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Sexta-Feira, 16 de Novembro de 2018
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Adaptações de quadrinhos levam público cada vez maior aos cinemas

Filmes baseados em HQs de sucesso atraem fãs, mas nem sempre consegue agradar quem é aficionado por gibis

Juliete Lunkes
Florianópolis
Divulgação/ND
“Os Vingadores: A Era de Ultron”: 2,3 milhões de espectadores em três dias

 

Ainda na adrenalina pós-estreia de “Os Vingadores: A Era de Ultron”, que chegou aos cinemas brasileiros no dia 23 de abril, os fãs de HQs (histórias em quadrinhos) têm pela frente até o fim deste ano duas novas expectativas: as adaptações de “O Homem Formiga”, que deve chegar às telonas em junho, e “Quarteto Fantástico”, previsto para agosto. Desde que a Marvel, gigante das HQs, começou a marcar presença na televisão e no cinema, uma concorrência acirrada fez estúdios como a Fox (“X-Men” e “Quarteto Fantástico”) e Sony (“Homem-Aranha”) colocarem a mão na massa promovendo uma verdadeira febre de super-heróis ganhando voz e movimentos. Do outro lado, a Warner Bros., onde está a rival da Marvel, a DC Comics, responsável por “O Homem de Aço”, “Batman” e “Liga da Justiça”, segue em destaque principalmente por explorar personagens clássicos de forma mais realista e obscura.

Mas apesar de normalmente gerar boas expectativas tanto por parte de fãs como dos estúdios e de quem trabalha diretamente na área, cada estreia é uma caixinha de surpresas, no bom e no mau sentido. Se as adaptações podem ser capazes de levar uma nova legião de fãs às bancas, elas também têm plena chance de decepcionar quem há anos acompanha os personagens no papel.

“Os riscos são os mesmos de adaptações de livros ou peças teatrais para o cinema: o das pessoas envolvidas não entenderem o material original ou de se fazer adaptações que busquem popularidade a qualquer custo, deturpando sua inspiração”, considera o jornalista Romeu Martins, autor das HQs “Domingo, Sangrento Domingo” e “Justiceiro Joceli”. Para o tradutor de HQs da Marvel e DC Comics, Mario Luiz Barroso, os recursos que o cinema permite podem ser libertadores de um lado, e restritivos de outro. “Em adaptações sempre se perde e sempre se ganha, são narrativas diferentes. Na HQ você não precisa de um orçamento para fazer uma nave gigante, por exemplo, o custo é o mesmo, então é uma vantagem. Já o cinema é mais atraente com som e imagem, mas tem que contar uma história muitas vezes longa em duas horas”, opina.

 

Geniais e decepcionantes

No posto de segunda maior bilheteria da história das estreias do Brasil, “Os Vingadores: A Era de Ultron” tem números que não negam a satisfação do público: em três dias, 2,3 milhões de pessoas foram aos cinemas assistir ao filme da Marvel. Em 2014, adaptações como “Capitão América: O Soldado Invernal”, “O Espetacular Homem-Aranha: A Ameaça de Electro” e “X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido” figuraram entre as melhores arrecadações nos cinemas brasileiros, mas o sucesso geralmente tido como certeiro nem sempre está inerente às adaptações.

“O maior problema das adaptações são os próprios estúdios, que cortam muita coisa e o diretor não tem autonomia para manter. E o público quer o mais fiel à HQ possível”, sugere o ilustrador e fã de HQs, Bruno Flesch. Para ele, entre as melhores adaptações dos últimos anos estão os três recentes filmes do Batman e o primeiro de “Os Vingadores”. Por outro lado, a lista de desapontamentos também está na ponta da língua. “O ‘Lanterna Verde’ foi um filme que decepcionou bastante, era muita história condensada em 1h30 de filme, e os do ‘Wolverine’ também deixaram a desejar porque mudaram os personagens”, aponta.

Marco Santiago/ND
Fã de HQs, Bruno Flesch também desenha personagens

 

Enquanto para o jornalista e tradutor de HQs Érico Assis filmes como “Os Vingadores: A Era de Ultron” e “Scott Pilgrim Contra o Mundo” integram a lista de mais bem sucedidos em seu ponto de vista, a adaptação de “Watchmen” figura entre as más experiências. “Foi a adaptação que mais tentou levar para a tela tudo exatamente como era nos quadrinhos, e não funcionou. Tentar se prender muito ao quadrinho é um dos grandes problemas que podem acabar com uma adaptação, mas minha expectativa é sempre baixa, então não tem muitos filmes que me decepcionaram”, pondera.

Com pouca expectativa em relação à estreia de “Quarteto Fantástico”, Mario Luiz considera os filmes anteriores da série os mais frustrantes em termos de adaptações. “Dois deles inclusive foram direto para a locadora. Mas ‘O Monstro do Pântano’ também foi vergonhoso e igualmente o rumo que os filmes do Batman tomaram nos anos 1990”, conclui. Nas adaptações bem sucedidas, para ele, “Batman: O Cavaleiro das Trevas” figura no topo da lista.

 

Do cinema para a banca

As cifras bilionárias que acompanham filmes como “Os Vingadores” (2012), “Homem de Ferro” (2013) e “Batman” (2008 e 2012), títulos que aparecem entre as maiores bilheterias de filmes de quadrinhos, podem não acompanhar com a mesma potência as vendas dos HQs dos mesmos personagens, mas conforme dados divulgados pela distribuidora Diamond Comics, o ano 2014 apresentou um aumento de 9,5% no mercado norte-americano em relação ao ano anterior. E no ponto de vista de quem consome ambas as narrativas, o “fator telona” contribui sim com um aumento de interessados nos quadrinhos de papel.

Rosane Lima/ND
Érico Assis escreve sobre HQs há dez anos

 

“Talvez essas adaptações estejam fazendo com que o mercado de HQs se mantenha. As vendas vêm caindo há muito tempo, há 40 anos vendia como vídeo game, mas com os filmes voltou a ter um aumento. Pelo menos é o que se percebemos eventos de HQ ou conversando com gente que trabalha com isso”, afirma Érico, que há dez anos acompanha de perto o mercado dos quadrinhos e escreve sobre o tema no site Omelete.

Para Romeu, no entanto, há que se relativizar a influencia dos filmes nas vendas dos gibis.  “Quando o filme é bem sucedido, leva a um aumento nas vendas dos quadrinhos. Mas é uma pequena escala, na maioria das vezes. ‘Os Vingadores’, por exemplo, fez um bilhão e meio de dólares de arrecadação, é o terceiro filme mais popular de todos os tempos, teve muitas centenas de milhões de pessoas pagando pelo ingresso do cinema. Mesmo assim, a revista dos personagens atrai um público mensal de algumas dezenas de milhares de pessoas apenas”, pontua.

No ponto de vista de Mario Luiz, entretanto, não é simplesmente a ida para a tela que promove um possível interesse do público em consumir os quadrinhos, mas principalmente a sincronia que há entre as linguagens. “É um mercado cíclico, leva o leitor dos quadrinhos ao cinema e desperta o interesse nos quadrinhos de quem vai ao cinema. Hoje existe por parte das editoras uma busca por sintonia para que os personagens do cinema se pareçam com os dos quadrinhos. A Marvel, por exemplo, controla os dois meios. Há uma sincronia, e o mesmo acontece com as séries de televisão. Os três são autossustentáveis, não abandonam o leitor nem o espectador, mas se você acompanha todos fica mais claro”, sugere o tradutor. 

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