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Sexta-Feira, 21 de Setembro de 2018
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União da comunidade da Mariquinha faz diferença na ajuda aos desabrigados

Cinco casas precisam ser demolidas imediatamente. Moradores voltam para retirar pertences e contam com ajuda de vizinhos

Saraga Schiestl
Florianópolis
Fotos Marco Santiago/ND
Comunidade faz trabalho de formiguinha para ajudar vizinhos a tirarem objetos

Como se estivessem equilibradas em um frágil castelo de cartas, cinco casas do Morro da Mariquinha, área central de Florianópolis, devem demolidas até sexta-feira (16). Localizadas à beira do abismo criado depois do deslizamento da tarde de ontem, elas representam risco eminente de desabar. A tragédia matou a aposentada Claudete Ferreira, 65 anos. No total, 14 casas precisaram ser interditadas e todas correm risco de serem demolidas. Não há registros na história de um Florianópolis sobre um desmoronamento tão sério quanto o de ontem.

O geólogo voluntário da Defesa Civil Estadual, Rodrigo Sato, assegurou que a situação é crítica e que há possibilidade daquela região não ter mais autorização para ser habitada. “Ainda não temos ideia dos valores que podem ser gastos para recuperar uma área como essa”, enfatizou o geólogo.  Durante a manhã, Sato visitou cada uma das casas interditadas no Morro da Mariquinha, acompanhado de engenheiros civis da prefeitura de Florianópolis e do diretor da Defesa Civil municipal, Luiz Carlos Machado. Nas últimas moradias que se mantiveram em pé depois da queda, as rachaduras aumentaram significativamente entre as horas que se passaram desde a tragédia.

“Verificamos que nas proximidades da pedra que ainda está pendurada, há uma rachadura que ultrapassa meio metro de largura”, observou o geólogo. Em uma das casas, enquanto a Defesa Civil realizava os primeiros estudos na estrutura, houve duas movimentações significativas no chão. “Isso quer dizer que a terra ainda está cedendo. Em muitos pontos das casas percebe-se que elas estão ocas por baixo”, alertou Sato.

A rocha que ameaça cair a qualquer momento pode ser ainda mais pesada do que a primeira pedra que deslizou na tarde de ontem, quando quatro casas foram destruídas. “Calculamos que ela pese mais de 200 toneladas. Por sorte, a pedra que já desabou caiu em um ponto estratégico que colabora na contenção do barro”, completou.

 

Geólogos e engenheiros foram observar de perto condição das casas ameaçadas

 

As famílias

Há uma mistura de sentimentos entre os moradores que viram quatro casas serem levadas em segundos pela força do barro e da rocha. Quando a dona de casa Camila Bezerra Salum, 30 anos, olha para casa verde onde morava com a filha, Maria Vitória, 9, e o marido Luiz Fernando Salum, 34, ela só consegue lembrar da poeira que entrou pelas janelas depois que a pedra desmoronou levando todo o quintal.

 

Camila e Luiz Fernando dão adeus à casa verde, condenada pelo técnico

 

A casa de Camila é uma das cinco condenadas a demolição imediata.  “Minha vida toda eu construí aqui. Nunca imaginamos que isso aconteceria, meu pai costumava dizer que uma árvore grande que ficava no quintal nos protegeria de qualquer coisa”, recordou a moradora que sequer consegue enxergar onde está a famosa árvore protetora da família em meio aos escombros deixados pela tragédia.

No total, 40 moradores foram retirados de casa por prevenção. Destes, apenas 12 preferiram ir para o abrigo improvisado na passarela Nego Quirido, no centro de Florianópolis. Camila e a família preferiram a casa de uma irmã, na área continental da Capital. “Nunca é como a casa da gente, mas por enquanto podemos ficar lá. O jeito é reconstruir a vida”, disse, já conformada com a demolição da casa onde vivia.

Recordações

A ruela onde quatro das cinco moradias estão condenadas é o endereço de uma dezena de crianças. Como a época é de preparativos para as festas de fim de ano, em todas as casas enfeites natalinos estavam preparados para a chegada do Papai Noel. Na casa da auxiliar de sala Heloísa Helena Lopes, 41 anos, o pinheiro de Natal está na sala e, misturado a ele, móveis retirados da área que corria mais risco de desabar. “Estava tudo combinado com a minha família, faríamos o primeiro Natal aqui em casa”, lamentou Heloísa, sem saber onde iria passar a noite com os quatro filhos e o marido.

No momento do deslizamento apenas o filho de 20 anos da auxiliar estava em casa. Ele relatou à mãe que estava tomando banho quando sentiu a casa tremer e um forte impacto no ralo do banheiro. “Era como se a terra estivesse chupando tudo que havia”, disse.

Como todos se conhecem na comunidade atingida, a solidariedade imperou durante toda a manhã. Liberados provisoriamente para retirar pertences, moradores faziam um trabalho de formiguinha. De mãos e mãos sacolas cheias de roupas, sapatos e eletrônicos iam sendo transportados.  Quem não podia ajudar a carregar os objetos, oferecia água e café. “Temos que agradecer nossa vida. Estamos aqui e podemos reconstruir”, completou Heloísa.

 

Porteiro José Henrique e a família têm medo, mas não querem sair do morro

 

Histórias de quem não quer ir embora

A casa do porteiro José Henrique Pinto, 52, está interditada desde a tragédia. Apesar disso, ele conta que não quer deixar o lugar em que vive com a mulher Maria Regina, 45, e a filha Graziela de 17 anos. “É tudo o que eu tenho. Só saio daqui quando me garantirem que posso comprar uma casa em um lugar mais seguro”, contou totalmente decidido. Em contraponto, a mulher e a filha temem permanecer dentro de casa, tanto que passaram a noite na casa de parentes. “Dormir ninguém conseguiu, porque em todo momento ficava pensando que alguém ligaria dizendo que o resto do morro desceu”, recordou Maria Regina. Em um colchão jogado no chão, o porteiro diz que também passou a noite insone. “Nunca pensei que um dia sentiria minha casa tremer”, completou José Henrique.  

 

A alegria de voltar para casa

Ao contrário do porteiro, a auxiliar de panificação Maria Figueiredo, 48, não conseguia esconder o sorriso depois de receber a autorização da Defesa Civil para voltar para casa. Na sacola com as poucas roupas que conseguiu retirar de casa antes de sair às pressas, Maria subiu com vontade a ladeira que leva até sua morada. “Depois do susto, essa é uma alegria que não tem tamanho”, comemorou. Apesar da felicidade, a auxiliar de panificação que mora há 10 anos na Mariquinha, lembrou que há alguns meses entrou em contato com a Defesa Civil e a Casan (Companhia de Águas e Saneamento de Santa Catarina) para averiguar rachaduras que estavam aparecendo no Morro. “Ninguém nunca deu bola. Agora a natureza deu a resposta”, denunciou.

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