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Voo 2933: os seis sobreviventes da tragédia com avião da Chape na Colômbia

Três jogadores, dois tripulantes e um jornalista tiveram uma segunda chance

Fábio Bispo
Florianópolis
30/11/2016 às 23H26
Da esq. para dir., em sentido horário: Alan Ruschel, Erwin Tumiri, Neto, Rafael Henzel, Ximena Suárez e Jackson Follmann - Divulgação
Da esq. para dir., em sentido horário: Alan Ruschel, Erwin Tumiri, Neto, Rafael Henzel, Ximena Suárez e Jackson Follmann - Divulgação


Entre os seis sobreviventes da queda do avião da Chapecoense, somente os dois tripulantes bolivianos – a comissária Ximena Suárez e o técnico aeronáutico Erwin Tumiri – não correm risco de morrer. Os outro quatro – os jogadores Alan Ruschel, Jackson Follmann e Neto, e o jornalista Rafael Henzel– continuavam nesta quarta-feira (30) em estado crítico, porém estável. Todos estão sedados e na UTI.

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Erwin e Ximena estão em "condições muito boas", segundo a diretora médica da clínica Somer (em Rionegro, cidade vizinha a Medellín), onde ambos estão internados. Os bolivianos são os únicos que não estão na UTI.

Alan sofreu uma cirurgia na coluna vertebral – que, no momento, não compromete sua mobilidade, informou o hospital. O zagueiro Neto e o jornalista Rafael Henzel estão sedados e entubados desde que foram internados, segundo Luiz Fernando Rodríguez, diretor médico da Clínica San Juan de Dios, na cidade de La Ceja, a cerca de 30 km do local do acidente. O que mais preocupa nos dois pacientes, informou Rodríguez, é a extensão do trauma torácico, mais grave em Neto que em Rafael. A meta crucial é que eles recuperem a função pulmonar.

Os pacientes, disse o diretor médico, não têm problemas neurológicos graves nem lesões sérias no membros, e só estão sedados para que sejam mantidos "numa condição de tranquilidade" necessária à recuperação.

O goleiro Follmann teve a perna direita amputada, "pela gravidade das lesões", informou Ferney Rodríguez, diretor médico do hospital San Vicente Fundación, também em Rionegro. "O controle da perna esquerda, como do paciente em geral, continua em evolução e estamos atentos na fase de estabilização", diz, em nota.

Não há ainda elementos suficientes para saber o que pode ter ajudado os tripulantes na queda. Veículos colombianos e brasileiros publicaram que Erwin declarou ter sobrevivido porque seguiu à risca o protocolo de segurança (pôs uma mala entre as pernas e ficou em posição fetal).

O vice-presidente jurídico da Chapecoense, Luiz Antonio Palaoro, disse nesta quarta que os sobreviventes brasileiros ficarão ao menos dez dias internados nos hospitais da região de Medellín.

Follmann sonhava com o time principal em 2017

Quando o telefone tocou, na madrugada de terça-feira (29), anunciando a maior tragédia do esporte brasileiro, perto de Medellín, Marisa Follmann respirou fundo, manteve a calma e ouviu o coração: “Meu coração dizia que Deus estava protegendo ele, que ele estava bem”. A mãe não estava errada. Horas depois ela confirmou o nome do filho, o goleiro Jackson Follmann, na lista de sobreviventes.

Follmann sonhava com o time principal em 2017 - Divulgação
Divulgação


Natural de uma pequena cidade gaúcha, chamada Alecrim, o jovem Jakson Ragnar Follmann começou cedo sua trajetória no futebol, levado pelo pai, passou em testes nas escolinhas do Grêmio, quando tinha 14 anos.

No começo de 2010, duas aparições importantes destacaram o goleiro no cenário nacional. Na Copa São Paulo de Futebol Júnior, três pênaltis defendidos nas quartas de final ajudaram o Alviverde na conquista do terceiro lugar. A mesma colocação foi obtida na Taça BH de Juniores. Tais atuações lhe propiciaram chegar à Seleção Brasileira Sub-20.

Já em 2016 disputou o Campeonato Mineiro pela URT, de Patos de Minas. Como um dos expoentes técnicos da equipe, colaborou para a conquista do título do interior, numa das melhores campanhas de toda a história do Clube. Fã do companheiro de profissão Buffon, agrega agilidade, bom reflexo e liderança em campo, tanto que foi o capitão da equipe durante toda a competição, parando somente no Atlético-MG. Desta forma chegou à Chapecoense para a sequência da temporada.

Aos 24 anos de idade, e com uma das pernas amputadas devido ao acidente, Follmann terá o sonho de integrar o time principal da Chapecoense interrompido. As chances de Danilo, o titular que chegou a ser resgatado com vida, ser negociado no próximo ano eram grandes, o que invariavelmente abriria espaço para Follmann se tornar goleiro titular da Chape.

O goleiro estava na parte traseira do avião e chegou ao hospital com politraumatismos, correndo ainda sérios riscos de morte. De acordo com um dos bombeiros que participou do resgate nos destroços, o atleta gritava "não me deixe morrer".

O pai do atleta contou que estranhou o fato do filho demorar a avisar que havia chegado ao destino após a viagem, coisa que Jackson sempre fazia. Eles acabaram sendo acordados com uma ligação da noiva, que informou o acidente com o avião da equipe. As informações começaram a aparecer pouco depois, mas para o alívio da família o nome do filho apareceu entre os sobreviventes.

Em entrevista ao portal Globo Esporte, Waltinho Souza , gerente de futebol da URT, onde Follmann atuou antes de chegar à Chape, disse que o jogador estava feliz com o momento que vivia o clube e que as expectativas para 2017 eram boas.

Noiva de Alan Ruschel pediu para jogador não viajar

Follmann sonhava com o time principal em 2017 - Divulgação
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Há 15 dias, a noiva de Alan Ruschel cancelou uma viagem para Austrália, onde iria visitar o irmão. "Não sei o que me deu. Estava tudo comprado. Mas tive certeza de que não era para eu ir". Dois dias antes do embarque para Medellin, um novo pressentimento. O passaporte do noivo havia sumido de cima da mesa, motivo pelo qual ela pediu que Alan Ruschel não viajasse. "Um dia, vi o passaporte em cima da mesa. Dois dias depois, havia sumido. Reviramos tudo. Procurei até no lixo. E nada do passaporte do guri."

Mesmo assim, comprometido com a equipe, Alan Ruschel seguiu para Colômbia e prometera ligar para noiva assim que desembarcasse em Medelin. Até às 3h da madrugada nenhum sinal. Foi então que veio a notícia pela televisão. Durante toda a terça-feira, Marina passou com familiares das vítimas e jogadores que não viajaram na sede do clube. No mesmo dia, ao saber que o noivo sobrevivera, tratou de marcar o casamento.

Alan Ruschel foi o primeiro dos seis sobreviventes resgatados dos destroços do avião. Ainda consciente, em espanhol, o lateral esquerdo fez um pedido comovedor à equipe médica que prestava os primeiros socorros:

“Minha família, meus amigos... onde estão?”, e em seguida pediu que a equipe médica guardasse com cuidado sua liança de noivado.

O lateral esquerdo de 27 anos de idade nasceu na cidade de Nova Hartz, no Rio Grande do Sul, e ocupava o banco de reservas da equipe catarinense, servindo como substituto de Dener Assunção, que morreu na queda. Alan foi revelado nas categorias de base do Juventude, onde ficou até 2013. No período que tinha contrato com o time gaúcho, chegou a ser emprestado ao Pelotas e Luverdense.

Em 2013, foi contratado pela primeira vez para compor o elenco da Chape, onde disputou a série B. No ano seguinte, foi contratado pelo Internacional. Jogou no Atlético-PR em 2015 e neste ano retornou à Arena Condá.

No dia 1º de julho de 2013, quando fechava com a Chapecoense pela primeira vez para disputar a série B, Alan Ruschel postou em seu facebook que “nada nessa vida é por acaso” emendando que “a vida nem sempre segue a nossa vontade, mas ela é perfeita naquilo que tem que ser”.

Grandão, Neto

Grandão, Neto - Divulgação
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Depois de cinco resgates e praticamente conformados em não encontrar mais ninguém com vida, os socorristas ouviram um gemido debaixo das fuselagens. Segundo relato Juan David González, à TeleMedellín , os gemidos indicavam o local onde estava Hélio Hermito Zampier Neto, o Neto, 31. Bastante ferido e sem condições de se mover, Neto foi o último resgatado do acidente.

Nascido no Rio de Janeiro, o zagueirão de quase 2 metros de altura tem no currículo passagens por grandes clubes do Brasil, como Vasco, onde começou a carreira, e Santos, onde foi chamado de grandão por Neymar. Ele ainda defendeu as cores do Paraná Clube, Francisco Beltrão, Cianorte, Guarani e Metropolitano, até chegar à Chapecoense em fevereiro de 2015.

Antes de embarcar, Neto deu um depoimento comovente a outro sobrevivente da tragédia, o jornalista Rafael Henzel: "A gente imagina que algumas coisas vão acontecer, tanto para o bem quanto para o mal. Tive um momento de lesão, uma lesão importante, e eu não imaginava. Não imaginava que as coisas fossem acontecer tão bem como aconteceram. Foi um momento que Deus colocou na minha vida", disse o zagueiro no vídeo que circulou o mundo através da internet.

A maior audiência do grande Oeste

Rafael Henzel - Divulgação
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Na tarde de segunda-feira, antes do embarque para a Colômbia, os detalhes dos bastidores da Chapecoense poderiam ser encontrados na página do jornalista Rafael Henzel, da Rádio Oeste Capital. O único jornalista sobrevivente na tragédia narrou todos os passos da viagem até o embarque. Postou fotos dos jogadores dentro da aeronave, e ainda em São Paulo, gravou um vídeo com o jogador Neto, que falou da emoção de participar da competição internacional.

Henzel foi repórter da RBS TV em Santa Catarina e da TV Rio Sul, em Volta Redonda (RJ). Em 2009 assumiu a direção de jornalismo da RIC TV, onde ficou por um ano. Casado, pai de Tavinho, 11 anos, Henzel vivia um dos melhores momentos da vida como profissional.

Sócio proprietário de uma empresa de marketing esportivo, mantinha uma das programações com maior audiência de toda a região, chegando a ter 70% dos aparelhos de rádio ligados na sua programação. Acompanhou toda a campanha da Chape no Brasileirão e na Sul-Americana.

“Os planos dele eram ampliar o tempo no ar e expandir também para outras plataformas como a internet. Ele estava realizando um sonho, que é ser líder em audiência na região”, contou o jornalista Diego Antunes, que fazia reportagem externa nas transmissões de Hensel.

Na terça-feira, a mulher de Henzel foi contatada por um responsável da unidade de saúde a pedido do próprio Rafael para tranquilizar a família.

Luzes do avião se apagaram antes de cair

Ximena Suárez - Divulgação
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"O avião se apagou completamente e teve um declínio acentuado, seguido por um grande impacto." Estas foram as palavras da aeromoça Ximena Suárez ao governador de Antioquia, Luis Pérez, que conversou rapidamente com Ximena no hospital. A comissária foi resgatada cerca de duas horas depois da perda de comunicação com a torre.

Ximena teria seguido as recomendações de emergência para este tipo de situação. Motivo pelo qual teria sofrido ferimentos mais leves que os demais.

Técnico seguiu protocolo

Erwin Tumiri - Divulgação
Erwin Tumiri - Divulgação


O técnico em aviação Erwin Tumiri, 25 anos, disse que ficou em posição fetal, antes da aeronave se chocar contra o monte na madrugada de terça. "Sobrevivi porque segui os protocolos de segurança. Naquela situação, muitos se levantaram das cadeiras e começaram a gritar, mas eu coloquei as malas entre minhas pernas para formar a posição fetal, a que se recomenda nos casos de acidentes", declarou Tumiri à Rádio Caracol.

Boliviano, natural de Cochabamba, Erwin Tumiri era um dos nove bolivianos a bordo. A irmã do técnico, Florencia Tumiri, conversou com jornalistas do canal TVB, da Bolívia. Florencia ficou sabendo do acidente às 7h30 da manhã, quando foi avisada que o irmão estava bem e fora de perigo. Depois, ao ter ideia da proporção do acidente, comentou aos jornalistas: “Eu queria ver seu rosto, saber como ele está. Quero ver ele chegando em sua moto novamente para tocar seu violão”.

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