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Acervo de quase 15 anos de imagens da cultura popular de Florianópolis ganha website

O Acervo Caruso, do médico Waldemar Joaquim da Silva Neto, tem fotografias, vídeos e áudios e estará disponível on-line

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
14/11/2017 às 18H06

 Florianópolis mudou muito nos últimos 30 anos, ficou mais cosmopolita e apressada e perdeu grande parte dos artífices de raiz popular. Mas não se pense que não houve quem, no anonimato, registrasse as manifestações vivas das comunidades, no momento de transição da cidade que coincidiu com a chegada de milhares de forasteiros de outros Estados. Nascido e criado no Ribeirão da Ilha, o médico Waldemar Joaquim da Silva Neto é um desses obstinados admiradores do folclore e das tradições da Ilha de Santa Catarina que saíram de máquina e gravador em punho para inventariar o rico acervo das festas e rituais locais. Esse material, coletado entre 1982 e 1995, será apresentado na terça-feira, 14, a partir das 20h, na Nau Catarineta, espaço cultural que começa a funcionar no mesmo dia em Santo Antônio de Lisboa.

Pesquisador informal do folclore e tradições, Waldemar  da Silva Neto documentou à exaustão festas do Divino, ternos de Rei, boi de mamão, entre outras manifestações - Acervo Caruso/Divulgação/ND
Pesquisador informal do folclore e tradições, Waldemar da Silva Neto documentou à exaustão festas do Divino, ternos de Rei, boi de mamão, entre outras manifestações - Acervo Caruso/Divulgação/ND



O nome do projeto, “Acervo ‘Caruso’ de Folclore Catarinense”, é uma homenagem ao tio do médico, o vereador Waldemar Joaquim da Silva Filho (1938-1984), ele próprio um defensor da cultura da Capital que, entre outros feitos, propôs a adoção do “Rancho de Amor à Ilha”, do poeta Cláudio Alvim Barbosa, o Zininho, como hino oficial da cidade. Contendo mais de 17 mil fotografias, mil horas de áudio e 20 horas de vídeo, o acervo foi objeto de um projeto contemplado pelo Edital Elisabete Anderle, da Fundação Catarinense de Cultura, em 2014. Ali estão personagens como Lili da Rabeca e o “cantador” Darci, do Sertão do Peri, “seo” Chico, o dono de engenho assassinado no mesmo local, Mané Quirino, Zeca do Amaro e centenas de outras figuras que tomaram parte das bandeiras do Divino Espírito Santo, ternos de reis, bois de mamão, pau de fita, cacumbi, novenas e missas em diferentes cantos da Ilha.

O trabalho braçal de separação, higienização e organização dos negativos e fitas cassete coube ao cineasta José Rafael Mamigonian (dos documentários “Seo Chico, Terra e Alma” e “Seo Chico, um Retrato”), produtor executivo do projeto, com a ajuda do pintor João Otávio Neves Filho, o Janga (curador), e do fotógrafo Norberto Depizzolatti (coordenador de conservação e restauro). “Esta etapa é o início de um processo que pretende mostrar toda a beleza e singularidade das manifestações da Ilha a um público amplo”, diz Mamigonian. Ele afirma que nunca vira nada parecido e que a cada pasta ou envelope aberto novas surpresas iam aparecendo. Cerca de 10% do acervo vai ser disponibilizado num website que será permanentemente atualizado e acrescido de novas imagens, áudios e vídeos, permitindo a busca por pesquisadores, estudantes, historiadores e interessados em geral.

Boi de mamão, tradição da Ilha - Acervo Caruso/Divulgação/ND
Boi de mamão, tradição da Ilha - Acervo Caruso/Divulgação/ND



Já aposentado, Waldemar da Silva Neto parou de registrar o que vê pela frente, mas não está menos informado sobre as manifestações que persistem em distintas comunidades da Ilha. Ele sabe, por exemplo, os nomes dos grupos de boi de mamão que continuam saindo no Sambaqui, Ribeirão, Armação, Itacorubi e Pantanal, sem falar em Governador Celso Ramos e na Barra do Aririú, em Palhoça. Fala com naturalidade do terno de reis (“a coisa mais açoriana que temos”) e de personagens como Lico do Lalo, Ivo Cego, Nizinho, seu Emílio, Bernardinho e Zeca Rafael, alguns vivos, outros que já se foram, deixando marcas nas vilas e balneários e um legado que as comunidades realimentam nas festas do Divino e nos eventos religiosos do calendário.

Pesquisador informal do folclore e da cultura popular, Waldemar também registrou o trabalho nos engenhos, apresentações musicais em igrejas, a música de corais e fanfarras e a vida em família de pescadores, nos moldes do trabalho realizado décadas antes pelo artista e folclorista Franklin Cascaes – a quem conheceu quando era garoto. Sem metodologia, captou o que pode e guardou o que as mudanças e reformas não extraviaram. Sobraram 70 álbuns e 600 envelopes, além do material de áudio e vídeo, com muito do que recolheu junto a figuras que cita de memória, com o carinho de quem reconhece o legado deixado pelos velhos tocadores, cantadores, capelães de novena, puxadores de coro, foliões do Divino...

“É o recorte bruto de uma realidade que agora estará num suporte acessível a todos”, diz José Rafael Mamigonian, falando do website. “Neste sentido, considero este um momento histórico para a cidade”.

Material coletado entre 1982 e 1995 foi reunido e organizado pelo cineasta José Rafael Mamigonian  - Acervo Caruso/Divulgação/ND
Material coletado entre 1982 e 1995 foi reunido e organizado pelo cineasta José Rafael Mamigonian - Acervo Caruso/Divulgação/ND


Confira o acervo em: acervocaruso.wordpress.com/

 

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