Publicidade
Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018
Descrição do tempo
  • 26º C
  • 18º C

Artistas e críticos de Florianópolis comentam a polêmica exposição de arte do Santander

O fechamento da mostra com temática LGBT em Porto Alegre teve protesto de artistas

Karin Barros
Florianópolis
13/09/2017 às 15H55

A posição do Banco Santander em fechar com quase um mês de antecedência a exposição “Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, do curador Gaudêncio Fidélis, em Porto Alegre (RS), causou burburinho entre a classe artística do Brasil inteiro. Em Florianópolis não foi diferente.

Obra de Bia Leite no Santander Cultural - Folhapress/ND
Obra de Bia Leite que estava na exposição foi acusada de incitar a pedofilia - Folhapress/ND


A mostra, que abriu no dia 15 de agosto no Santander Cultural, com custeio da Lei Rouanet, tinha como assunto a diversidade e a temática LGBT, porém, movimentos como o MBL alegaram que a exposição fazia apologia à pedofilia e zoofilia nas imagens apresentadas. Eram 263 obras no total, incluindo pinturas de Cândido Portinari, Alfredo Volpi, Lygia Clark, e pelo menos três foram alvo de polêmica. Ontem, houve um manifesto em frente ao edifício que sediou a exposição e uma petição on-line arrecada assinaturas pelo país.

Para o crítico de arte, João Otávio Janga, é direito do movimento aceitar ou não a exposição, porém é “inadmissível a instituição ceder ao pedido. Isso tira toda a seriedade conquistada como espaço cultural, e que vinha desenvolvendo um trabalho importante no país”. “O papel da arte não é pedagógico ou educacional, mas é uma oportunidade de reflexão. Sem conflito não existe arte, ela não é feita para agradar”, coloca ele.

Nestor Junior, artista de Florianópolis, também concorda que o espaço cultural não deveria acatar o boicote, mas sim aproveitar o momento para levantar melhor as questões apresentadas na exposição. “O movimento desvinculou as imagens do que realmente elas são. A arte é feita para debater e eles perderam essa oportunidade”, pontua ele.

O artista e pesquisador interessado em estéticas e epistemologias gay/queer/bicha, Anderson do Carmo, não vê a exposição sob curadoria de Fidelis dessa maneira tão radical, e afirma até que as pautas progressistas do meio veem os trabalhos de maneira romantizada. “É uma extrema direita que acaba definindo uma característica que une as vanguardas. O quê tem aí em jogo é uma impossibilidade de diálogo. Toda a diferença, principalmente no que se refere ao gay/queer/bicha, está sendo patologizada. Isso é muito grave. Aos poucos está rolando uma higienização defendida como liberdade de expressão, mas que na verdade está apenas aniquilando outras existências”, diz Anderson do Carmo.

Curador se decepcionou

A controvérsia começou na quarta (6), 26 dias após a inauguração da mostra, quando vídeos mostrando obras de Adriana Varejão e de Bia Leite viralizaram na internet.

A primeira retrata situações sexuais em contexto histórico passado, e a segunda é uma pintura que apresenta duas crianças, sobre cujas imagens foram inseridas as frases “criança viada deusa das águas” e “criança viada travesti da lambada”.

“Incita a pornografia e a pedofilia”, diz visitante em um dos vídeos compartilhados pelo grupo ativista MBL (Movimento Brasil Livre). “Isso não faz parte de nossa visão de mundo, nem dos valores que pregamos. Por esse motivo, encerramos antecipadamente a mostra”, informou o banco em comunicado.

Para o curador Gaudêncio Fidelis o Santander “infringiu as regras mais básicas de direito, de respeito e de consideração aos artistas presentes, sem inclusive consultar a curadoria e sem considerar que estávamos realizando um trabalho de construção de conhecimento”. (Folhapress)

Publicidade

1 Comentário

Publicidade
Publicidade