem uma pequena turnê programada para a Alemanha em novembro. “Temos pré-convites, mas eles não suprem nem metade das necessidades da companhia. A gente não consegue pagar retroativamente os salários, isso afeta o psicológico de cada um”, explica o diretor.

Sem o Catarse, o Cena 11 Cia. de Dança entra em estado de emergência total. “Provavelmente vamos acabar não conseguindo compartilhar tudo aquilo que foi conquistado através do ‘Protocolo Elefante’ no próprio lugar onde estamos inseridos”, lamenta Alejandro.

Perto de completar 25 anos de história e aprendizados, o diretor diz ainda não estar pensando nas comemorações. “A gente está pensando tanto em não morrer hoje, que aniversário de 25 é a eternidade. Vai se estabelecer o período de fechar as portas e cancelar ensaios”.

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade