Publicidade
Segunda-Feira, 19 de Novembro de 2018
Descrição do tempo
  • 24º C
  • 18º C

Um ex-bilionário na praça 15 de Novembro

Projeto cultural do grupo Erro coloca Eike Batista no lugar de onde sumiu busto de Victor Meirelles, no Centro da Capital

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis

Na babel de tipos e sotaques que caracteriza a praça 15 de Novembro, o lado direito de quem vem do aterro, na parte próxima à agência central dos Correios, ganhou movimentação extra na tarde desta sexta-feira. Pessoas atravessavam a rua, ou vinham do calçadão e das vias do lado oposto, para olhar, fotografar e mandar para frente, por meio das redes sociais, a imagem inusitada do empresário Eike Batista, cujo busto foi colocado no lugar onde desde 1929 reinava, sóbrio e absoluto, o pintor Victor Meirelles, catarinense que foi uma das maiores expressões da arte brasileira do século 19.

 

Eduardo Valente/ND
Responsáveis da obra dizem que ela está ali para “preencher o vazio físico”

 

Nem todos, porém, perceberam o absurdo da situação. “Ali tinha a estátua de um padre, e mais adiante a de um fundador de Florianópolis”, chuta o aposentado Vivaldino (ele não quis dar o nome completo), que é de Chapecó mas mora há 20 anos em Biguaçu e vem ao centro da Capital pelo menos duas vezes por mês. “Roubaram o bronze para derreter”, sentencia ele, sem fazer ideia de quem foi Meirelles e de quem é Batista. Vivaldino acompanhou pela televisão a polêmica do sumiço dos bustos do pintor, do poeta Cruz e Sousa, do jornalista Jerônimo Coelho e do historiador José Boiteux, em agosto do ano passado.

Depois de tanto tempo, e sem que ninguém providenciasse a recolocação dos bustos originais, o grupo Erro de teatro – conhecido pelas intervenções urbanas e pela postura crítica desde que foi criado, em 2002 – criou BustoX, parte da exposição “Erro Ex Posto”, que brinca com o “x”, letra remete ao nome das empresas de Eike Batista. Em texto afixado numa palmeira imperial próxima ao pedestal, o coletivo de artistas explica que a iniciativa teve o objetivo de “preencher o vazio físico e simbólico causado por este ato [o sumiço] e lacuna contra a memória e a cultura da história de nossa Capital do Estado”.

Do humor à crítica aberta

As reações dos transeuntes que passam ao lado do canteiro onde está o busto vão do riso à reprovação total. O instrutor de informática Bruno I. Filho considera que a intervenção é “um desrespeito ao patrimônio público” e, portanto, deveria ser removida dali imediatamente. “Se o empresário tivesse deixado um legado para a cidade e as futuras gerações, seria diferente”, destaca ele. Aposentado como ex-funcionário dos Correios, Edson Luiz Esteves prefere criticar outros problemas da praça e de seu entorno, como a ação de vândalos e o descaso com o patrimônio público, e coloca a questão dos bustos roubados como mais um problema da cidade. “É válido ter esculturas na praça, mas o povo vem e quebra tudo”, afirma.

Passando por ali, um funcionário público que também não quer ter seu nome publicado disse que a obra é “uma sátira de fino trato, de ímpar humor britânico”. “Vemos como os recursos do Bndes (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) podem ser aplicados por pessoas com responsabilidade social”, ironizou. Também há os que, sem nada ter lido sobre a brincadeira do grupo Erro, admitem que os traços são parecidos com os do empresário Eike Batista e nem se detêm, seguindo em frente. E não falta quem veja nessa manifestação de arte “um grão de areia na grande insatisfação geral no país”.

Em fase de acabamento

O projeto “Erro Ex Posto” foi um dos vencedores do Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura 2013, da Fundação Catarinense de Cultura, levando R$ 6 mil. A proponente, a atriz Luana Raiter, informa que “a exposição tem como objetivo repensar os 12 anos de grupo, a fim de reinventar essa história em um processo de desapego e exposição”. Na questão da praça, a intenção do grupo Erro, mais do que expor o ex-bilionário mineiro, é protestar contra o roubo dos bustos e a demora da prefeitura da Capital em recolocar as obras nos pedestais. A polícia nunca conseguiu localizar os responsáveis pelo crime.

A tendência é que o busto de Eike Batista fique na praça 15 de Novembro até que os novos sejam concluídos e ocupem os seus lugares. Na prefeitura, também considera-se que a intervenção do Erro tem caráter artístico e, como tal, não deve ser retirada dali. A informação oficial é de que os novos bustos, feitos por um artista de São José, já se encontram em São Paulo para finalização.

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade