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Quarta-Feira, 19 de Setembro de 2018
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Acervo de Franklin Cascaes pode ganhar espaço permanente

Com a construção do pavilhão de exposições do Museu Universitário da UFSC, a expectativa é que a arte se mantenha sempre viva

Pedro Santos
Florianópolis
Divulgação
Representação do boi-tatá criada pelo artista depois de documentar as histórias contadas pelos nativos

 

A obra de todo artista, em maior ou menor grau, está fadada ao esquecimento. Seja o desaparecimento cultural, ao menor sinal de que a obra e as idéias do artista se ausentam da sociedade, seja do próprio desaparecimento físico, já que telas, tintas e papeis se desgastam com o tempo.

Para evitar que isso aconteça com a vasta obra de um dos principais artistas e pesquisadores catarinenses, o professor Franklin Cascaes, a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) está construindo o pavilhão de exposições do Museu Universitário, que deve ser inaugurado no ano que vem. O espaço terá capacidade de armazenar o acervo artístico do museu dentro das normas rígidas exigidas pela ciência museológica de conservação. E, com exposições permanentes, é uma tentativa de manter viva a produção do artista que pesquisou a fundo o trabalho, as tradições e o cotidiano da população da Ilha de Santa Catarina.

“O perigo do esquecimento está sempre rondando o artista, principalmente se não existe uma situação mercadológica estabelecida”, observa o artista Fernando Lindote, que foi curador de uma exposição sobre desenhos e esculturas de Cascaes em 2010. Para ele, como a obra de Cascaes não possui um valor de mercado, o trabalho cultural sobre o legado do artista deve ser permanente.

“Deve haver um esforço permanente para fazer circular a obra do artista, que certamente gostaria que seu trabalho fosse visto. Para isso, poderíamos pensar em possibilidades como uma exposição permanente ou mostras itinerantes”, ressalta.

Dentro do Museu Universitário da UFSC, o pensamento é diferente. O diretor de pesquisa Hermes Graipiel Junior, especialista na obra de Franklin Cascaes, acredita que o acesso irrestrito às obras é prejudicial. “Algumas pessoas que acessaram a obra de Cascaes são responsáveis por aberrações que existem até hoje, como falar que Cascaes está ligado só com bruxa. A menor parte da coleção é sobre as bruxas. Cascaes propõe questões indígenas e traz trabalhos com os negros da época que não é divulgado”, diz.

Graipiel acredita que o olhar dos espectadores deve sempre passar pela mediação de um especialista. “De que adianta você ver uma obra de arte se não tem a menor ideia do que ela diz, do contexto da época, das escalas e perspectivas?” E completa dizendo que seria impossível expor toda a obra do artista, composta por mais de mil esculturas e 900 desenhos. “Este é um museu universitário e tem uma preocupação acadêmica restrita a pesquisadores”, afirma.

Graipiel mostra, por um catálogo, já que as obras estão armazenadas em arquivo deslizante dentro do museu, as obras de Cascaes que fogem do estereótipo, como os desenhos de crítica política. O mais conhecido é a série de vassouras que se referem ao ex-presidente Jânio Quadros em críticas explícitas vistas, por exemplo, no desenho intitulado “Com Jânio morreram os últimos profetas demagógicos que começaram e acabaram em vassoura”. “Há uma crítica política mordaz na obra de Franklin, mas não divulgamos tudo porque há muita gente que ele criticou ainda viva”, explica Graipiel.

No livro “Na cauda do boitatá”, em que Heloisa Espada estudou o processo de criação dos desenhos de Franklin Cascaes, a pesquisadora afirma que o objetivo de Cascaes era guardar para a posteridade o máximo que pudesse sobre a vida dos antigos moradores da região.

Em uma coisa todos concordam: a ampla produção do etnógrafo, mitólogo, escultor, desenhista e fabulista foi criada com a intenção de contribuir com a preservação do que ele mesmo chamava de memória coletiva.

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O lugar onde tudo começou

O filho de Maria Catarina e Serafim Joaquim Cascaes nasceu em 1908 em um dos locais que mais sofreram com as modificações na Capital catarinense. A antes idílica região em Itaguaçu hoje deu lugar para a expansão imobiliária desenfreada, uma crítica que Franklin Cascaes já fazia desde 1950 ao observar que a civilização desordenada tomaria à força o ambiente e a tradição das comunidades nativas.

Franklin viveu em uma casa de seis janelas de frente que foi o que restou de uma grande porção de terra de propriedade senhorial. “Era uma espécie de sesmaria que ia de Itaguaçu a Capoeiras”, lembra Gelci José Coelho, o Peninha, museólogo que trabalhou com Franklin Cascaes. “Eles eram auto-suficientes na pesca e na lavoura e tiveram que pagar parte da terra como parte dos impostos que vieram depois da Proclamação da República (1889).”

O vai e vêm dos empregados que passavam pela casa chamava a atenção de Franklin, que prestava muita atenção na conversa deles e pensava muito a respeito.

Certo dia, na praia de Itaguaçu, o professor paulista Cid Rocha Amaral se espantou ao ver as quinze estações da via-sacra esculpidas na areia. Quando o professor descobriu que a arte era de um menino de pouco mais de 20 anos, levou o jovem artista para trabalhar como servente na escola especial de artes manuais, hoje a Escola Profissional Feminina. Enquanto isso, Franklin estudava muito para virar professor na Escola Industrial, atualmente IF-SC (Instituto  Federal de Santa Catarina).

O professor Franklin

Na apertada cozinha da Toca do Paru, em frente à praia de Itaguaçu, o dono do lugar se lembra com saudades da vida dedicada à pesca, das tradições ribeirinhas contadas em família e das aulas de desenho que teve com Franklin Cascaes. Carlos Alberto da Silva, o Paru, teve aulas de desenho com Franklin na antiga Escola Industrial. “Ele era um professor muito rígido. Só nos deixava usar lápis e borracha. Ficava nervoso quando via alguém com caneta”, lembra. De acordo com Paru, o professor acreditava que a caneta tirava a liberdade de quem desenha.

Entre as fritadas de peixe no horário de pico do restaurante, Paru conta as saudades da praia que não existe mais. “Aqui era região de família tradicional e o Cascaes conviveu com tudo isso, recolhendo histórias e crenças.” E ao ser perguntado se acredita em seres fantásticos como as bruxas, Paru desconversa com elegância com um tipo de sotaque que Cascaes chegou a registrar. “Acreditar, acreditar... Não sei dizer. Tem coisa que tu acredita e tem coisa que não acredita, né, ô?”

 

Divulgação
"Eu acredito na mente das pessoas, que cria tudo o que elas acreditam", disse Cascaes


A obra viva

 

A pesquisa e a arte de Franklin Cascaes periodicamente é revisitada em obras artísticas por todo o Estado. Em outubro, um projeto itinerante circulou pelas escolas da rede pública de Florianópolis trazendo uma roda de histórias e brincadeiras. “Ao pé da figueira: roda de histórias e brincadeiras de Franklin Cascaes e outros mais” é uma espécie de oficina-espetáculo que conta as histórias ao mesmo tempo em que são construídos brinquedos com as crianças. O grupo “4 com 8 sapatos” propõe um reencontro com as narrativas da tradição oral da ilha.

Outra iniciativa para a releitura da obra do artista é o livro “13 Cascaes”, indicado como leitura obrigatória para o vestibular da UFSC. Organizado por Salim Miguel e Flávio José Cardozo, a obra reúne treze contos de escritores catarinenses inspirados no “guardador maior da cultura popular da Ilha de Santa Catarina e dos litorais de ascendência açoriana”, de acordo com o editor do livro, Dennis Radünz.

O livro traz contos que evocam o imaginário criado por Franklin, como no trecho em que Silveira de Souza resgata o instante em que ele mesmo teve uma experiência bruxólica, ou quando Flávio José Cardoso relembra a dor de Cascaes a cada aniversário de morte da esposa, Elizabeth Pavan Cascaes, a dona Beth.

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“Eu acredito na mente das pessoas, que cria tudo o que elas acreditam. Se alguém acredita em bruxas ou em Nossa Senhora ou no Demônio, então, para ele, na sua mente, essas entidades existem. O meu trabalho é o de apenas anotar as histórias que esse povo conta.” (Franklin Cascaes)

A obra do artista

1370 esculturas

944 desenhos

Mais de 100 acessórios artesanais

22 cadernos grandes

124 cadernos pequenos

466 folhas avulsas com manuscritos

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