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Terça-Feira, 18 de Setembro de 2018
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Audiovisual para a criança ajuda na formação e criação de identidade cultural

Proporcionalmente, a produção nacional para o público infantil ainda é pequena, mas se desenvolve aos poucos, inclusive em Santa Catarina

Carolina Moura
Florianópolis

Rosane Lima/ND
Para Pedro, Arthur, Breno e Vitor, atuar e fazer o roteiro do filme "O Sumiço da Coroa" 

“Tudo que a gente é mais tarde vem da infância”, disse Manoel de Barros. De seu universo lúdico, o poeta consegue sintetizar nessa frase a importância e a responsabilidade de lidar com esse período tão fértil e sensível da vida. “Existe uma tendência de pensar que o que é para criança é uma coisa menor, mais fácil. A gente não quer que esse tipo de prática se perpetue. Produção para o público infantil não pode ser feita de qualquer maneira”, diz Luiza Lins, coordenadora da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, que abriu sua 12ª edição na sexta-feira com uma homenagem a Manoel de Barros. “Pelo fato de ser para criança, tem que fazer muito melhor.”

Com isso em mente, antes de começar seu projeto de série infantil para televisão, “The Papaya Bull”, os sócios do 52 Animation Studio, Rodrigo Eller e Ricardo Peres, de Florianópolis, foram pesquisar. Eles descobriram uma pesquisa que aponta que as crianças passam hoje de quatro a cinco horas por dia na frente da televisão — cerca de 1.500 horas por ano, mais que as 900 que passam na escola. O audiovisual, portanto, é parte ativa da vida dessas crianças. Mas o que encontram é muitas vezes conteúdo que não foi pensado para elas de acordo com sua idade ou, principalmente, com sua nacionalidade.

No Brasil, a produção específica para a criança ainda representa apenas 4% do audiovisual nacional. Nos países escandinavos, por exemplo, há cotas que determinam que 20% de toda produção seja voltada para o público infanto-juvenil. Enquanto políticas desse gênero não são implantadas, incentivos como o edital Curta Criança, cuja realização é oscilante, e a obrigatoriedade de conteúdo nacional independente nas TVs fechadas impulsionam uma indústria que, ainda com algumas dificuldades, começa a evoluir.

Direito à qualidade

O artigo 71 do Estatuto da Criança e do Adolescente diz que o público infanto-juvenil tem direito, entre outros elementos, a cultura que “respeite sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento”. Para que isso seja respeitado, é preciso um cuidado especial no momento de desenvolvimento de projeto, segundo Beth Carmona, que tem 25 anos de trabalho dedicado ao tema do audiovisual infanto-juvenil em diferentes canais de televisão nacionais e internacionais. “É no desenvolvimento de projeto que se constrói o conceito, cria os personagens e vai buscar o apoio de áreas como desenvolvimento infantil, psicologia e educação”, diz ela. “A gente tem dificuldade em se colocar no olhar da criança para produzir conteúdos à sua altura.”

É por isso que Rodrigo Eller e Ricardo Peres, da 52 Animation Studio, pesquisaram tanto antes de criar o “The Papaya Bull”, inclusive buscando dados sobre o que o público infantil vê na televisão hoje. “Até o fim do ensino fundamental, uma criança já viu 9.000 assassinatos na TV. Pensamos que em vez disso ela pode ver uma coisa que seja boa para ela”, diz Rodrigo, que dirige a série de animação, cujo piloto estreia na Mostra no dia 13 de julho, na sessão das 17h.

O episódio, chamado “A mentira tem perna curta”, mostra como as mentiras de dois personagens acabam por causar a destruição parcial da cidade onde se passa a história. “A gente acredita que dá para passar coisas boas sem ser piegas, com uma moral da história. A gente quer que as crianças vejam graça, e não subestimamos a inteligência delas”, diz Ricardo. A partir de uma parceria de coprodução com a Boutique Filmes, de São Paulo, eles estão em negociação com canais de televisão para produzir 26 episódios.

Jogo de identidade

Quando idealizou o edital Curta Criança, em 2004, Beth Carmona, que na época trabalhava na antiga TVE, já propôs uma temática: histórias brasileiras para crianças brasileiras. “Criança gosta de ver criança. E as crianças brasileiras precisam ver como se movimentam, como brincam e se relacionam as crianças de seu próprio país”, diz ela, que hoje dirige a iniciativa ComKids, que investe em conteúdo infantil multimídia. “Isso tem um impacto fortíssimo na formação de uma criança em termos culturais, de identidade e de pertencimento”, explica.

Foi pensando em oferecer essa perspectiva de reconhecimento às crianças catarinenses, e também para mostrar nossa cultura para as outras regiões, que Luiza Lins começou a produzir filmes. O primeiro deles foi “O Mistério do Boi de Mamão”, de 2005, e o segundo “Campeonato de Pescaria”, de 2009. Junto com “O Sumiço da Coroa”, que estreou na sexta-feira na Mostra de Cinema Infantil, eles formam uma trilogia da cultura catarinense. “Uma das crianças assistindo ao “O Mistério do Boi de Mamão” disse: ‘olha, a minha tia!’. Em um filme da Disney, por exemplo, ela nunca iria achar alguém que identifica com a sua tia”, diz Luiza.

A série “The Papaya Bull”, apesar de ter sido criada em inglês para alcançar também o mercado internacional, também se baseia na cultura da ilha. O Boi de Mamão foi a inspiração para a série, que se passa em uma ilha e tem personagens com nomes como Jurerê, Joaquina, Conceição e Cacupé. Tem até um argentino, chamado “Hermano”, que é o filósofo de praia da série.

Rosane Lima/ND
Ricardo Peres e Rodrigo Eller se inspiraram na cultura da Ilha para criar o boizinho que nasce de um mamoeiro

Criatividade infantil

Um dos desafios de produzir para crianças é entender o universo delas, para que o conteúdo as interesse. “Tem que se despojar coisa careta do adulto”, diz Luiza Lins. Sua solução para isso foi trazer a criança para dentro do processo. Na hora de fazer o roteiro de “O Sumiço da Coroa”, filme que produziu e que foi dirigido por seu marido, Chico Faganello, e por Marco Martins, Luiza chamou os amigos de seu filho — que foram atores em “Campeonato de Pescaria” — para criar a história.

“Cada um escreveu o que achava e ela montou”, conta Arthur Medeiros Sofia, de 13 anos. Junto com Vitor Mario de Medeiros, de 14, Breno de Medeiros, de 9, e outros amigos da rua, ele deu as dicas para fazer um filme empolgante para as crianças. Foram eles que criaram a ideia de um vulto, que rouba a coroa da Festa do Divino Espírito Santo. Os personagens Breno e Clara, interpretados por Pedro Ruschel e Marina Koehler, saem em busca dos suspeitos para desvendar o crime. “Para criança tudo é permitido, não tem ego, preconceitos, por isso ela é tão importante para o mundo”, diz Luiza. “A gente cresce e deixa de lado toda essa coisa lúdica da infância. Parece que a gente tem que colocar um terno e esquecer toda a poesia da infância.”

Serviço

O quê: 12ª Mostra de Cinema Infantil

Quando: De 28/6 até 14/7

Onde: Teatro Pedro Ivo, rod. SC - 401, Km 5, 4.600, Saco Grande, Florianópolis, tel. 3665-1630

Quanto: sessões gratuitas durante a semana e a R$ 2 no fim de semana (com pipoca inclusa)

Programação completa no site: www.mostradecinemainfantil.com.br

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