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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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Uma criança é violentada por dia em Santa Catarina

Somente este ano, em São José, 28 pedófilos condenados já foram capturados pela Polícia Civil

Colombo de Souza
Florianópolis
Marco Santiago/ND
Atividades lúdicas para ajudar a criança a contar a violência sofrida

 

O número de crianças abusadas sexualmente é bem maior do que o total das denúncias investigadas pela Polícia Civil. Somente em São José, a DPCAMI (Delegacia de Polícia da Criança, Adolescente, Mulher e Idoso) está investigando 95 casos. As denúncias são feitas para o Disque 100, ou no balcão da delegacia. A escrivã Selba Eloá Schlichting Parente, 57 anos, que há mais de 30 anos trabalha com crianças vítimas de abuso sexual, afirma que nem todos os casos chegam ao conhecimento da polícia. Ela diz, sem medo de errar, que todos os dias uma criança é violentada.

Noventa e cinco por cento da violência ocorre no seio familiar. “Os ricos nunca vêm à delegacia. As denúncias que recebemos são todas de pessoas humildes”, disse Elba. A única ocorrência envolvendo pessoas com situação financeira bem definida ocorreu há mais de 20 anos em Florianópolis. “Um oficial militar abusava das filhas com o consentimento da mulher. Ele chegou até a construir uma edícula no fundo do quintal onde ele consumia os atos”. Este caso não foi atendido por Selba, mas ganhou repecursão nos meios policiais.

Na última quinta-feira, Selba teve que interromper a entrevista para atender a um caso bastante sério no município. Uma adolescente de 10 anos denunciou o próprio pai. A mãe da menina disse que foi informada pela professora da filha. “Nunca imaginei que meu marido fosse capaz de fazer isso”, contou.  A criança foi com a mãe fazer exame de conjunção carnal no Instituto Geral de Perícia e o resultado deu positivo.  Mãe e filha foram ouvidas, mas o pai não foi localizado. “Ela já é mocinha, menstrua. Tenho receio de ela engravidar”, comentou a mulher.

Entrar no universo familiar

O atendimento, diretamente com as crianças, na delegacia especializada é realizado pelas escrivãs e psicólogas.  Quando a criança tem entre 4 e 5 anos é a psicóloga quem toma a iniciativa de descobrir o que houve.  “A gente procura deixá-la bem à vontade. Tentamos entrar no universo infantil, realizando atividade lúdica com bonequinhos imitando uma família,  conversamos sobre vários assuntos e depois perguntamos o que aconteceu”, disse a psicóloga Rosane Koerich Marcondes, 51.  Segundo ela, a criança pega o bonequinho e mostra as posições sexuais.

Conforme o relato da criança/adolescente a psicóloga elabora um relatório e encaminha para o delegado que vai dar sequência no inquérito policial, ouvindo testemunhas e o próprio acusado. A psicóloga não divulga o nome do acusado, nem da mãe da vítima e evita contar detalhes para não revitimizar quem sofreu a violência sexual.  Com exceção da menina de 10 anos estuprada pelo pai, a psicóloga teve o cuidado de não relatar nesta entrevista ocorrências  recentes. Mas informou que os casos são degradantes.

Rosane contou que estão ocorrendo muitas situações em que autor da violência sexual é chamado pelas crianças de avô emprestado. “Avós de 40, 50 anos, arrumam um namorado nos bailões e trazem para casa. O sujeito passa a morar com ela e depois de algum tempo começa a abusar as crianças. Se a vítima tem até 12 anos, o simples toque nos seios e nas partes íntimas é considerado estupro de vulnerável”, explica. 

Ela conta que já atendeu casos em que a mulher leva um homem para dentro de casa e ele acaba engravidando a filha. “Ocorreu uma situação  em que o avô engravidou a neta. Ele foi preso e no primeiro dia de cárcere se suicidou”.  Conforme Rosane, logo após o ato vem um grande sentimento de culpa e vergonha. Pois ele sabe que seu comportamento é inadequado, violento, ilegal e principalmente imoral.

Caçador de pedófilos

O delegado da DPCAMI de São José, Fabiano Ribeiro da Roca, 33 anos, pode ser considerado um caçador de pedófilo. Somente este ano ele já prendeu 28.  O último foi Márcio Célio Lourenço de Carvalho, 62 anos, condenado a 10 anos de reclusão por estuprar uma garota de 10 anos. O crime ocorreu em 2011  e a condenação saiu no ano seguinte.  Ribeiro revelou que pesquisa no Fórum de São José, mandados de prisão de pedófilos de São José. “Tenho uma lista de 25 suspeitos para prender”.

O crime de violência sexual é repugnante para toda a sociedade, inclusive pela massa carcerária.  Para evitar que pedófilos sejam castigados pelos demais detentos, as unidades prisionais têm um espaço exclusivo para autores de crimes sexuais e de violência doméstica.

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