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“Teremos muitas dificuldades para cumprir as contas”, diz governador após greve

Impacto nas contas do Estado será sentido pelo menos até agosto, de acordo com Eduardo Pinho Moreira

Felipe Alves
Florianópolis
31/05/2018 às 14H55

Em paralelo à retomada da normalidade em diversos setores de Santa Catarina desde quarta-feira após a greve dos caminhoneiros, o Governo do Estado tenta agora dimensionar os impactos econômicos dos dias de paralisação. De acordo com o governador Eduardo Pinho Moreira (PMDB), o impacto diário negativo na arrecadação deverá ser sentido nos meses de junho, julho e agosto. Além dos cortes já anunciados nos últimos meses, o enxugamento da máquina pública será intensificado para tentar recuperar os efeitos da greve. Uma reunião nesta sexta-feira (1º) vai reunir o governo e as principais entidades do setor produtivo catarinense para fazer uma radiografia completa das perdas com a greve e encaminhar ações em conjunto para retomar a economia estadual.

“O impacto é evidente. Teremos muitas dificuldades a partir de junho para cumprir as contas. Faremos ajustes, cortes e racionalização maior ainda. Vamos começar uma campanha que estamos preparando para estimular o consumo de produtos catarinenses para que nós catarinenses possamos consumir mais os nossos produtos. É um momento preocupante, teremos bastante dificuldades”, afirmou ele em coletiva de imprensa na manhã desta quinta-feira (31). O impacto total nas contas públicas ainda está sendo avaliado pelo Governo. De acordo com o governador, é possível que seja dado auxílio com crédito para estimular a produção em Santa Catarina.

De acordo com o secretário de Estado da Agricultura, Airton Spies, a Ceasa (Central de Abastecimento do Estado de Santa Catarina) já oferta todos os produtos necessários ao abastecimento da população. O impacto no agronegócio foi “dramático, muito grande”, segundo o secretário. “Desde o início o nosso grande objetivo era passar pela crise sem riscos à sanidade e preservar minimamente o bem-estar animal. Essa estratégia teve importante participação do setor produtivo e não tivemos mortandades por inanição. Chegamos hoje (quinta-feira) à normalidade em termos de abastecimento de ração aos animais e ontem (quarta) reiniciaram os abates”, diz ele.

De acordo com o Governo do Estado, o abastecimento de combustíveis para a população deverá estar normalizado até o fim de semana. Da distribuidora da Petrobras, em Antônio Carlos, saíram 1,2 milhão de litros de gasolina que garantiram a distribuição nos municípios da Grande Florianópolis.

Coletiva de imprensa após a greve dos caminhoneiros - Felipe Alves/ND
Coletiva de imprensa após a greve dos caminhoneiros - Felipe Alves/ND

Preços de alimentos devem ser mais altos nos próximos dias

O consumidor deve sentir no bolso nos próximos dias o impacto da greve, mas o secretáriode Estado da Agricultura, Airton Spies, avalia que com a retomada do transporte nas estradas, a normalidade de preços deve ser regularizada a curto prazo. Um dos setores mais afetados pela greve, o agronegócio teve perdas significativas com produtos perecívies e com a alimentação dos animais nos campos.  “Não prevemos impacto significativo duradouro sobre os preços dos alimentos e preços pagos aos produtores”, diz ele.

Um dos setores mais impactados foi o de produção de leite. Santa Catarina produz 9 milhões de litros de leite por dia e, durante a greve, 6,5 milhões de litros diários tiveram que ser desperdiçados. “Isso não representou uma ameaça à sanidade, mas houve um prejuízo econômico muito grande. São 48 mil produtores de Santa Catarina que entregam leite”, afirma.

O setor de hortifrutigranjeiro também teve perdas significativas. A consequência será o aumento dos preços nos próximos dias. “As perdas são das cadeias produtivas como um todo. As respostas mais rápidas são dos hortifrutigranjeiros. Com a volta do transporte, a normalidade dos preços deve acontecer”, diz Spies.

As maiores empresas do setor retomaram as atividades desde terça-feria. Até a manhã de quinta, todas as plantas da Aurora estavam funcionando, com exceção do Rio Grande do Sul. A Seara operava com todas as unidades na quinta e a BRF iniciou na terça em Videira e estava expandindo a normalização gradativamente.  O abate de animais, retardado por oito dias no Estado, voltou a ser feito na quarta-feira. Por dia, o Estado abate 40 mil suínos e 3,2 milhões de aves. A maior preocupação foi com relação à alimentação dos 7 milhões de suínos e as 206 milhões de aves, que tiveram  comida reduzida neste dias para sobreviver.

Treze pessoas foram presas durante a greve em Santa Catarina

Vinte e três pessoas foram conduzidas pela polícia e 13 foram presas em Santa Catarina por conta da greve, em Caçador e Imbituba. De acordo com a Polícia Civil, nenhuma era caminhoneiro. Entre os crimes, estão desacato, incitação ao crime e constrangimento ilegal. De acordo com o delegado geral da Polícia Civil, Marcos Flávio Ghizoni Júnior, desde o início da greve havia policiais a paisana para identificar os líderes do movimento e constatar os crimes.

Segundo ele, não há um líder que comande todo o movimento no Estado, mas lideranças espalhadas pelas cidades. Uma sequência de inquéritos policiais foram instaurados e as pessoas serão responsabilizadas pelos seus atos, de acordo com Ghizoni. Sobre possibilida de locaute em Santa Catarina, ou seja, envolvimento de empresários liderando o movimento, o delegado afirma que não é possível relevar detalhes neste momento. Em casos isolados, como o do apedrejamento de um veículo particular em Imbituba, o autor poderá responder por tentativa de homicídio a uma criança que estava no carro.

De acordo com o comandante a Polícia Militar de Santa Catarina, coronel Araújo Gomes, a polícia continua mobilizada nos próximos dias. “Entramos numa terceira etapa da nossa operação. Na primeira, minimizamos os efeitos da manifestação. Depois, após diretriz do governo, nós intervimos para acabar com o movimento e agora passamos a monitorar a volta da normalidade, intensificando presença no perímetro urbano”, diz ele. A PM atuará agora para ajudar a controlar os preços abusivos, as filas, e a corrida a alguns locais de suprimentos.

Governo vai agir com “impaciência” sobre movimentos políticos

Na manhã de quinta-feira, o governador fez uma avaliação das operações realizadas durante a semana para dar fim ao movimento no Estado. Para Pinho Moreira, houve pressões de todos os lados e houve “equilíbrio para tomar as decisões nas horas certas”.

Até o domingo, quando houve uma grande manifestação com apoio da população em Palhoça e em outras cidades, o governo atuou com “paciência”, segundo Moreira. “Na segunda esperávamos que o movimento refluísse, mas ele ganhou força, talvez pela presença maciça da população no domingo. Na segunda, a ideia era clara de que (o movimento) perdeu o caráter reivindicatório e passou a ser um movimento político, de posições extremistas. De forma organizada, nós agimos de forma a fazer valer a autoridade do Estado”, afirmou o governador.

Apesar de não haver mais bloqueios em estradas de Santa Catarina, ainda há pontos de manifestações em estradas estaduais e federais. De acordo com Pinho Moreira, agora a atuação do Estado será com “impaciência”. “Entendemos a política equivocada de preços da Petrobras. Concordamos com o movimento reivindicatório. No momento em que percebeu-se essa virada de que não era mais greve reivindicatória, foi dada a decisão de reação a esses movimentos”, disse.

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