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Cem anos do samba: a história de quem ainda preserva a cultura na Grande Florianópolis

Conheça os principais redutos do samba na região e relembre a história deste gênero que é genuinamente brasileiro

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
11/11/2016 às 16H14

Quando registrou a música “Pelo telefone” no departamento de direitos autorais da Biblioteca Nacional, em 27 de novembro de 1916, o compositor Ernesto Joaquim dos Santos protagonizou um ato altamente simbólico para a cultura brasileira. Embora haja dúvidas sobre a real autoria da canção – ela pode ter sido uma criação coletiva, tradição nas rodas e terreiros da periferia do Rio de Janeiro de um século atrás –, Donga, como era conhecido, entrou para a história como o autor do primeiro samba do país, gravado logo depois, no início de 1917. Mais tarde, o jornalista Mauro de Almeida foi incluído como parceiro na composição, regravada por gente como Nelson Sargento, Martinho da Vila e Diogo Nogueira.

Lídio é reconhecido, cumprimentado e reverenciado, sempre com seu terno claro, gravata vermelha e chapéu - Flávio Tin/ND
Lídio é reconhecido, cumprimentado e reverenciado, sempre com seu terno claro, gravata vermelha e chapéu - Flávio Tin/ND



Filho do maxixe e descendente do rancho, o samba está completando 100 anos como um gênero genuinamente brasileiro, mescla de múltiplas influências e resultado do caldeamento de culturas que caracteriza o país. Não há região, por mais refratária que seja ao ritmo, que não ensaie um batuque nas esquinas, nas praças, nos bares, nos clubes, no Carnaval. Ele se transformou, ganhou nova roupagem, fez concessões, mas resiste e não raro arrebata também as novas gerações.

Nesse contexto, Florianópolis e região não ficam para trás. Em diferentes bairros há casas que abrem as portas para o chamado “samba de raiz” e congêneres como o choro, a gafieira e a seresta. O Rancho do Neco, na Ponta do Sambaqui (hoje administrado por Sebastião Sete Cordas), o Bar do Noel, na travessa Ratcliff, o Qualé Mané, que Neco abriu na praça Olívio Amorim, o Samba de Raiz, na Joaquina, e a Casa do Noca são exemplos disso. Os saudosistas também citam  o Bar do Tião, do qual muitos desses estabelecimentos atuais são tributários, uma referência do samba que já fechou as portas, no bairro Monte Verde.

Há ainda as residências que se tornaram redutos do samba, como a Casa da Verônica, no Saco dos Limões, que junta boa música com eventos que promovem a reflexão sobre a afrodescendência e temas afins. “Não dá para ficar rico com o samba, mas existe um mercado, bons compositores e público fiel”, diz Verônica, que é professora de música, intérprete e faz doutorado em educação, com foco nas manifestações da cultura sul-brasileira. No bar Qualé Mané, Neco abre espaço para gente como Maria Helena, Raquel Barreto, Wagner Segura e os grupos Choro Xadrez e Couro de Gato.

Não menos importante é o trabalho do bloco Baiacu de Alguém, que realizou em outubro um grande show com 15 músicos da Ilha para comemorar os 25 anos de vida e o centenário do samba – e que tem uma forte atuação em Santo Antônio de Lisboa, valorizando as tradições locais e incentivando a formação e expressão musical dos moradores do distrito. “Aqui, não faltam talentos e bons artistas”, diz Luciane Motta, integrante do grupo que ajuda a organizar a programação da associação cultural que leva o nome do bloco.

 

Do breque à exaltação

A origem do samba pode ser buscada no batuque e nas danças dos escravos africanos e, por isso, a gênese do ritmo é difusa – os negros estavam no Maranhão, em Pernambuco, na Bahia, no Rio e em muitos outros pontos do país. Mas foi quando as danças de roda dos morros cariocas desceram para a cidade e gestaram o samba urbano que o gênero se espalhou por todo o território nacional. Foi numa dessas rodas – a Casa da Tia Ciata, na praça Onze, reduto de grandes músicos – que “Pelo telefone” surgiu e, por razões óbvias, foi reivindicado por diferentes compositores. A versão original, chamada “Roceiro”, foi criada com as participações de Pixinguinha, Sinhô, João da Baiana e outros músicos. Houve sambas anteriores, mas nenhum deles foi registrado oficialmente.

A palavra pode ter derivado de “semba”, termo inspirado na língua dos angolanos e congoleses escravizados, e ganhou a forma atual a partir da incorporação de estilos como o maxixe, o lundu, a polca e o xote e de instrumentos como o violão e o cavaquinho. O rádio, principal meio de comunicação na época, foi o instrumento de difusão do samba, a partir do Rio, capital da República, para todos os recantos do país. Com o respaldo da intelectualidade e da classe média carioca, o ritmo antes criminalizado, de origem periférica e, portanto, cercado de preconceitos, passou a ser visto como um símbolo da identidade brasileira. Quando os desfiles de carnaval foram oficializados, em 1935, pela prefeitura do Rio, o samba ganhou status e prestígio sem precedentes.

Os especialistas dividem o gênero em pelo menos quatro modalidades: o samba de breque, que tem paradas súbitas onde o cantor pode encaixar falas soltas (caso de “O rei do gatilho”, gravado por Moreira da Silva em 1962); o samba-canção, mais romântico e sentimental (“Castigo”, de Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves, é um bom exemplo); o samba- enredo, sempre temático, ligado aos desfiles das escolas de samba; e o samba-exaltação, com temas patrióticos, como ocorre com “Aquarela do Brasil”, de Ari Barroso e gravada por Francisco Alves em 1939.

 

Música sob o olhar crítico do dono

Nascido em São Leopoldo (RS), Neco é mais manezinho que muitos nativos da Ilha de Santa Catarina e não ignora, mesmo na imersão que faz na música local, os elementos geradores do samba no país. Ele recua no tempo e fala do rancho, das marchas-rancho, das bandas marciais, dos grupos de corda, enfim, do ambiente revolucionário que se seguiu à abolição da escravatura, ao fim do Império e às primeiras décadas da República. Esse ambiente de ebulição facilitou o surgimento e a tolerância a ritmos até então discriminados num país que tinha vergonha de sua diversidade.

No cenário local, a contribuição do autor de “Barra da Lagoa” (música que está no disco de estréia do grupo Engenho, em 1981) foi o Rancho do Neco, no Sambaqui, hoje tocado por Luiz Sebastião, um sambista de raiz. Durante 13 anos, Neco abriu a casa todos os domingos, oferecendo camarão, ostra e muita MPB, seresta, chorinho e samba de qualidade. Agora, no Centro, o Qualé Mané funciona de terça-feira a sábado, revezando o samba de raiz com o choro de Wagner Segura, a seresta, a gafieira e o que os músicos quiserem tocar, sempre sob o olhar crítico do dono – pagode e axé, por exemplo, estão fora de cogitação.

Mesmo sem admitir a existência de uma música típica da Ilha, Neco ressalta o trabalho de compositores como Djeison Dias e André Calibrina e garante que, aqui e lá fora, “o samba nunca foi tão forte quanto agora”. Também há novos autores e jovens que, sem conhecerem tanto, preferem o samba a qualquer outro ritmo.

Agentes públicos não conhecem a área

Wagner Segura, que há 24 anos mantém uma escola de música em Florianópolis, direciona suas baterias contra os órgãos oficiais de cultura, porque nunca houve uma época de tanto desleixo com o setor. O samba, naturalmente, também perde com isso, não na qualidade de compositores como Leo Vieira, Marçal Sandini, Anderson Ávila e Celinho do Copa Lord, citados por Segura, mas pela desconsideração com um ritmo caro à cidade e com nomes consolidados no meio. “Há muitos agentes públicos que não sabem quem foram Zininho e Neide Mariarrosa”, lamenta ele.

Um episódio lamentável ilustra esse quadro: pediram a Mazinho do Trombone, uma lenda local, para apresentar um currículo quando foi pedir para tocar no Mercado Público. Para piorar, o último Dia Nacional do Samba passou batido, e a lei seca vem prejudicando as casas noturnas que oferecem música ao vivo. “É preciso criar leis mais favoráveis para esse tipo de estabelecimento”, defende Segura, que também lamenta a lei do silêncio, que obriga os bares a eliminarem o som às 11h da noite.

Para Luciane Motta, do Baiacu de Alguém, também falta estímulo para as manifestações de rua, os concursos de marchinhas de Carnaval e mais mobilização dos próprios músicos, artistas e produtores. Em Santo Antônio de Lisboa, é a maior dificuldade fechar uma a para fazer um show. “Temos talentos, belezas naturais, uma vocação turística, mas qualquer um liga para a polícia e a música é obrigada a parar”, diz ela. “A competência e o talento são proporcionais às dificuldades existentes”.

O sambista que todos conhecem

Por onde anda, Lídio Augusto da Costa, 76 anos, é reconhecido, cumprimentado, reverenciado, sempre com seu terno claro, gravata vermelha e chapéu. Mas não perguntem por este nome – ele é figura carimbada na cidade e responde pela alcunha de Seu Lidinho. Todas as sextas-feiras e sábados mostra samba no pé no Bar do Noel, na “Travessa”, e no Qualé Mané, na praça Olívio Amorim. Também costuma aparecer na Praça 11, em São José, mesmo sem tanta assiduidade. Requisitado, chega a recusar convites de alguns estabelecimentos, não por despeito, mas pela falta de condições de atender a todos ou de se deslocar para lugares mais distantes.

Há 57 anos no samba, é passista da Embaixada Copa Lord e já morou no Morro do Céu, embora tenha se fixado, depois do casamento, no bairro do Estreito. Os que o conhecem costumam repetir: “Seu Lidinho é o cara!” Vem de uma família de sambistas (o pai foi baterista e a mãe, baiana no Copa) e faz parte da velha guarda da escola. Já viu várias vezes, na Passarela do Samba, o desfile das vencedoras do Carnaval do Rio, de onde os sambistas se deslocam para a Lapa, onde o batuque não tem hora para acabar. As excursões reúnem gente das principais escolas de Florianópolis e o encontro, no Rio, é com as velhas guardas da Portela, Mangueira e outras escolas de renome.

Do Carnaval local, sente falta dos desfiles das escolas ao redor da praça 15 de Novembro, mas entende que o samba, em essência, não perdeu com a mudança para a Nego Quirido. “O ritmo continua bom, há grandes passistas, cantores, batuqueiros, enfim, não devemos nada a ninguém”, afirma.

Público vai onde o artista está

Ligada ao samba há quase 20 anos, quando foi criado o grupo Bom Partido, Jandira Souza da Rosa percebe uma renovação não só entre os compositores, mas no perfil do público de samba em Florianópolis. Se não há espaço nas rádios e na mídia em geral, os amantes do gênero vão atrás dos artistas onde eles estiverem, nos bares, quiosques e redutos conhecidos por quem é do ramo. O Bom Partido sempre mesclou o samba tradicional, de Noel Rosa e Cartola, a partir de pesquisas nas entranhas da noite carioca, com autores locais como Marçal Sandini e Celinho da Copa Lord, além dos integrantes do próprio grupo, também compositores.

Ela própria autora de algumas letras, Jandira é ligada à Copa Lord e está envolvida com a preparação para o Carnaval de 2017. Contudo, não perde contato com o Bar do Noel e com a Praça 11, em São José, onde o público é eclético e não raro composto também por gente de fora do Estado e do país. Os jovens vêm com informações dos pais e das leituras, e os visitantes chegam pelo conceito desses lugares onde o samba reina absoluto. Isso a leva a afirmar que o gênero não está ameaçado e que até há grupos – como o Número Baixo, de São José – com CDs a caminho.

Na Casa da Verônica, no Saco dos Limões, o mês de novembro vem sendo dedicado ao tema da consciência negra e todas as quintas-feiras acontecem as Conversas Circulares, que debatem questões relacionadas ao racismo, gênero e religiosidade. A fora isso, na primeira sexta-feira de cada mês há uma roda aberta à manifestação de músicos jovens, convidados para mostrar seu trabalho. E, no segundo domingo do mês, é a vez de músicos profissionais se apresentarem ao público presente. Por seu renome, a casa recebe gente de toda a região e também de outras cidades. Para o Carnaval de 2017 está sendo preparada a criação do primeiro bloco de samba de raiz de Florianópolis.

Linha do tempo

Década de 1910 – Donga registra “Pelo telefone”, considerado o primeiro samba, na Biblioteca Nacional, em 1916. A gravação é de janeiro do ano seguinte.

Década de 1920 – O samba se populariza, com nomes como José Barbosa da Silva (o Sinhô), Noel Rosa, Wilson Batista, Cartola, Paulo da Portela e Geraldo Pereira.

Década de 1930 – Período de ouro do samba, com grandes letras feitas por Ismael Silva, Assis Valente e Dorival Caymmi.

Década de 1940 – Consolidação do samba como “música nacional”, com o surgimento de sucessos como “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), “Ai que saudade da Amélia” e “Atire a primeira pedra” (ambas de Ataulfo Alves e Mário Lago).

Década de 1950 – Auge do samba-canção, com as presenças de Dolores Duran (“A noite do meu bem”) e Lupicínio Rodrigues, e período em que nasce a bossa nova, com João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Década de 1960 – O Zicartola (bar a restaurante de Cartola e sua mulher, dona Zica) promove reuniões memoráveis de sambistas cariocas, ao mesmo tempo em que o samba tradicional é reforçado por Paulinho da Viola, Zé Kéti e Chico Buarque.

Década de 1970 – As mulheres – Alcione, Beth Carvalho, Clara Nunes – conquistam o topo das paradas, paralelamente à consagração de Adoniran Barbosa, João Bosco, Aldir Blanc e Benito de Paula. “Não deixe o samba morrer” e “Vou festejar” são os grandes sucessos da época.

Década de 1980 – Fase de ouro do grupo Fundo de Quintal e do Cacique de Ramos, que revela Almir Guineto, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Jorge Aragão.

Década de 1990 – O Rio revitaliza a Lapa e o samba ganha as bandas Art Popular, Molejo, Harmonia do Samba, Só Pra Contrariar e É o Tchan.

Década de 2000 – Esforço pelo resgate do samba clássico, tradicional, em reação à explosão do pagode. Destaque para os grupos Casuarina e Semente e para nomes como Diogo Nogueira e Teresa Cristina.

Década de 2010 – Fim das fronteiras, por causa da internet, e fortalecimento do samba em todas as regiões do país. Na mídia, espaço especial para figuras como Thiaguinho, Péricles, Xande de Pilares e Mumuzinho.

Sambistas famosos (*)

Donga

Sinhô

Noel Rosa

Mário Lago

Lupicínio Rodrigues

Wilson Batista

Ari Barroso

Herivelto Martins

Assis Valente

Grande Otelo

Dorival Caymmi

Adoniran Barbosa

Ismael Silva

Pixinguinha

Ataulfo Alves

Dolores Duran

Silvio Caldas

Carmen Miranda

Aracy de Almeida

Cartola

Nelson Cavaquinho

Zé Kéti

Francisco Alves

Beth Carvalho

Paulinho da Viola

Clara Nunes

Alcione

Benito de Paula

Luiz Ayrão

Aracy Cortes

Zeca Pagodinho

(*) Compositores e intérpretes

PELO TELEFONE

O chefe da polícia pelo telefone mandou me avisar
Que na Carioca tem uma roleta para se jogar
O chefe da polícia pelo telefone mandou me avisar
Que na Carioca tem uma roleta para se jogar

Ai, ai, ai,
Deixa as mágoas para trás ó rapaz
Ai, ai, ai,
Fica triste se é capaz, e verás.

Tomara que tu apanhes
Pra nunca mais fazer isso
Roubar o amor dos outros
E depois fazer feitiço.

Ai, a rolinha / Sinhô, Sinhô
Se embaraçou / Sinhô, Sinhô
Caiu no laço / Sinhô, Sinhô
Do nosso amor / Sinhô, Sinhô
Porque esse samba, /Sinhô, Sinhô
É de arrepiar, /Sinhô, Sinhô
Põe a perna bamba / Sinhô, Sinhô
Me faz gozar, / Sinhô, Sinhô

O "Peru" me disse
Se o "Morcego" visse
Eu fazer tolice,
Que eu então saísse
Dessa esquisitice
De disse que não disse.

Ai, ai, ai,
Deixa as mágoas para trás ó rapaz
Ai, ai, ai,
Fica triste se é capaz, e verás.

Queres ou não / Sinhô, Sinhô,
Vir pro cordão / Sinhô, Sinhô
Ser folião / Sinhô, Sinhô
De coração / Sinhô, Sinhô
Porque este samba/ Sinhô, Sinhô
É de arrepiar / Sinhô, Sinhô
Põe a perna bamba / Sinhô, Sinhô
Mas faz gozar / Sinhô, Sinhô

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