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Sexta-Feira, 14 de Dezembro de 2018
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Crítica: Bienal do Sesc de Dança, em Campinas, trouxe obra da catarinense Michelle Moura

No evento em Campinas, a artista joinvilente radicada em Curitiba apresentou o espetáculo “Blink: mini-uníssono, intenso-lamurio”

Redação ND
Florianópolis
Nellie de Boer/Divulgação/ND
Clara Saito e catarinense Michelle Moura em “Blink: mini-uníssono, intenso-lamurio”

Por Anderson do Carmo

* Bailarino do Grupo Cena 11 Cia de Dança e mestrando em teatro na Udesc.

 

            A Bienal Sesc de Dança – agora sediada em Campinas – apresentou entre 17 e 27 de setembro  um  recorte curatorial imponente no qual se destaca vigorosa a estreia de “Blink: mini-uníssono, intenso-lamurio” de Michelle Moura. Mais que coproduzir a estreia nacional da nova obra da artista joinvilense radicada em Curitiba – e com formação fora de seu estado natal – a Bienal acolheu a transformação em espetáculo da pesquisa de mestrado a que a coreógrafa se dedicou por mais de dois anos na Theaterschool de Amsterdam.

            “Blink” é um “pas du deux” metafísico, duo entre corpo e mente, parelha entre o cavalo e o santo que o monta. A reincidência de pares, duplas e oposições constitui a obra do título ao desfecho, mas é na duplicidade contida na tradução do verbo inglês “to blink” que reside a pista para decifrar a esfinge que a estreia da obra é. “Blink” é pestanejar, piscar os olhos, mas também se refere à cintilação, lampejo. Se o recurso técnico que estrutura a coreografia dançada por Michelle Moura e por Clara Saito é o de controlar o ato reflexo de piscar olhos, o efeito que tal escolha provoca naqueles que a assistem é semelhante ao que um relâmpago provoca na paisagem escurecida pelo cinza das nuvens: por menos de um segundo se pode ver o que está invisível. “Blink” é chuva de relâmpagos.

            Com crescente radicalidade as últimas obras de Moura – “Cavalo” (2009), “Big Bang Boom” (2012) e “Fole” (2012) – se detém na relação dentro-fora (corpo-ambiente, eu-outro, subjetividade-objetividade) e o que sucede agora é uma chamada de atenção para a capacidade arquitetural que reside no olhar. A peça poderia ser pensada como a exposição em super “slow motion”, do primeiro piscar de olhos que se dá ao acordar, quando sonho e real se confundem. Ao radicalizar esta percepção, o figurino de Lisa Vereertbrugghen que progressivamente deixam o púbis das bailarinas à mostra remete a uma piscada primeira, uma passagem originária entre interior e exterior na qual a criança deixa o interior protegido e misterioso do ventre materno e depois de atravessar a bacia se depara com um mundo que nem sabe que existe e menos ainda como funciona.

A odisseia motora em que as bailarinas embarcam hipnotiza. Pavor e fascínio operam como canto da sereia sobre a plateia, como se entre uma piscada e outra se visse de relance “A origem do mundo” pintada por Gustave Courbet (1819-1877). Nessa medida as escolhas dramatúrgicas da coreografia propõe uma abordagem provocativa: o exagero das emoções gravado nas faces, o movimento que transita entre grotesco e erótico e o humor que assalta os que assistem poderiam em uma primeira mirada parecer fruto de improviso ou de um raso entendimento de espontaneidade. Pelo contrário.

O que instiga na minucia investigativa de Moura – e que se estende à música de Rodrigo Lemos e à luz de Lucas Amado – é a dedicação à controlar o descontrole. Na operação que parece impossível quando proposta, no entanto, reside uma tomada de posição – da qual não há como retroceder – onde poética artística não se desvincula de postura política. Dizer isso é dizer que carne, ossada e vísceras dos corpos das bailarinas intensificam no espetáculo a incidência de forças invisíveis que acometem o corpo. Estão nesta lista de forças o sonho, a volúpia, a fé e a potência de morte que qualquer vida carrega, mas também a disciplina assimilada e blindada ao questionamento, a embriaguez e mesmo a imagem que temos de nós próprios.

Cintilando coerência na retórica contemporânea, “Blink” deixa questão aberta no olhar que as bailarinas lançam ao espaço que deixaram e para o qual não podem voltar: o que fazer quando aquilo que vem não é o que se estava por esperar? Como permitir que o futuro seja de fato futuro e não vontade passada que se concretiza?

 

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