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Autêntica intérprete da cultura dos manezinhos, Dona Bilica completa 25 anos

Personagem da atriz Vanderléia Will brinca com os modos de viver e de falar dos nativos da Ilha

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
03/09/2016 às 11H58

Quem poderia fazer os austríacos, geralmente circunspectos, dançarem a ratoeira, manifestação introduzida no Sul do Brasil pelos imigrantes açorianos, numa tarde fria de Viena? Se você cravou que a façanha foi obra de Dona Bilica, a mais autêntica intérprete da cultura original dos colonizadores do litoral, acertou em cheio. Era mais um entre os tantos festivais dos quais a atriz Vanderléia Will participou, levando a espevitada manezinha para o outro lado do Atlântico. Criada a partir de tipos e hábitos em extinção, esta figura impagável está completando 25 anos e nem de longe esgotou seu repertório de temas e falas que fazem rir o mais sisudo dos espectadores e transeuntes que cruzam seu caminho.

Será que a dona Bilica joga Pokémon Go!?



Embora a atriz tenha feito outros papéis, Vanderléia e Bilica se confundem, no imaginário de muitos ilhéus, como se fossem uma só pessoa. A primeira sempre foi engraçada, era a palhaça da turma, e não teve dificuldades para criar seu alter ego, a partir de pesquisas e entrevistas com homens e mulheres acima dos 80 anos, na Barra da Lagoa e no Pântano do Sul, especialmente. Esse trabalho ainda não parou: a atriz continua ouvindo os manés com razoável frequência, já que as mudanças no modo de vida local nunca foram tão ostensivas. Contudo, nem o crescimento de Florianópolis, nem a perda de referências importantes da cultura foram capazes de apagar todas as lembranças e a fidelidade às práticas herdadas dos ancestrais que aqui chegaram dois séculos e meio atrás. O Circo de Dona Bilica, criado há três anos no Morro das Pedras, é garantia de preservação desse legado.

“Eles [os manezinhos] não mudam”, atesta Vanderléia Will. “Podem ter feito uma casinha melhor, mudado alguma coisa, mas o jeito de pensar, ser e comer é o mesmo. Continuam indo à igreja e pescando, mesmo em outro ritmo. Dizem que agora é bom, mas que no passado também era. As lembranças da Ilha de antigamente são muito latentes. Falam da agricultura, das olarias, dos engenhos de farinha e cachaça, do cuidado com os animais, da vida no mar. Citam as temporadas de pesca no Rio Grande do Sul, as plantações de café, da vida rudimentar que as mulheres levavam, criando os filhos praticamente sozinhas. E muitos ainda mantêm sua horta e suas galinhas”.

As mulheres que inspiraram Dona Bilica raramente vão ao centro da cidade, porque se perdem sem o mar batendo nos costados do Mercado Público. No entanto, têm na ponta da língua relatos sobre a falta de estradas do passado, os costões perigosos que tinham de atravessar, as carroças puxadas a boi e as distâncias que precisavam vencer. E quando assistem o documentário “Naquele tempo”, baseada em seus próprios depoimentos, saem chorando da sala de projeção.

Vanderléia Will dá vida a Bilica, personagem que é uma costura das memórias da infância da atriz, das histórias e costumes ricos que viveu ou ouviu dos nativos - Bruno Ropelato/ND
Vanderléia Will dá vida a Bilica, personagem que é uma costura das memórias da infância da atriz, das histórias e costumes ricos que viveu ou ouviu dos nativos - Bruno Ropelato/ND

Uma atriz que nasceu para a comédia

Vanderleia Will nasceu na Trindade e até os 18 anos não teve contato com o teatro. Queria fazer engenharia de alimentos, mas foi reprovada nos vestibulares que prestou. Uma tia que morava no Sul da Ilha, onde passava as férias, foi a ponte para as descobertas que resultariam, mais tarde, no perfil de Dona Bilica. A tia a levava junto quando ia lavar roupas na Lagoa do Peri, e o tio fazia o mesmo quando apanhava cana no morro para fazer açúcar. Uma vizinha benzedeira, os almoços de pirão com peixe e a brincadeira do boi de mamão completavam o cenário que faria nascer uma forte identidade de memórias e afetos relacionados ao jeito manezinho de ser. Seus próprios pais vinham da roça, em Santo Amaro da Imperatriz, local de origem da família.

Um dia, ainda alimentando o sonho de entrar na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), viu um cartaz convocando os interessados para aulas de teatro no Departamento de Assuntos Culturais da instituição. Inscreveu-se, e durante dois anos e meio estudou com a diretora Carmen Fossari, recebendo noções de interpretação, montagem, cenografia e improvisação. “Fiquei encantada e vi que era isso o que queria”, diz hoje. No entanto, ao ensaiar uma leitura dramática de “Ubu Rei”, do francês Alfred Jarry, Vanderléia fazia as pessoas rirem. A diretora deu o veredito: ela tinha nascido para a comédia.

Foi aí que resolveu fazer o curso de Artes Cênicas na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), concluído em 1994. Não perdeu o contato com o grupo de Carmen Fossari (Pesquisa Teatro Novo), e com ele viajou para a Paraíba com a peça “O Inglês Fidalgo”, de Molière. “Foi quando me decidi definitivamente pelo teatro”, conta. Depois, fez parte do grupo Atormenta, formado por alunos da Udesc, viajou, esteve em festivais e deu início à carreira solo, apresentando-se em empresas, escolas e sindicatos. Foi esse verdadeiro laboratório que definiu sua linguagem como atriz.

Para rir e formar palhaços

Dona Bilica surgiu em 1991, mas só estourou três anos depois, quando a mídia passou a reconhecer o valor da personagem. Sem internet, as páginas de jornais eram o caminho mais curto para difundir o trabalho. Com o projeto Manezinhos de Passagem, Bilica passou a fazer esquetes nos ônibus, representando uma mistura de rendeira, benzedeira, lavadeira e dona de casa, mas falando também dos pescadores, dos colonos do interior da Ilha e de elementos do imaginário como o lobisomem, as bruxas e o boitatá. Falava e fala da dor nas cadeiras, do “quenturão nas pernas”, do “ataque de nervo”, das consequências do “pregresso”, das raparigas que não conseguem desencalhar. Tudo isso sem ridicularizar os nativos, que fornecem a matéria-prima do seu ofício.

A personagem, assim como a intérprete, se adaptou ao crescimento desordenado da cidade, fazendo a atriz evoluir e Bilica incorporar novas sutilezas que realimentam o prazer de subir aos palcos. A pesquisa com os nativos é cíclica, e dali nasceu o documentário “Naquele Tempo”, que recebeu o Prêmio Cinemateca Catarinense em 2014, com uma Bilica encorpada, despachada, crítica quando lhe convém. Isso abriu portas, rendeu prêmios e permitiu, pelas características da personagem, ir do circo do Morro das Pedras a um teatro paulista sem qualquer embaraço. Ou a Viena, no festival que reuniu os melhores palhaços do mundo.

Depois de fazer cursos de palhaçaria com mestres como a suíça Gardi Hutter, o italiano Leo Bassi, o brasileiro Luiz Carlos Vasconcelos e as americanas Laura Herts e Hilary Chaplain, e de atuar ao lado de parceiros como Geraldo Cunha, Andrea Padilha e o humorista Darci, Vanderléia Will mantém em cartaz a premiada “De Malas Prontas”, da companhia Pé de Vento Teatro, revezando com Lili Cúrcio e Milena Morais. A peça não tem diálogos e, por isso, pode ser apresentada em qualquer lugar. “O espetáculo ajudou muito Bilica a ganhar segurança”, diz ela.

Casada com o espanhol Pepe Nuñez, também palhaço, ela mantém o Circo da Bilica, centro cultural alternativo e independente que tem uma ampla programação de espetáculos, estreias e festivais, um espaço para exposições e o restaurante Don Pepe, especializado nas culinárias espanhola e portuguesa. O auditório tem 225 lugares e é um dos mais bem equipados da região. Além das oficinas de circo, ali também funciona a primeira escola de palhaços do Sul do Brasil, com alunos de diferentes Estados do país.

Dona Bilica tem bastante história e causos para contar - Bruno Ropelato/ND
Dona Bilica tem bastante história e causos para contar - Bruno Ropelato/ND

UM DEDO DE PROSA

Então, Bilica, como é que vão as coisas?

Bilica – Ô quirido, as coisa tão indo bem, né. Semana passada eu tava pra morrê. Fui pará no hospital, bati aquelas chapa toda, tu acredita que o dotô me disse: “Tu não tem nada, nega, é só um ataque de nervo”? Quase que eu fui nos córno dele! Deu vento suli, aí virou tudo, me deu azia e aquele quenturão nas perna. Não me curei disso, mas agora tô bem.

E como está a vizinhança no Morro das Pedras?

Bilica – Olha, tem a Neca, a filha da Benta do Tubúrcio, atrás da venda do Zica. Ela tá acamada lá no Celso Ramos, não tá muito bem, tamém. De vez em quando vou lá dá uma olhada. Faço umas rendinha pra ela, faço as minha, tô nessa vida, né, quirido.

No Sul da Ilha também tem correria, os carros passando, barulho, poeira...

Bilica – Tá um pirigo, é o pregresso, dizem. De primero, a gente não tinha nada disso, não tinha estrada, não tinha carro, não tinha prédio, não tinha luji. Passa uma caçamba, tem que se cuidar. Mas eu gosto, porque a gente anda de ombush de graça, de vez em vez eu vô lá na freguesia, lá no mercado comprá meus peixinho. A vida de hoje é diferente dos tempo de antigamente, né, quirido.

E esses rapazes que não largam o celular, você consegue falar com eles?

Bilica – É a tal da Neta, né? Esses dia a minha mais pequena me disse: “Mãe, tu tem que botá os teus córno lá na Neta”. Eu disse: “Qué isso, quirida, eu tenho que botá meus córno na Neta?” Aí ela me explicou que é uma baguera que se navega. Já visse? Diz que tu fica navegando, fica lá dentro, e o mundo inteiro vê os teus córno. A outra filha disse: “Mamãe, bota os teus córno lá que tu tem um monte de amigo e fã que qué te vê, falá contigo”. E foi dito e feito. Me botaro na Neta.

Você já caçou algum pokémon?

Bilica – Não, essas coisa eu fiquei com medo. Vai que é um labisame que qué te comer. Vai que tu bota a mão ali e pega um câncer de pele. Já vi gente com celular na mão que é um pirigo, bate com os córno no poste, quebra tudo por aí. É o pregresso, né, quirido. Nos dia de hoje, como é que as pessoa se conversa? Não é mais olhando no olho como nós tamo agora, né? Agora é tudo ali na Neta, e aperta butão, butão, butão, butão, butão. A pessoa que inventou o butão deve tá rica. É só butão, butão, butão, butão...

E essa mulherada que vai pra academia, que pedala, elas ainda falam contigo?

Bilica –Deve ser moça encalhada que tá querendo desencalhá e vai ver se consegue um rapaizinho pra ela. Porque nóis memo, no nosso tempo, não precisava dessas coisa. Nóis tinha que trabalhá, lavá um bom tanque de ropa, lavá a loça, cuidá da casa. Mas hoje o tempo é outro, as máquina faz tudo, máquina de lavá, máquina de varrê... Mas na minha intendença elas tamém cuida da saúde. Mas que tem muita moça encalhada, isso tem. Eu até queria dá um recadinho, porque eu sou rendeira, e as moça que querem casá pode fazê o enxoval de renda comigo que desencalha na hora.

A Bilica tem medo da violência, dessas coisas que acontecem por aí?

Bilica – Uma coisa que tenho muito medo é de labisame. É uma cosa medonha. É um homem cabeludo, se tu encosta a mão nele ele fica de três metro de altura e qué te comê. Não sô de sair assim sozinha, não sô de falá com as pessoa. Mas quando ando sozinha eu fico com os bago do olho arregalado. Bruxa eu já vi, a gente tem que se cuidá, porque bruxa se gera no que ela querê, num cachorro, numa pulga, numa mariposa, num mosquito. Mas o labisame é uma cosa medonha, ele te come e acaba contigo.

O Brasil tem jeito, Dona Bilica?

Bilica – O Brasil tem que ter jeito, né, quirido. Se não tiver jeito, nóis se arrombemo. Conhecesse meu papai, o seu João, com cara de cachorro? Ele era dono da Barra todinha, todinha, todinha, todinha. Ele sempre dizia: “Nega, tu nunca perde a esperança”. Tás entendendo? 

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