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Segunda-Feira, 12 de Novembro de 2018
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Ator Ney Piacentini lança livro na Capital sobre o mestre Eugênio Kusnet

Catarinense,Piacentini fala também sobre os seus 35 anos de carreira

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
Flávio Tin/ND
Na Capital, Piacentini criou o Grupo A de Teatro. Em SP hoje integra a Companhia do Latão. Seu livro é parte de sua dissertação de mestrado em teatro na USP

 

O ator Ney Piacentini, que começou a carreira em Florianópolis e tem um trabalho consolidado na Companhia do Latão, em São Paulo, lança hoje no Sesc Prainha o livro “Eugênio Kusnet: do ator ao professor” (Hucitec Editora, 172 páginas), fruto de sua dissertação de mestrado na USP (Universidade de São Paulo). Na obra, ele fala do legado do ator, diretor e professor de teatro russo que se radicou no Brasil em 1926 e ajudou a formar pelo menos duas gerações de atores no país, nas décadas de 50 a 70, baseado no Sistema Stanislavski de interpretação. Também atuou no Teatro Oficina e no Teatro de Arena e participou de peças como “A casa de chá do luar de agosto”, “Eles não usam black-tie”, “Pequenos burgueses” e “O canto da cotovia” (que chegou a ser apresentada no Teatro Álvaro de Carvalho, nos anos 50, com Maria Della Costa, Fernanda Montenegro, Fernando Torres e Sérgio Britto no elenco).

Formado pela Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) e criador do Grupo A de Teatro, pelo qual ganhou o prêmio Bastidores de 1982 com a peça “Vira e mexe”, Ney Piacentini está completando 35 anos de carreira como ator, período no qual encenou mais de 50 espetáculos. No lançamento de hoje, ele vai falar sobre o legado de Eugênio Kusnet e a difusão do sistema de Stanislavski no Brasil. Seu livro tem apresentação de Antunes Filho, orelha de Paulo Betti e depoimentos de Maria Della Costa, Fernanda Montenegro, Walmor Chagas, Flávio Migliaccio, Renato Borghi e José Celso Martinez Corrêa.


 

Como surgiu a ideia de escrever sobre Eugênio Kusnet? Você não chegou a ser aluno dele, mas sabe da influência que teve sobre várias gerações de atores no Brasil. Como dimensionar isso hoje, passados 40 asnos de sua morte?

Quando tive que escolher um tema para o mestrado na USP, conversei com o meu diretor na Companhia do Latão, Sérgio de Carvalho, e ele me disse: “Eu sei que você gosta de [Constantin] Stanislavski, mas será que não poderia ser algo brasileiro?”. Respondi: “Kusnet”. Ele achou uma boa ideia unir minha queda pelo mestre russo com a sua aplicação brasileira via Eugênio Kusnet. Não tinha dimensão do quão importante ele foi para três gerações do nosso teatro, como a do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), a do Teatro de Arena e a do Oficina. Entre as pessoas que estudaram com Kusnet, falei com Carminha Fávero Gôngora, cuja foto está no livro “Ator e método”, seu maior legado, que é adotado em diversas escolas de teatro do país, mesmo com edições esgotadas.

Você sustenta que Kusnet não trouxe da Rússia a bagagem que tinha sobre Stanislavski. Como ele adquiriu aqui esse conhecimento?

Aos poucos, creio. Por ele ser de origem eslava, era mais introspectivo que a média dos atores dos que trabalhavam no país na década de 1950. Minha hipótese é a de que, quando se deparou com os livros de Stanislavski que estavam chegando por aqui naquele período, Kusnet percebeu que já fazia um pouco o que o formulador do sistema propunha, que era um modo de priorizar os aspectos interiores dos personagens, para evitar os clichês, coisa que Stanislavski combatia arduamente.

Kusnet foi dirigido por Zé Celso, Ziembinski e Flávio Rangel, entre outros, e também atuou com grandes nomes do teatro brasileiro. Depois, ensinou muita gente a interpretar. No que ele foi mais brilhante, ou importante: atuando ou formando outros atores?

Foi um tremendo ator e só em “Os pequenos burgueses”, montado pelo Teatro Oficina, ganhou todos os prêmios pela sua performance como Bessemnov. Ao mesmo tempo organizou, em um horário paralelo aos ensaios, a obra prima de Máximo Gorki, sua pedagogia stanislavskiana, quer para o elenco do Oficina, quer para outros interessados. Podemos dizer que Kusnet, apesar de ter sido reconhecido como um intérprete exemplar, optou por ser mais professor do que ator. Embora em ambas as frentes tenha se portado como um verdadeiro mestre, no dizer dos que tiveram a sorte de conviver com ele.

Que grandes atores e atrizes passaram pelas aulas de Kusnet? Os depoimentos do livro são de pessoas que conviveram com ele ou apenas conheceram o seu trabalho?

Quase todos os depoentes do meu livro trabalharam diretamente com ele, ou atuando ao seu lado, ou o dirigindo. Alguns foram apenas alunos de Kusnet. Mas todos os meus entrevistados o conheceram e têm por ele uma admiração incomum pela sua disciplina e dedicação acima da média, pelo respeito e cuidado com que tratava seus pares e por ser um sujeito modesto e reservado, voltado ao ofício, com amor pela arte de atuar e pouco afeito à necessidade de exposição que a maioria de nós, artistas de cena, consideramos importante. Para Kusnet, o que mais tinha valor era estudar para praticar o melhor teatro e fazer com que o público percebesse isto e fosse transformado pela experiência teatral muito bem realizada técnica e esteticamente.

Parece que o tempo dos grandes mestres e professores do teatro brasileiro ficou para trás. Você acha isso também?

Tenho conversado e encontrado o Antunes Filho ultimamente, que é um admirador do Kusnet. Antunes é um dos nossos mestres e sua última obra, “Nossa cidade”, pulsa criticamente sobre a cultura americana, que tanto nos influencia. Além de estar preparando um novo projeto, continua pensando o ator brasileiro, segundo suas convicções e dúvidas. Mas a salutar ambição para um teatro que discuta o nosso tempo está em desuso.

 

Falando de seu trabalho, o que representa completar 35 anos de carreira?

Passou como um sopro sem me dar conta que fiz mais de 50 espetáculos, dezenas de filmes de curta e longa metragem e diversos programas de TV, entre eles o “Jornal do Almoço”, da RBS TV, em 1983/84, com o personagem boneco Dr. Barroso, um ácido comentador dos problemas do país, do Estado e da cidade.

 

Quais foram os momentos mais marcantes dessa trajetória?

Guardo com muito apreço os seis primeiros anos de jovens tentativas teatrais em Santa Catarina, intuitivos embora intensos e ousados. E os últimos 18 anos dentro da Companhia do Latão, que foi a minha maior escola artística e política, além de um aprendizado ético. Espero que esta nova fase, de pesquisas do mestrado e do doutorado em curso, leve-me a uma radicalização do meu trabalho como ator, a exemplo do Kusnet, que tinha na arte de atuar um sentido maior para a sua existência. E não poderia deixar de citar meus oito anos de presidência de Cooperativa Paulista de Teatro, de avanços e lutas pelo interesse público na cultura de São Paulo e do país.

 

Ainda mantém contato com o pessoal de teatro da Ilha ou as pessoas com quem trabalhou?

Não tanto quanto gostaria, contudo fizemos o 2º Congresso Brasileiro de Teatro, em Florianópolis, em agosto deste ano, o que me reaproximou da Fátima Lima, que também foi do Grupo A e com quem estudei juntos na Udesc. No festival da Fecate, em Brusque, em 2011, onde fui comentador dos espetáculos, também conheci pessoas da nova geração.

Você é reconhecido e premiado em São Paulo. Contudo, fazer teatro hoje no Brasil é complicado, e muita gente depende das leis de incentivo. Como vê o momento do teatro brasileiro?

Depois de conquistas significativas com movimentos influenciando a implantação de programas públicos, receio por um recuo causado mais pela competição na categoria do que por agregação. Parece que não há paciência e visão para uma construção histórica, mas vamos nos virando, produzindo coisas boas aqui e acolá, sem um projeto maior, como o que tivemos nas décadas de 1950 e 1960.

Serviço

O quê: lançamento do livro “Eugênio Kusnet: do ator ao professor”, de Ney Piacentini

Quando: hoje, 7/11, 18h

Onde: Sesc Prainha, travessa Siryaco Atherino, 100, fone 3229-2241

Quanto: Gratuito (livro R$ 38)

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