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Segunda-Feira, 12 de Novembro de 2018
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Vinhedos catarinenses ganham terreno em meio à crise

Villagio Grando aposta nas vendas on-line para crescer ainda mais no mercado nacional

Raquel Cruz
Florianópolis

Reajuste fiscal, importações em queda e o preço do dólar em constante subida. Essa combinação de elementos pode estar tirando o sono de muitos brasileiros neste momento, mas tem quem esteja comemorando – e comemorando com um espumante ou vinho produzido na serra catarinense. Ao mesmo tempo em que a alta do dólar – oscilando perto de R$ 4 – virou assunto à mesa, as garrafas de bebidas importadas saíram de cena para dar espaço, cada vez mais, a produtos produzidos aqui.

Divulgação/ND

 

O Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho), estima que só no último semestre a venda de garrafas nacionais foi 10% superior se comparada ao mesmo período do ano passado em todo o país. Os espumantes foram os que mais saíram das adegas para a mão dos clientes, mais de 20%. Na mesma ascendência, todas as bebidas produzidas em vinícolas – do tradicional vinho tinto ao suco de uva – tiveram sua parcela para o mercado estar tão promissor em um ano, teoricamente, tão difícil para a economia.

Em Santa Catarina, segundo estado produtor de vinhos do Brasil, o cenário impulsionou as vendas ainda mais. “Na qualidade, a gente sempre esteve competitivo e, nesse ano, tivemos um aumento porque os preços estavam equiparados com preços de fora. Estão dizendo que o crescimento do vinho será de 15% a 20%”, prevê o produtor Guilherme Grando, 30 anos.

Além do dólar alto, outro fator pressionou para uma redução da entrada de rótulos importados. Um dos ajustes no orçamento, feito pelo o governo federal no segundo semestre de 2015, fez a taxa tributária total de uma garrafa importada passar de 75,88% para 77,78% enquanto que para um vinho nacional é de 54,73%, segundo o IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação). Apesar dos números, argumenta Guilherme, nem sempre dá para fugir dos reajustes: “Hoje, só Mato Grosso e Distrito Federal têm incentivo fiscal. Em todos os outros estados e aqui mesmo dentro do estado, as taxas são quase as mesmas”.  Além do próprio estado, Rio de Janeiro, Paraná e Distrito Federal são os principais consumidores dos rótulos da vinícola catarinense.

Responsável pela vinícola da família, a Villagio Grando, no município de Água Doce, Guilherme é um dos produtores que têm visto na crise o momento certo para atrair clientes que não chegariam em outros tempos. Depois de ver brasileiros de outros Estados procurarem pelas bebidas produzidas na propriedade dele, resolveu se lançar pela tendência do e-commerce.

A procura maior vem da tradicional maneira de se vender vinho: o face a face e uma taça para degustar o produto dentro da vinícola. Para quem mora longe de Água Doce, no entanto – seja lá qual for o Estado brasileiro – a solução foi uma adega on-line. “A gente pegou o preço médio das lojas e criamos uma tabela. Tem cidades do Brasil que você vai pagar R$ 5, R$ 6 reais mais barato ou mais caro, dentro da média”, explica Guilherme.

 

Nacionais em alta

A venda de bebidas produzidas em vinícolas deu um salto em todo o país no ano de 2015. Só no último semestre, foram 10% de aumento com relação ao mesmo período do ano passado.

Crescimento de bebidas em geral: 7,2%

Espumantes: 20,4%

Vinhos finos: 7,5%

Vinho branco: 5%

Vinho tinto: 8%

(Fonte: Ibravin - Instituto Brasileiro do Vinho)

 


Imposto como aliado

Um dos ajustes no orçamento feito para o governo federal no segundo semestre de 2015 foi o possível segundo fator que impulsionou o consumo das bebidas nacionais. 

A  taxa de PIS/Cofins para importados passou, a partir de 1º de outubro, de 9,25% para 11,75%. Com o aumento, a taxa tributária total que se tira do bolso para comprar uma garrafa importada passou de 75,88% para 77,78% enquanto que para um vinho nacional é de 54,73%. (Fonte: - IBPT - Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação)

 

De olho no exterior

O ganho de terreno com relação aos concorrentes importados, acredita Guilherme, pode ser uma chance de manter o mercado em alta mesmo depois da crise. “O espumante, principalmente, entrou em lugares que antes eram só os importados. Pela primeira vez a gente está tendo uma concorrência justa”, avalia o produtor.

Depois que a crise passar, uma das apostas da família é aproveitar outro fator do comércio de vinhos: a inexistência de taxas para a exportação. “Estamos indo para locais onde o comércio é mais aberto para vinhos e com potenciais de gastronomia, como a China”, adianta.

As primeiras garrafas saíram de Itajaí em direção ao continente asiático em outubro de 2013. A família Schurmann, que está em sua quarta volta ao mundo a bordo da Expedição Oriente, carregou toda a adega do veleiro. Entre as garrafas levadas a bordo, está o Innominabile, primeiro vinho tinto do mundo a acompanhar uma expedição ao redor do planeta do início ao fim, percorrendo 30 mil milhas náuticas (cerca de 50 mil quilômetros), passando por quatro oceanos, 50 portos em 29 países de cinco continentes.

 

Rótulos com qualidade europeia

A geografia é um importante aliado catarinense na disputa por espaço no mercado de vinhos. É no Planalto e na Serra onde se encontram temperaturas semelhantes às dos tradicionais vinhedos de Portugal, Itália e do Sul da França. “As temperaturas durante o crescimento dos ramos e da maturação da uva são menores, o que faz com que ela cresce mais lenta e a videira armazene mais compostos importantes para a formação da uva”, explica o coordenador do Neuvin (Núcleo de Estudo da Uva e do Vinho) da UFSC, Aparecido Lima da Silva.

Uma parceria que já dura quatro anos entre a UFSC, a Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), a Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) e o Istituto Agrario di San Michele all'Adige, da Itália, tem monitorado a produção de vinho em diferentes regiões do Estado.

No projeto, quatro bases foram montadas: São Joaquim, Campos Novos, Tangará e Água Doce, na propriedade da família Grando. Nesses locais, explica o professor, funcionam unidades meteorológicos onde são registradas as características da região desde o plantio até a produção da bebida em si. “A nossa finalidade é determinar o terroir [vinhedo] catarinense ideal, para que os viticultores e produtores plantem a melhor qualidade e os melhores vinhos com preço competitivo, para que o vinho catarinense tenha futuro no mercado”, completa.

Simultaneamente, os pesquisadores acompanham o cultivo de 36 variedades de uvas italianas. A cada 15 segundos, um sensor registra informações como temperatura, radiação solar e umidade do ambiente. No fim, é feita a média das condições a cada hora, dia, semana e todas as variações de cada estação. Um trabalho minucioso que permite mapear as melhores épocas para plantio, poda e maturação de cada tipo de uva – o resultado de cada detalhe, garante Silva, influencia diretamente no sabor.

Divulgação/ND

  

Pratas da casa da família Grando

 

Merlot 2010, a primeira taça de vinho descartável

Tipo de uva: Merlot

Altitude: 1.300m

Época da colheita: Abril de 2010

Engarrafado: Dezembro de 2014

Número de garrafas: 4.500m

Lote: único

 

Brut Rosé, a garrafa premiada

Tipo da uva: Pinot Noir e Merlot

Altitude: 1.300m

Época da colheita: Março de 2013

Engarrafado: Dezembro de 2013

Número de garrafas: 18.000m

Lote: único

Teor alcoólico: 11,8%

Prêmios:

- Medalha de prata na Safra 2010 – Miami Wine Fair

- Melor Espumante nacional no Top Tem Expovinis

- Medalha de ouro no Concurso de Bruxelas 2013

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