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Três municípios catarinenses se preparam para acolher 270 imigrantes venezuelanos

Depois de igreja evangélica de Balneário Camboriú, que recebeu 230 imigrantes em outubro, instituição ligada à igreja católica e governo do Estado também oferecem ajuda humanitária

Schirlei Alves
Florianópolis
13/11/2018 às 18H45

Desde abril, quando o governo federal pediu ajuda humanitária a Santa Catarina para interiorizar imigrantes venezuelanos acolhidos de forma precária em abrigos na fronteira entre os países, principalmente em Boa Vista (RR), o governo do Estado tenta viabilizar alternativas. A primeira tentativa foi com as prefeituras, cujo objetivo era conseguir vagas em abrigos que seriam financiadas pelo projeto de interiorização por, pelo menos, seis meses. 

Passados seis meses das tentativas de negociação sem sucesso com os municípios, em outubro, uma igreja evangélica de Balneário Camboriú, a Embaixada do Reino de Deus, anunciou que acolheria 230 imigrantes e os acolheria em casas alugadas com ajuda dos fiéis. Os venezuelanos foram recebidos com jantar de boas-vindas e doações de alimentos e produtos de higiene. 

Chegada dos imigrantes no aeroporto de Curitiba - Reprodução/RICTV
Chegada dos imigrantes no aeroporto de Curitiba, em outubro - Reprodução/RICTV

Após a primeira mobilização para ajudar os vizinhos venezuelanos, as oportunidades começaram a surgir em Santa Catarina. Dois projetos, um do governo do Estado e outro da Cáritas - instituição social ligada à igreja Católica -, estão sendo articulados para receber cerca de 270 imigrantes nos próximos seis meses em pelo menos três municípios catarinenses.

A Secretaria de Estado de Assistência Social Trabalho e Habitação providenciou a reforma de duas casas com três quartos no complexo estadual Dom Jaime Câmara, em Palhoça, onde serão acolhidos os primeiros 16 casais venezuelanos sem filhos. O recurso de R$ 52 mil foi disponibilizado pelo Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados). Os casais chegam nesta quarta-feira (14), às 18h, no Aeroporto Hercílio Luz. O grupo será transportado por um avião da Força Aérea Brasileira. Um ônibus do Exército vai providenciar o deslocamento do aeroporto até o complexo, em Palhoça.  

A ideia é que o grupo seja acolhido por seis meses nas casas do complexo até que consigam iniciar uma nova vida por conta própria. No próximo dia 20 de novembro, outros 28 imigrantes chegam nas mesmas condições para ocupar a segunda casa dentro do Dom Jaime - a secretaria ainda não especificou quantos são adultos e crianças.

A ONG DU Projetos da Grande Florianópolis também ajudou com logística e doações de alimentos. O governo federal, por sua vez, fará o repasse de R$ 2,4 mil adiantados para manutenção de cada um dos imigrantes durante seis meses. 

O Sine (Sistema Nacional de Emprego) também foi mobilizado para articular junto às empresas possíveis vagas de emprego aos imigrantes que, na sua maioria, possui boa escolaridade. Em reunião que ocorreu em 9 de outubro entre a Fiesc (Federação das Indústrias de Santa Catarina) e a subchefe adjunta de Políticas Sociais da Casa Civil, Maria do Socorro Fernandes Tabosa Mota, foi sinalizada a possibilidade de empresários catarinenses avaliarem os currículos dos venezuelanos e contribuir para a inclusão deles no mercado de trabalho. 

Segundo a subchefe, ao menos 39% dos 95 mil imigrantes abrigados em Roraima têm ensino médio completo. Outros 11% contam com formação superior e 1% com pós-graduação. Antes de chegarem a Santa Catarina, os imigrantes passaram por avaliação de saúde, atualizaram carteira de vacinação e tiveram seus documentos regularizados. 

Cáritas recebe 210 imigrantes a partir de dezembro

O projeto Pana, que significa amigo em espanhol, desenvolvido pela Cáritas da Suíça em parceria com a mesma instituição brasileira - ONG ligada à igreja Católica - se prepara para receber cerca de 210 imigrantes a partir de dezembro. Os primeiros 105 chegam em dezembro e outros 105 após seis meses. A instituição que atua especificamente com imigrantes e refugiados está viabilizando o aluguel de 15 casas ou apartamentos em São José, na Grande Florianópolis, e outras três em Tubarão, no Sul do Estado. 

Venezuelanos saem de Pacaraima em busca de abrigo em Boa Vista - Marcelo Camargo/Agência Brasil
Venezuelanos saem de Pacaraima em busca de abrigo em Boa Vista - Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo

De acordo com a socióloga e educadora social do projeto em Santa Catarina, Camila de Souza Betoni, o objetivo é proporcionar integração, acolhimento e abrigamento dessas pessoas. O mesmo trabalho está sendo feito pela instituição em Boa Vista (RR), Porto Velho (RO), Curitiba (PR), Sao Paulo (SP), Recife (PE) e Brasília (DF). Em cada uma dessas regiões há uma equipe com educador social, psicólogo, assistente social, assistente administrativo e representante institucional. 

A socióloga destaca que os imigrantes não vieram ao Brasil a passeio e sim porque estão sofrendo com a crise econômica do país de origem e precisam de ajuda humanitária emergencial. 

"Na triagem feita em Roraima a gente explica como é a economica e a cultura de cada uma das regiões onde há possibilidade de acolhimento e eles escolhem. Muitos não querem sair de lá, pois estão perto de casa e querem retornar à Venezuela. Eles não estão aqui porque querem, mas porque foram forçados pelas condições do país deles", ressaltou. 

Os 105 primeiros imigrantes que chegam em dezembro serão abrigados nas casas alugadas por até seis meses - período em que receberão orientação sobre os direitos dos quais possuem como educação, assistência social e saúde. A instituição também pretende intermediar possibilidades de trabalho e oferecer assistência jurídica. O Crai (Centro de Referência de Atendimento ao Imigrante), inaugurado em fevereiro em Florianópolis, também deve prestar assistência para questões documentais.  

Findado o período do primeiro grupo, as casas alugadas devem ser disponibilizadas ao segundo grupo de 105 imigrantes. As casas estão sendo alugadas para que os venezuelanos saiam de abrigos coletivos improvisados e tenham a oportunidade de recriar um ambiente familiar. 

"Os apartamentos não serão disponibilizados para sempre, a ideia é que as pessoas venham e tenham certa autonomia para poder ter sua propria casa. O nosso trabalho tem esse processo de acolhimento para que eles consigam ter acesso aos direitos", destacou Camila. 

Os recursos foram viabilizados pela própria instituição e obteve apoio da Embaixada dos Estados Unidos. Ao menos 60% dos imigrantes acolhidos pelo projeto são formados por mulheres e meninas, uma vez que essa população é a mais vulnerável e possui maior dificuldade para inserção no mercado de trabalho por conta da desigualdade de gênero. 

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