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Quarta-Feira, 21 de Novembro de 2018
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Artistas trabalham o corpo feminino que fica fora dos padrões de beleza atuais

Mesmo gerando polêmicas, principalmente quando se trata de nudez, o corpo mais cheio tem seu lugar nas artes

Carolina Moura
Florianópolis

Quando a atriz e escritora Lena Dunham criou a série Girls, da HBO, as cenas de nudez e sexo causaram polêmica. Não pela carga sexual, mas porque Lena, que protagoniza a série — e a maior parte das cenas de nudez — é gordinha. “Nós temos uma cultura insana na qual mulheres que não se parecem com o elenco de Gossip Girl são colocadas em suéteres e camisolas para dormir”, disse a jovem atriz. Ela diz que o que está fazendo na série é mostrar a realidade. Nua e crua.

Seja na televisão, na moda, nas artes plásticas ou na dança, existe um padrão de beleza que exclui o corpo de muitas mulheres. “Hoje se vende um padrão que não existe, corpos que são manipulados por Photoshop”, diz a artista Priscila dos Anjos, que com 158 kg decidiu usar seu corpo como forma de construir sua arte. “Eu estava bem acima do peso e trabalhava essa questão do volume, da pele esticada ao extremo. E da sensualidade embutida nessa mulher obesa”, explica.

No ambiente da arte, a recepção do corpo gordo parece ser mais positiva do que em outras áreas. “Uma coisa é você assistir um programa de TV que é dedicado para massas, e outra coisa é você se deslocar para um ambiente de arte onde tudo lá vai ser objeto da tua atenção”, diz a artista Talita Esquivel, que trabalhou o tema em alguns de seus quadros. Um exemplo é o colombiano Fernando Botero, celebrizado por suas figuras rechonchudas.

Fotografias de Priscila, nua, chegaram a ser expostas em outdoors na cidade de Joinville, onde vive. O que é um processo, já que o trabalho com o corpo vem de um lugar muito pessoal. “Mas não tem como fugir disso. Sou eu, é meu corpo”, diz Priscila. Uma autoaceitação que para a modelo plus size Thuanny Dezidério, é fundamental. “O preconceito muitas vezes parte de quem não se aceita.”

Arte de corpo presente 

Para Priscila, seu corpo sempre esteve de alguma forma envolvido em sua arte. Mas foi em 2006 que ele “entrou em cena”. “O primeiro ensaio eu fiz em 2002, e ele ficou guardado por um bom tempo. É um processo longo, porque você precisa estar preparado para tudo que pode vir”, diz ela sobre as implicações de se expor dessa forma. Mas até agora não vieram comentários negativos. Até porque, diferente de Lena Dunham, Priscila tenta trabalhar uma nudez sem carga sexual.

A performance “De Corpo Presente”, dela e de Sérgio Adriano H., foi selecionada pelo Rumos Itaú Cultural e está em exibição em vídeo no Rio de Janeiro até maio. Nela, Priscila e Sérgio dançam nus, evidenciando os contrastes entre seus corpos — ela branca, gorda e mulher; ele negro, atlético e negro. Priscila carrega Sérgio em suas costas, invertendo valores para mostrar a força feminina e fragilidade masculina.

Priscila chegou a convidar o público para ser fotografado com ela e explorou seu peso de diferentes formas na arte. Mas em 2009 ela chegou ao ponto de obesidade mórbida e fez uma cirurgia de redução de estômago para emagrecer. “Foi um processo que eu encarei não só como saúde, mas como trabalho também”, conta ela, que agora vai explorar a flacidez que surge após perder 56 kg.

Temática fora dos padrões 

Interessada em retratar um corpo mais real, em vez de uma beleza idealizada, a artista Talita Esquivel trabalhou em sua dissertação de mestrado em arte com as imperfeições desse corpo. Isso incluiu temas mais fortes como mutilações e cicatrizes, mas também a representação do corpo gordo. Uma de suas maiores influências foi o artista Lucian Freud, que representou tanto modelos com os ossos aparentes quanto com excesso de peso — as pessoas reais, como elas são.

Diferente de Freud, que pintava ao vivo, Talita fez um ensaio fotográfico com seus modelos como ponto de partida para suas pinturas. “Eu gostei muito das fotos, porque ficaram com aspecto pictórico”, diz ela, que enxergou a beleza nessas formas. “Eu estava trabalhando com grotesco, e podia trabalhar a pintura de uma forma repulsiva. Mas decidi por fazer ela atrativa, bela.” Os quadros foram expostos por um breve período em 2009, no Museu da Escola Catarinense.

Já o escultor Maia veio de outro caminho para chegar à estética curvilínea de suas esculturas, conhecidas como as “gordas de Maia”. “Para mim, a figura feminina mais latina tem essa proporção diferenciada da cultura européia”, diz ele, que se inspirou no corpo mais farto da mulher brasileira.

Habilidades diferenciadas 

Hoje com 27 anos, Jussara Belchior começou a dançar aos cinco, e passou pelo balé clássico e jazz antes de chegar à dança contemporânea, que passou a encarar como uma atividade profissional há 10 anos. Para ela, o fato de estar fora do padrão de corpo mais comumente difundido na dança nunca a atrapalhou, tanto que hoje dança há seis anos no grupo Cena 11 e tem um projeto como coreógrafa na programação do 17º Festival de Cultura Inglesa, em São Paulo.

“Na dança contemporânea você está partindo do próprio corpo para fazer a sua dança”, diz ela. O trabalho pode ter diferentes temas como ponto de partida, e o trabalho do bailarino será condicionado às possibilidades do seu corpo. “É só encarar a dança como uma profissão como as outras. Há profissionais com habilidades diferentes.” Isso não significa que não haja mais grupos que prezam por corpos mais homogêneos em seus trabalhos, mas existe este outro lado. Dentro do Cena 11, que tem integrantes de pesos, alturas e idades bem diferentes, já conhecem as qualidades e dificuldades uns dos outros, trabalhando juntos para construir as coreografias.

Beleza plus size 

Thuanny Dezidério relutou em acatar a sugestão das primas de tentar uma carreira de modelo. “Até porque eu fugia dos padrões de beleza completamente”, diz ela. Maquiadora e envolvida com produção de moda, ela sempre esteve muito próxima do setor e finalmente cedeu. Chamou um fotógrafo e enviou seu ensaio para uma produtora. Com isso acabou fazendo campanhas para marcas plus size daqui, de São Paulo e Rio de Janeiro, além de se tornar uma das finalistas do concurso Miss Plus Size oficial, que elegerá a vencedora nacional na metade deste ano.

Rosane Lima/ND
Thuanny Dezidério descobriu que sua beleza podia lhe render uma carreira de modelo

Diferente do estereótipo das modelos que passam fome, nas produções plus size a comida é farta nos bastidores. Mas isso não significa que não haja um padrão. O mais procurado é o cheio de curvas, com quadril largo e cintura menor, no qual Thuanny não se encaixa. Mas ela tem o rosto bonito, um dos principais focos da indústria plus size.

“Eu olho no espelho e eu gosto do que vejo”, diz Thuanny, que sofreu na infância e adolescência por ser gordinha, mas superou esses traumas. “A insegurança se reflete no trabalho, nos relacionamentos. Eu nunca deixei de fazer nada por causa do meu peso”, diz ela.

 

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