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Traumas do holocausto: Judia romena que mora em São José conta como sobreviveu a Auschwitz

Ela inspirou o livro “A tenda branca”, do jornalista e advogado Salus Loch, lançado este ano pela editora Spectrum

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
24/12/2017 às 15H44

Conversar com Gabriela Schwartz Heilbraun, sobrevivente do campo de extermínio de Auschwitz- Birkenau, prometia ser uma sessão tensa, entrecortada, pontuada por uma série de rememorações dramáticas e dolorosas. Foi isso, mas foi também o contato com uma mulher forte, de personalidade marcante, que se reinventou muitas
vezes, fazendo das perdas e adversidades o trampolim para uma vida plena, na medida do possível.

Morando desde 2015 num bairro de São José, na Grande Florianópolis, essa judia romena de 89 anos inspirou o livro “A tenda branca”, do jornalista e advogado Salus Loch, lançado este ano pela editora Spectrum, de Porto Alegre. Durante oito meses, a partir de maio de 1944, ela testemunhou os horrores da guerra, e ainda hoje se pergunta: “Como puderam fazer tanta maldade?”

Na adolescência Gabriela Schwartz Heilbraun foi transportada de trem com a família para o campo de concentração nazista de Auschwitz - Marco Santiago/ND
Gabriela Schwartz Heilbraun foi transportada de trem com a família para o campo de concentração nazista - Marco Santiago/ND


Gitta, como é chamada, nasceu na cidade de Satu Mare, na fronteira com a Hungria, e ainda adolescente foi transportada de trem com a família para o campo de concentração nazista de Auschwitz, onde 1,3 milhão de pessoas foram assassinadas. Lá, perdeu o pai, a mãe, um irmão de 17 anos e uma irmã pequena que morreu nos braços maternos numa câmara de gás. Ela se salvou porque era jovem e bonita e foi recrutada para trabalhar na limpeza de banheiros e em outros serviços braçais.

Sua sorte é que a 2ª Guerra Mundial estava se encaminhando para o final, com a derrocada do exército de Adolf Hitler e a chegada das tropas russas, que resgataram os sobreviventes do inferno no sul da Polônia ou que vagavam sem esperanças pelos países vizinhos.

A trajetória de Gitta daria mais de um livro, quem sabe um filme, porque o fim da guerra marcou  o começo de outro rosário de atribulações. Até ali, ela fizera trabalhos forçados e perdera de vista os familiares como milhares de pessoas que eram separadas de maneira truculenta por soldados que apontavam, quase sempre de forma
aleatória, quem seria morto no mesmo dia e quem teria uma segunda chance. “Olhavam a boca e os dentes dos judeus, como se faz com os cavalos, para ver quem servia para trabalhar”, conta Gitta sobre a seleção de quem não iria para os “banhos”, ou seja, as câmaras de gás.

Após a libertação dos prisioneiros a história de Gitta Heilbraun ganhou outros contornos de dramaticidade, bem perto ou muito longe da terra natal. Isso incluiu trabalhos braçais na Alemanha, a “marcha da morte” dos judeus libertados de Auschwitz, assédios sem conta, um casamento arranjado, um “quase” desastre aéreo, uma passagem bem-sucedida pelo Peru e a vinda para o Brasil ao lado de um italiano que foi perseguido por supostas ligações com a Máfia. Pensando bem, talvez um filme
não desse conta de uma trajetória tão rica...

Quem sobrevive deve enterrar os corpos

As “marchas da morte” foram grandes caminhadas que os sobreviventes se viram obrigados a fazer porque os alemães, pressentindo a derrota iminente, esvaziaram os campos de concentração para não serem julgados por genocídio.

No caso de Gitta Heilbraun, foram meses de deslocamento até a antiga Tchecoeslováquia, andando 30 quilômetros por dia, com neve até os joelhos, fome, fraqueza, doenças e mortes sem fim. “As pessoas dormiam em celeiros, porque tínhamos os tchecos como aliados”, conta. “Um dia, ao abrirmos as portas, vimos os soldados russos que vieram nos libertar. A guerra acabou assim”.

Sem saber o que ocorria, milhões de judeus foram mandados para a morte - Divulgação/ND
Sem saber o que ocorria, milhões de judeus foram mandados para a morte - Divulgação/ND


Gitta não chegou a ser tatuada como milhões de judeus que perderam a vida nos campos de extermínio. No seu caso, as marcas ficaram na memória, remetendo à tortura sicológica, à perda dos pais e irmãos, à fuga de homens de diferentes caras e nacionalidades que a viam como presa fácil nos trens e no escuro das estações, sem falar nos bêbados que a assediavam, fingindo que ofereciam ajuda, em países que mal conhecia.

Também há os despojos humanos que recolheu e enterrou em Gelsenkirchen, na Alemanha, porque muitos judeus foram vendidos para trabalhar em empresas no pós-guerra. O seu lote ajudou na reconstrução de uma fábrica, em fila indiana, passando tijolos de mão em mão, ferindo as mãos e braços. Quando a empresa foi bombardeada, ela, salva, sepultou corpos em valas comuns. Depois, trabalhou numa fábrica de munições em Sömmerda, fase que precedeu sua participação na “marcha da morte”.

Depois que a guerra acabou, a Europa oriental caiu nas mãos do comunismo. Quando, após muitas dificuldades e o reencontro com uma tia e duas primas que também se salvaram, voltou para a Romênia, Gitta percebeu que bens da família haviam sido tomados pelo governo e vendidos sob a alegação de abandono. Já as empresas (seu pai e um irmão eram donos de fábricas de velas, telhas e aquecedores) tinham sido bombardeadas e destruídas. “Fizeram escrituras novas e uma tia não gostou
de me ver viva, porque queria ficar com a nossa casa”, relata. As joias da mãe Rozalia, que ela procurou reaver, também haviam desaparecido.

Gitta com a mãe Rozalia, que morreu com a família em Auschwitz - Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Gitta com a mãe Rozalia, que morreu com a família em Auschwitz - Arquivo pessoal/Divulgação/ND



Uma vida mais confortável na América do Sul

Jackie Schwartz, única filha de Gitta Heilbraun, é para quem a sobrevivente do holocausto contou toda a história de vida na Europa conflagrada. Ela visitou a Romênia e
os cartórios de Satu Mare e faz relatos precisos do que a mãe passou durante e após a guerra. Também pesquisou sobre as posses da família e descobriu que não apenas
no Leste europeu, mas no Peru, de onde saiu em 1971, a boa fé de Gitta foi usada em benefício próprio por parentes e conhecidos.

Em Satu Mare, um tio que era sócio de seu pai assumiu unilateralmente os negócios e não via com bons olhos o retorno da sobrinha que sobrevivera ao genocídio alemão. Num vídeo recente, ela disse: “Não quero pensar sobre aquele tempo”. À noite, a televisão ligada ajuda a esquecer, a “não pensar”.

Jackie ouviu os relatos da mãe durante e após a guerra - Marco Santiago/ND
Jackie ouviu os relatos da mãe durante e após a guerra - Marco Santiago/ND


Finda a guerra, Gitta precisou correr de soldados russos, dormir na rua e se esquivar do assédio de militares no trem no retorno à Romênia. Ela acabou se casando com um homem mais velho (ela tinha 16, ele 30 anos) e passou um tempo na Áustria (de lá, os documentos trazem o nome de Magdalena Gitta Wein), onde fez cursos de costura que acabaram sendo úteis no Peru, anos mais tarde. A tentativa de ir para os Estados Unidos não deu certo, e o casal acabou tomando um avião na Itália com destino à América do Sul. Uma pane desviou o voo para Cabo Verde, na costa africana. Dali, num navio cargueiro, eles foram para o Panamá e depois para Lima, onde tinham parentes.

“Achei que ali só havia índios e macacos, mas descobri uma cidade maravilhosa”, conta Gitta, que desembarcou em Lima no início dos anos 1950. Com outro casal, eles criaram um império que começou com a confecção e venda de roupas e incluiu até a importação de veículos. “Foram do zero ao topo”, afirma a filha Jackie, ressaltando que a empresa – hoje uma multinacional – ainda existe por lá.

Após passar seis meses em Israel com a filha, então com cinco anos, Gitta deixou o marido e veio para o Brasil com um italiano. Jackie diz que sempre chamou o padrasto de pai, mas em São Paulo os contratempos foram outros, porque ele e os irmãos eram acusados de pertencer à Máfia siciliana. “Quando se casou com ele, minha mãe não sabia dessa ligação”, garante a filha. Jackie define Gitta como uma mulher “orgulhosa, conservadora e muito religiosa”.

A coragem e o poder de perdoar

No livro “A tenda branca”, Salus Loch conta a história de Gitta Heilbraun, cujo nome alterou para Magdalena Guitta, inspirado na “sua luta, coragem e realizações”.
Aos testemunhos o autor acrescentou elementos de ficção que preenchem algumas lacunas e trocou a identidade de 90% dos personagens, porque a protagonista ainda
tem parentes em diversos países.

O jornalista já publicou matérias sobre o holocausto nas revistas “National Geographic” e “Superinteressante”, e uma das netas de dona Gitta, também chamada Gabriela, achou que a história da avó merecia um livro e fez contato com ele. Afinal, apesar de jovem (37 anos), Loch conhece 34 países e já havia entrevistado outros sobreviventes de Auschwitz.

Gitta com os pais e o irmão na Romênia, alguns anos antes da guerra - Arquivo pessoal/Divulgação/ND
Gitta com os pais e o irmão na Romênia, alguns anos antes da guerra - Arquivo pessoal/Divulgação/ND


Foram seis ou sete conversas, nas quais Salus percebeu que a trajetória  de Gitta daria mais que uma  reportagem. “Remoer o passado a faz voltar a um tempo de  estruição e de perdas irreparáveis”, diz ele ao falar sobre a dor que sentiu na voz de sua entrevistada. Ele diz que chamou sua atenção “a coragem aliada à capacidade de perdoar e seguir em frente sem perder a ternura”. O jornalista passou ao largo da questão da Máfia e não foi a fundo nos primeiros anos de Gitta na Romênia, porque não desejava fazer uma biografia, mas utilizar a história para construir uma personagem “única, genial”.

Salus Loch já entrevistou três sobreviventes de Auschwitz – os outros dois moram na Polônia e em Israel. Mas foi com Gitta que mais se identificou. “Ela me permitiu ir
além e entender melhor a tragédia e seu alcance”, afirma. Loch tirou dessa experiência o material para seu romance, mas também lições que procura transmitir no livro.

“A humanidade precisa conhecer o passado, a fim de evitar que barbáries como o holocausto se repitam, patrocinadas por forças de Estado opressoras”, afirma. “Devemos falar de respeito, empatia, tolerância. A história de Gitta traz esse debate à tona. No fundo, o recado que ela passa é de que a busca pela felicidadee o amor ao
próximo precisam imperar”.

"A tenda branca", da Salus Loch, foi lançado este ano - Divulgação/ND

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