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Arquiteto catarinense Jader Almeida diz que a busca por inspiração é como um vício

Seu nome e seu trabalho no mobiliário brasileiro são uma assinatura, hoje uma das mais mencionadas em publicações e eventos específicos no país e no exterior

Karin Barros
Florianópolis
04/11/2017 às 10H59

Estilista, escultor, engenheiro, arquiteto ou pintor. Qualquer coisa que ligasse Jader Almeida ao desenho na infância era uma possibilidade de profissão. “Sempre fui fascinado pela função de representar graficamente as coisas, croquis, caricaturas e perspectivas. Na minha infantil percepção, era o desenho que eu queria, mas obviamente que o desenho é uma minúscula parcela do design ou da arquitetura”, diz.

Jader Almeida - Daniel Queiroz/ND
Jader Almeida - Daniel Queiroz/ND

 

Hoje, o mesmo homem que quando criança desenhava despretensiosamente é um dos nomes mais citados em publicações específicas, em eventos de arquitetura e decoração no país e no exterior.

Na adolescência, o jovem nascido em Videira deu início a cursos técnicos para entender o que de fato poderia fazer com o seu talento para o desenho. Aos 16, teve o primeiro emprego em uma indústria de móveis e começou a entender como tudo funcionava, as etapas, manufatura, materiais, tipos de matérias-primas e como as coisas combinavam e se formavam. Durante sete anos, trabalhou no “background”, como desenhista, nas instalações e na fábrica.

2004 foi seu ano audacioso, onde Jader passou a desenhar e assinar os primeiros produtos na Sollos, empresa moveleira do oeste catarinense, na cidade de Princesa, na qual o arquiteto consolidou uma parceria que dura 13 anos.

Para ele, inspiração é algo até difícil de explicar, pois “está em tudo, é o mundo”. “Tudo aquilo que é fruto da construção humana e da natureza. O mundo onde vivemos inspira. Como interpretar isso tudo é algo que não tem como explicar, como conjugar as ideias. A inspiração é uma busca constante, o dia todo, todo o dia. É um vício que me acompanha em todos os momentos”, coloca Jader.

As peças assinadas pelo arquiteto são únicas, sejam cadeiras, poltronas, mesas, cabides, luminárias, entre outras, e partir delas há outros desdobramentos. Tudo é produzido por máquinas, mas o acabamento é manual, um diferencial em seus móveis. “Existe o que há de mais avançado em tecnologia de máquinas, cortes e retíficas, mas tem acabamento que só a mão humana consegue. Nesse sistema, consegue-se uma série de produtos um igual ao outro com acabamento perfeito como se fosse uma peça feita toda a mão", diz.

Vida de nômade

O arquiteto afirma que o design é uma resposta as necessidades contemporâneas. “Em uma livre tradução a uma frase de Da Vinci: não importa o que a gente crie, individual ou coletivamente, nunca seremos tão perfeitos quanto a natureza. Ela não sobra e não falta nada, é aquilo. Quanto designer, eu penso assim, que meu produto não pode sobrar, tem que comunicar de forma eficiente”, diz Jader.

Atualmente, ele está mais focado em arquitetura de lojas, mostras, displays e lançamentos. Jader explica que seu trabalho é dividido em períodos, como criação de produto, promoção, compô-lo no espaço e depois construir o espaço do produto. “O design tem a parte de criação, mas também tem o ‘business’. A marca hoje tem mais de mil pessoas envolvidas direta e indiretamente. Não é apenas um insight, tudo precisa ser pensado, ponderado, para se lançar um produto que tenha algum significado na indústria”, coloca ele.

Desde 2013, o profissional tem um showroom no bairro Trindade, em Florianópolis, onde fica exposto seu acervo de peças – muitas delas premiadas -, e também tem um escritório que serve de suporte em São Paulo. Muitas pessoas poderiam pensar que ele optasse por morar na capital paulista, porque é lá onde tudo acontece, mas Jader se considera um nômade, e não fixa residência. “Eu pago IPTU aqui [em Santa Catarina], onde é a base da produção. Mas ao todo, em um ano eu fico três meses por aqui. Hoje você pode alugar um apartamento por um período em Nova York em vez de comprar uma casa. Eu vivo dessa maneira, não paro por muito tempo nos lugares”, conclui.

Uma década de sucesso

Em 2007 nasceu a cadeira intitulada Bossa, assinada por Jader Almeida, que tem como destaque as linhas arredondadas e o rattan. Nesses dez anos de produção, a cadeira foi/é um sucesso. Um exemplo disso é que ela foi a primeira peça com prêmio e visibilidade do Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, referência nacional no assunto.

O objeto cadeira faz parte do ser humano desde que se conhece a história, é um apoio, uma continuação do corpo. “É um dos objetos mais instigantes que há para todos os designers e arquitetos. Para quem pensa em construir algo, a cadeira é o objeto mais complexo, mais próximo do corpo humano e o mais utilizado. O desenho é muito óbvio, porque tem como único sentido apoiar”, salienta Jader.

Quando criou a Bossa, Jader viu nela uma espécie de acelerador de novas ideias no setor. “Foi talvez um dos primeiros produtos que demonstrou uma nova percepção, que une a qualidade, construção, matéria-prima e abordagem dessa construção do mobiliário brasileiro.”, explica.

Para ele, o produto foi um divisor de águas na indústria. “Foi como virar um botão, onde todos começam a olhar, perceber, os móveis produzidos no país. E não é prepotência, mas muito da indústria brasileira de mobiliários e interiores mudou drasticamente depois desse período, e nós somos dentre um dos principais protagonistas dessa mudança”, aponta Jader, baseado em críticas publicadas ao longo dos dez anos da produção da Bossa.

O rattan, fibra trançada nas costas da cadeira, está diretamente ligado a memória afetiva de muitas pessoas. Jader explica que isso acontece por conta do móvel colonial brasileiro, que foi difundido no mundo pela marca italiana Thonet, no século 19, e trazido ao Brasil pela família real. “Foi se tirando o peso do europeu e utilizando o material, que respira, fica mais leve e adaptado aos trópicos”, diz. Em seguida, veio o português Joaquim Tenreiro, que usou o rattan em muitos produtos, e o modernismo que foi o grande difusor do uso dessa palha. “Isso está muito presente entre os brasileiros, algumas vezes de maneira over, mal utilizado, assim como pode acontecer com tudo, mas em outras oportunidades, com muita maestria e sofisticação”, acrescenta Jader, citando o caso do seu produto.

O arquiteto vê a cadeira, que teve edição comemorativa lançada em apenas 300 peças, como “um ponderado equilíbrio entre o passado, o presente e o futuro, por que é um desenho atemporal, elegante, com proporções fantásticas, o quê torna o produto perene e longevo”.

Para se manter contemporâneo ao seu tempo, Jader destaca as linhas puras, a negação, o supérfluo, a exclusão os excessos e a construção dentro da essência. “Um jargão que costumo usar é ‘viajar pelo tempo e permanecer elegante’. Essa é uma busca constante que parte desde o primeiro traço e faz parte da assinatura Jader Almeida”, finaliza ele.

 

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