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Segunda-Feira, 19 de Novembro de 2018
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Alcides Buss apresenta editora Caminho de Dentro

Dos quatro livros lançados pela Caminho de Dentro, ‘Diários Íntimos”, de Charles Baudelaire, e “Poemas”, de Gregório de Matos, são os que dão a exata dimensão das intenções de Alcides Buss

Regis Mallmann
Florianópolis

“Encontrei a definição do Belo, – do meu Belo; É algo de ardente e de triste, algo um pouco vago, permitindo à conjectura.” Escrito em meados do século 19 por Charles Baudelaire (1821-1867), a definição de retórica clara e comovente é a perfeita tradução da paisagem no entorno da simpática casinha onde funciona a Editora Caminho de Dentro, em Florianópolis. Nesse ambiente bucólico, envolvida pelo frescor que emana da vegetação do terreno e de um raro pasto margeado de mata, em Santo Antônio de Lisboa, o poeta e editor Alcides Buss engendra as publicações que começam a dor corpo ao catálogo do selo, batizado com o antigo nome da estrada de chão batido, onde, no número 319, funciona a ainda jovem oficina das letras.

 

Daniel Queiroz/ND
Alcides Buss e Denise, casados há 41 anos, fazem do trabalho motivo para sonharem juntos

 

De certa forma, por sua localização em território além das fronteiras urbanas do mercado literário, a Caminho de Dentro pode ser definida como uma editora de frente de quintal.  Por estar instalada no pequeno imóvel erguido na parte dianteira do terreno, onde, em outra casa, nos fundos, Alcides vive com a mulher, Denise, com quem é casado há 41 anos. Convívio harmonioso que resultou em três filhos, muitas árvores plantadas no jardim e inúmeros livros, tanto os escritos pelo poeta e os que a EdUFSC (Editora da Universidade Federal de Santa Catarina) lançou enquanto ele esteve sob seu comando, bem como as centenas de obras que compõem a Biblioteca Comunitária Caminho de Dentro.

Dividindo os cômodos da casa com a editora gêmea, o projeto é coordenado por Denise, que pretende com ele incentivar o hábito da leitura entre os moradores da comunidade, principalmente as crianças.
Quarto livro colocado no mercado, a tradução de “Diários Íntimos” do escritor francês – que tem no clássico “As flores do mal” sua mais importante contribuição para a literatura – foi feita por Jonas Tenfen, irmão do escritor Maicon Tenfen, o que empresta ainda mais sabor ao produto, de DNA genuinamente catarinense. O volume, que chegou ao mercado no mês de julho, tem o mesmo acabamento dos demais, de design gráfico limpo, de leitura fácil.

A começar pela capa, idealizada por Maria Lúcia Laczinski, com detalhe da obra “Música nas tulherias ”, do pintor francês Édouard Manet. Mas o principal mérito desta nova edição dos diários de Baudelaire está na tradução de Jonas Tenfen, que nasceu em Ituporanga e teve formação na área de letras na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina. Autor de outros dos livros na área da tradução, “As políticas lingüísticas” (em parceria com Isabel de Oliveira Duarte e Marcos Bagno), pela Editora Parábola, e “A época da inocência” (em parceria com Juliana Steil), pela editora Record, vive em Pelotas (RS).

 

Escritores e críticos de seus tempos

Dos quatro livros lançados pela Caminho de Dentro, ‘Diários Íntimos”, de Charles Baudelaire, e “Poemas”, de Gregório de Matos, são os que dão a exata dimensão das intenções de Alcides Buss. Não há como deixar de encontrar sintonia entre esses dois autores. Separados no tempo por quase 200 anos –Baudelaire nasceu no começo do século 19 e Matos em meados do século 17 –, eles forjaram seus escritos com palavras severas , interpretando a sociedade do espaço e tempo em que viveran. Nos diários, o francês fala sobre todo tipo de assunto, da sensibilidade inerente ao ser humano, e da curiosa ausência desse sentido em muitos, escreve sobre sua compreensão de amor, da urbanidade que o cerca, das ruas, do poder e da glória evanescente do poder totalitário.

De certa maneira, Gregório de Matos , considerado o primeiro grande poeta brasileiro, também assentou seu pensamento na base da sociedade. A tal ponto de ter ganhado o apelido de Boca do Inferno, pelo total desprezo aos poderosos políticos e sociais do Brasil em tempos remotos. Não deixava de dar tom de denúncia aos textos, enquanto tingia suas poesias com as cores da ternura, em versos firmes, inspirados pelo amor e pela fé religiosa. Mesmo assim, foi a igreja seu algoz, perseguindo-o sob acusação de heresia. Condenação que o levou à deportação para Angola. Perdoado, retornou, para morrer como indigente, em 1696, em Recife.

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