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Antes de se fixar em Nova York, pianista Pablo Rossi ensaia para conserto sobre Gottschalk

Em Curitiba, o jovem e consagrado músico catarinense realizará a primeira execução de sua transcrição da "Grande Sinfonia Triunfal" desde que a obra foi escrita, no final da década de 1980

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
20/05/2018 às 09H03

Dois eventos estão ocupando os dias e a mente do jovem – e consagrado – pianista Pablo Rossi neste momento. O primeiro deles, mais imediato, é o concerto que fará na próxima terça-feira (22) no Teatro Guaíra, em Curitiba, promovendo a estreia nacional da “Grande Sinfonia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro”, composta pelo pianista norte-americano Louis Moreau Gottschalk (1829-1869). O outro é a mudança para os Estados Unidos, agendada para setembro, quando o músico catarinense vai começar um novo pós-mestrado, desta vez na Mannes School of Music, em Nova York. Além disso, há planos para novos voos, com datas de consecução mais estendidas, contemplando Florianópolis e região.

Aos 29 anos, pianista catarinense ostenta uma notável carreira internacional - Flávio Tin/ND
Aos 29 anos, pianista catarinense ostenta uma notável carreira internacional - Flávio Tin/ND


Nesta semana, Rossi interrompeu os ensaios no Teatro Pedro Ivo, na Capital, para falar, entre outros assuntos, do concerto no Paraná – que abriu, ao contrário das casas de espetáculo locais, espaço para um evento inédito no país. Ele mora na Bélgica, mas veio ao Brasil por causa da apresentação, que considera “uma grande fantasia triunfal”, composta originalmente para piano solo e que foi adaptada para piano e orquestra. Beneficente, o concerto comemora os 60 anos de atividades filantrópicas da Associação e Oficinas de Caridade Santa Rita de Cássia, de Curitiba, dentro da linha de pensamento do artista de usar a música e a cultura como ferramentas de inclusão e transformação social.

A “Grande Sinfonia Triunfal” foi a última obra executada em público por Gottschalk, em turnê pela América Latina, porque ele morreu pouco depois no Rio de Janeiro, na segunda metade do século 19. Composta para piano, ela ganhou tamanho e estilo grandiosos um século após a morte do autor, quando Samuel Adler, 90, outro compositor americano, criou uma versão mais eloquente.

“As partituras vieram dos Estados Unidos e foram liberadas especialmente para a execução do Guaíra”, revela Pablo Rossi. “A pedido do grande pianista Eugene List, eu transcrevi a obra solo de Gottschalk para uma versão grandiosa com piano e grande orquestra sinfônica”, disse Adler, confirmando que esta será a primeira execução de sua transcrição desde que foi escrita, no final da década de 1980.

No Guaíra, Rossi será o solista e regente e estará acompanhado da Camerata Antiqua de Curitiba, Studio D, Ensemble Promenade, grande coral e orquestra com piano, violino e viola, além de bailarinos.

Uma dádiva compartilhada com a sociedade

Conversar com Pablo Rossi é ir muito além da música, embora esta seja a matéria prima que manipula, literalmente, todos os dias. Nascido em São José em 1989, ele estudou no Conservatório Tchaikovsky, em Moscou, durante quatro anos, fez bacharelado e mestrado, sempre com nota máxima, e depois partiu para o pós-mestrado em Bruxelas, de onde se deslocou para concertos em várias cidades europeias. Nos Estados Unidos, para onde se muda daqui a quatro meses, o pianista já tem três recitais programados. Durante dois anos, vai focar no desenvolvimento de sua carreira de concertista e na execução de projetos artísticos. Nada que o intimide, porque toda a carreira foi montada no exterior – e em países de cultura bem diferente da brasileira.

“Quero continuar investindo em inclusão e formação de plateias”, adianta, como que reforçando um trabalho que realizou com méritos nos morros de Florianópolis. Uma das frentes é usar a música como ferramenta de modificação social, levando a arte para os hospitais, escolas e instituições que recebem crianças carentes. “Nós artistas recebemos uma dádiva e precisamos alterar a sociedade por meio dela”, afirma. “Política e arte modificam o mundo. Vi como as crianças mudam sua visão de tudo quando assistem a uma apresentação musical. Muitas delas, de comunidades pobres, nunca haviam visto um concerto na vida”.

Pablo Rossi nasceu em São José, em 1989, e estudou no Conservatório Tchaikovsky, em Moscou - Flávio Tin/ND
Pablo Rossi nasceu em São José, em 1989, e estudou no Conservatório Tchaikovsky, em Moscou - Flávio Tin/ND

Percalços decorrem da falta de política cultural

Tão importante quanto levar a música clássica para lugares sem acesso a ela é cobrar dos governos a adoção de políticas efetivas de cultura, programas que não mudem ou sejam esquecidos quando um gestor dá lugar a outro. No exterior há orquestras mais do que centenárias, programas e projetos de longa maturação, ao passo que no Brasil, nesse particular, as iniciativas morrem antes de se consolidar. Para ilustrar: na China, onde Pablo Rossi esteve em 2017, há 40 milhões de crianças estudando piano. “Gostaria de trazer um pouco do que aprendi lá fora para cá, mas não consigo”, lamenta. Não se trata de apoio financeiro, mas de espaço – uma dificuldade que este concerto em Curitiba explica bem. “Meu Estado não está me valorizando”, queixa-se.

No seu caso, o governo de Luiz Henrique da Silveira foi o que permitiu seus estudos em Moscou, graças a uma bolsa que cobria as despesas. “O governador tinha gosto pela música”, ressalta Rossi. No último ano do curso o Estado não honrou o compromisso, criando um problema que decorre da descontinuidade dos programas e, no caso de Santa Catarina, da falta de uma política cultural séria e planejada. Para quem pensa em promover o bem-estar social por meio da arte, este fato é desalentador. Pablo tem um irmão, Juan Rossi, que é violinista e que mora em São Paulo, um tanto à revelia de sua vontade, porque precisa trabalhar. “Ele gostaria de morar aqui, mas não consegue, porque o ambiente é desfavorável”, explica.

Difusor de Villa-Lobos e fã do brusquense Edino Krieger, Rossi tem vínculos e compromissos com a base, o popular, a cultura brasileira, enfim. E com a missão de tornar a música erudita acessível ao maior número possível de pessoas. Para isso, alimenta o projeto de criar um centro de cultura no morro, trabalhando com jovens socialmente alijados do acesso ao universo da arte. Para isso, conta com o apoio da RIC SC, por meio do empresário Marcello Petrelli, que coloca no rol dos “homens ousados e com visão de longo prazo”.

Pablo em um concerto realizado em 1998 - Arquivo Pessoal/ND
Pablo em um concerto realizado em 1998 - Arquivo Pessoal/ND

A trajetória

  • 1989 – Pablo Rossi nasce em São José, SC
  • Realiza estudos com os professores Álvaro da Silva (Florianópolis) e Olga Kiun (Curitiba)
  •  1996 – Ganha o primeiro concurso de piano
  • Em seu primeiro CD, gravado aos 11 anos de idade, Pablo executa obras de Bartók, Schumann, Tchaikovsky, Rachmaninoff, Shostakovich e Nepomuceno
  • Do segundo CD, “Pablo Rossi – Live at Steinway Hall”, gravado ao vivo em Londres, constam obras de Mozart, Villa-Lobos, Prokofiev e Chopin
  • 2003 – Ganha o 1º Concurso Nacional Nelson Freire para Novos Talentos Brasileiros. Depois disso, conquista mais de dez outros prêmios (como o Magda Tagliaferro, o Encuentro Internacional de Jóvenes Músicos, em Córdoba/Argentina, e o Ciutat de Carlet/Espanha)
  • 2012 – Gradua-se em mestrado no Conservatório Tchaikovsky de Moscou, na classe da célebre professora Elisso Virsaladze
  • Atua como solista à frente da Orquestra de Câmara do Kremlin e das Sinfônicas de Kirov, Brasileira (OSB) e de São Paulo (Osesp)
  • Nos últimos anos, oferece mais de 80 recitais na Europa, Estados Unidos, África e América Latina, muitos dos quais graças ao apoio do Keyboard Charitable Trust de Londres
  • Como músico de câmara, apresenta-se no Festival de Natal do Kremlin (Moscou), Semana Musical Llao Llao (Bariloche/Argentina), Festival Pontino de Música (Sermoneta/Itália), Summer Piano Festival (Londres) e Festival de Campos do Jordão (São Paulo/Brasil)
  • Ministra masterclasses na Faculdade de Música da Unam (Cidade de México) e na Universidad de los Andes (Bogotá)
  • Cria projetos e séries musicais, como o Concurso Internacional de Piano de Santa Catarina
  • É diretor artístico da série “Concertos Promenade” (Brasil) e da Fundação Hand in Hand (Bélgica)
  • 2018 – Trabalha seus projetos em Bruxelas/Bélgica e prepara mudança para Nova York, onde vai se aperfeiçoar na Mannes School of Music
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