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A rua é a mesma, mas o nome... Conheça as ruas de Floripa que têm várias denominações

Chama a atenção de muitos turistas e de gente que se mudou para Florianópolis o fato de uma mesma via conter distintas denominações, mesmo não sendo tão extensas assim

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
14/10/2016 às 12H52

Quem não é da cidade, pela razão elementar de desconhecer suas origens, e os nativos que chegaram há pouco tempo talvez sejam os mais tentados a imaginar como era esta ou aquela rua, praça ou avenida antes que Florianópolis se tornasse a barafunda urbana que é hoje em dia. O que havia onde atualmente fica o Beiramar Shopping, por exemplo? Por que a rua Marechal Guilherme tem este nome? Como eram a Bocaiúva e a Almirante Lamego antes da construção do aterro e da larga avenida à beira-mar que mudou a configuração da urbe? E há alguma razão para uma via ter três, quatro ou mais denominações de onde começa até o ponto onde termina? 

Como outros episódios da história da capital catarinense, também os logradouros públicos parecem ter sido abertos ou batizados de forma aleatória ou desordenada. Até 1890, as esquinas não tinham placas – a cidade era pequena e todos sabiam que tipo de comércio havia nas ruas do Livramento (atual Trajano) e Augusta (depois João Pinto). Quando a municipalidade providenciou a identificação, o jornal “Republica” elogiou, com um quê de viés político, a iniciativa. As antigas estações elevatórias de esgoto – os chamados “castelinhos” das praças Celso Ramos, dos Namorados e Fernando Machado – são construções remanescentes do início do século passado, mas grande parte do velho casario sucumbiu à expansão imobiliária das últimas cinco décadas. E as ruas? Bom, essas mudaram de cara e de nome muitas vezes do século 19 para cá.

Quem tem curiosidade sobre o período que precedeu tantas transformações precisa ir aos livros para entender como tudo aconteceu. “Florianópolis – Memórias urbanas”, de Eliane Veras da Veiga, é uma importante referência para elucidar as mudanças pelas quais passou a cidade e virou fonte obrigatória de consultas para arquitetos, historiadores, jornalistas e estudantes de diferentes áreas e cursos universitários. “Florianópolis – Resenha histórica”, de Adolfo Nicolich da Silva, é mais sucinto e explica como foram dados os nomes dos logradouros e quem eram as personalidades que os denominam. O geógrafo e professor João Batista Soares também escarafunchou arquivos e bibliotecas para ajudar nessa empreitada, mas admite que o tempo apagou parte das pistas existentes. “Muito se perdeu com incêndios e mudanças de endereço dos materiais”, afirma.

Uma via, seis denominações

Chama a atenção de muitos turistas e de gente que se mudou para Florianópolis o fato de uma mesma via conter distintas denominações, mesmo não sendo tão extensas assim. O caso mais emblemático é o da rua Delminda Silveira, que começa na Penitenciária Estadual e muda para Rui Barbosa no palácio da Agronômica, residência oficial do governador do Estado, passa a se chamar Frei Caneca na praça Professor Amaro Seixas Neto e ganha o nome de Heitor Luz no curto trecho entre a esquina da Demétrio Ribeiro e o posto de combustíveis localizado ao lado do Beiramar Shopping. Dali para frente, a rua responde pelo nome de Bocaiúva e muda para Almirante Lamego a partir da esquina com a Arno Hoeschl.

Ruas em Florianópolis que mudam de nome - Marco Santiago/ND
Rua Bocaiuva, em Florianópolis - Marco Santiago/ND



Este pode ser o exemplo mais escancarado, mas há outros. A rua Hermann Blumenau vai da avenida Mauro Ramos até a praça Getúlio Vargas, passa a se chamar Durval Melquíades de Souza, depois Dib Mussi e por fim São Francisco, após cruzar a Esteves Júnior. A partir da praça Fernando Machado, a via que segue pela 15 de Novembro passa a chamar Ilhéus no largo da Catedral, depois vira Visconde de Ouro Preto, cruza a praça Getúlio Vargas e ganha o nome de Dom Joaquim, até desembocar na avenida Trompowsky. Seria ou não, em ambos os casos, a mesma rua com distintas designações? Só para comparar, em Buenos Aires as avenidas 25 de Maio e 9 de Julho praticamente atravessam a cidade. E o que dizer de Nova York, com suas avenidas quilométricas?

Figuras sem relação com a cidade

Datilografado, o projeto de lei nº 112, de maio de 1957, que está nos arquivos da Câmara de Vereadores de Florianópolis, já regulava a denominação dos logradouros da cidade. Diz o texto, em grafia da época, que a homenagem “sòmente poderá recair em personalidades já falecidas e que tenham prestado relevantes serviços ao Município, Estado ou País ou de destaque internacional, bem como sôbre datas ou fatos de nossa História Pátria”. Excepcionalmente, pessoas vivas poderiam batizar nomes de vias públicas, mediante aprovação de projeto de lei subscrito pela maioria dos vereadores. A proposição era do vereador Carmelo Faraco.

Depois, em 1961, a lei nº 189, proposta pelo vereador Baldicero Filomeno, pedia dados biográficos que justificassem o pedido. Em 1998, lei sancionada pela prefeita Angela Amin agregava a necessidade de abaixo-assinado dos moradores ou ata da assembleia da entidade que propunha a denominação, e proibia a homenagem a pessoas vivas – a certidão de óbito deveria ser anexada ao projeto de lei respectivo. Por fim, em 2003, outra lei proibia a duplicidade de denominação de logradouros públicos, “independente da classificação dos mesmos”.

Nem todas essas leis foram levadas ao pé da letra. Persiste a dupla denominação, como denunciou Adolfo Nicolich, citando os casos de ruas e de jardins (localizados no interior de praças públicas) com os nomes de Cruz e Sousa, José Boiteux, Jerônimo Coelho, Gustavo Richard e Lauro Müller. Também há nomes estranhos à história da cidade e do Estado, como nos casos das ruas Bento Gonçalves, Padre Roma, Padre Miguelinho e Frei Caneca.

Passagem obrigatória pela Agronômica

Caminhar da Agronômica até o Centro pelo caminho original, anterior à construção da avenida Beira-mar Norte, é uma experiência enriquecedora. Da rua Delminda Silveira até a Almirante Lamego é possível encontrar prédios portentosos onde há duas décadas predominavam casas de um piso dispostas uma ao lado da outra, típicos dos antigos bairros residenciais. Edifícios ocuparam o lugar das residências ao longo do trajeto, mas as mudanças não impediram que casas e sobrados fossem abandonados, com mato crescendo nas frestas e nos quintais. Jardins e praças bem cuidadas contrastam com árvores que secam pela ação de agentes parasitários. O belo prédio rosa do antigo Iate Clube, ainda na rua Rui Barbosa, é tão atraente quanto os exemplares tombados do casario da parte final da Esteves Júnior, onde o mar batia até a década de 1960.

Fernanda Baron, manezinha nascida na atual rua Paulo Zimmer, ao lado do colégio Padre Anchieta, lembra dos tempos em que brincava nos terrenos arenosos da região, ainda cortada por estrada de terra batida. Os ônibus seguiam pela Lauro Linhares até a Trindade, mas por ali também passava o único acesso ao norte e leste da Ilha e a parte que fica antes da Casa d’Agronômica era chamado bairro da Penitenciária. “A Agronômica ia até o início da avenida Mauro Ramos, conde começava o Centro”, conta ela.

O professor João Batista Soares, que pretende transformar em livro suas extensas pesquisas, informa que, além de Jesuíno Lamego da Costa, muitos outros almirantes passaram a nomear ruas da cidade. Com o advento da República, em 1889, próceres do novo regime substituíram os nomes – muito mais poéticos – consagrados pelo uso, como as ruas Augusta, Formosa, do Segredo, do Rosário, das Olarias, do Girassol, do Vigário e do Imperador.

Quando o mar chegava na Bocaiúva

Na rua Bocaiúva, os irmãos Cássio Roberto e Carmen Maria da Silveira conservam intacta, na esquina com a avenida Othon Gama d’Eça, a célebre casa rosa que pertenceu ao pioneiro Idalino Marcolino da Silveira e sua mulher Maria Olímpia, 150 anos atrás. Ali, um dos filhos dele, José Acácio da Silveira, manteve uma barbearia famosa cuja freguesia era formada por políticos, empresários, religiosos e jornalistas conhecidos. Na mesma época, os filhos que teve com Anézia Moreira da Silveira, que morreu aos 101 anos, em 2013, brincavam de bola na atual praça dos Namorados e tomavam banho na baía norte, de mar limpo e piscoso.

Os irmãos Cássio Roberto e Carmen Maria da Silveira conservam intacta, na esquina com a avenida Othon Gama d’Eça - Marco Santiago/ND
Os irmãos Cássio Roberto e Carmen Maria da Silveira conservam a casa na esquina com a avenida Othon Gama d’Eça - Marco Santiago/ND



Além da presença do mar, com seu cheiro característico, as famílias da redondeza eram assíduas frequentadoras da igreja São Sebastião, uma das mais antigas edificações da Bocaiúva, das quermesses e dos carnavais da região. “Meu pai dizia que podia levar uma hora sem que um carro passasse na nossa rua”, conta Carmen Maria. As poucas famílias abastadas construíam casas para alugar nas inúmeras chácaras que havia na área onde está hoje a Casa do Barão. A avenida Gama d’Eça foi aberta só em 1969, e as praias do Müller e de Fora, mais próximas, perderam em apelo e prestígio para os balneários de Coqueiros, para onde a maioria ia de ônibus.

As casas da rua Bocaiúva davam de costas para o mar, mas ao poucos essa região (assim como a rua Almirante Lamego) assumiu a condição de um dos endereços residenciais mais nobres de Florianópolis. Sorveterias famosas, o bar Katcips, a Macarronada Italiana (que funciona até hoje) e as boates Bacarat e Dizzy (bem depois) ajudaram a transformar essas vias em referências de vida descolada na Capital. Bem diferente dos velhos tempos das vendinhas e dos bois que, vindos do Continente, atravessavam a ponte Hercílio Luz, passavam pela Almirante Lamego e Bocaiúva em direção ao matadouro, no Saco Grande, e chegavam a entrar nos bares, tumultuando a rotina de adultos e crianças que circulavam ou brincavam por ali.

Foto histórica da rua Bocaiúva, em Florianópolis - Reprodução/Marco Santiago/ND
Foto histórica da rua Bocaiúva, em Florianópolis - Reprodução/Marco Santiago/ND



O estádio e o tutor do poeta

Para não deixar as duas perguntas do primeiro parágrafo desta reportagem sem resposta, é preciso informar que o espaço onde se situa o Beiramar Shopping era ocupado pelo estádio Adolfo Konder, do Avaí F. C. Também conhecido com Campo da Liga, ele foi inaugurado em 1930 e sediou jogos profissionais até 1982, sendo demolido para a construção do primeiro grande centro comercial de Florianópolis. Já a rua Marechal Guilherme tem seu nome atribuído ao marechal Guilherme Xavier de Souza (1818-1870), que lutou na guerra do Paraguai e foi o tutor de João da Cruz e Sousa, o poeta simbolista a quem garantiu os estudos como filho de criação, ao lado da mulher, Clara Angélica Xavier Fagundes.

 

ONDE OS NOMES MUDARAM

Denominação antiga - Denominação atual

Praça Barão de Laguna - Praça 15 de Novembro

Rua do Imperador - Rua Tenente Silveira

Rua do Livramento - Rua Trajano

Rua São Sebastião - Rua Bocaiúva

Rua Sant’Ana - Rua Almirante Lamego

Rua da Pedra Grande - Rua Frei Caneca

Rua do Rosário - Rua Marechal Guilherme

Rua Áurea - Rua dos Ilhéus

Rua do Segredo - Rua Bento Gonçalves

Rua Trindade - Rua Arcipreste Paiva

Rua Marechal Foch - Rua Nereu Ramos

Rua Santa Bárbara - Travessa Ratcliff

Rua do Vigário - Rua Fernando Machado

Rua Conceição - Rua Saldanha Marinho

Rua da Lapa - Rua Nunes Machado

Rua Tronqueira - Rua General Bittencourt

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