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Terapia caseira antiautismo à base de dióxido de cloro traz riscos

Usada por via oral e retal, solução lesiona intestino e geralmente não é reportada pelos pais; Dia Mundial de Conscientização sobre o transtorno é celebrado nesta segunda

Folha de São Paulo
São Paulo (SP)
02/04/2018 às 18H50

GABRIEL ALVES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma molécula capaz de fulminar bactérias e que possui elevado poder alvejante - utilizada industrialmente para branquear madeira - tem ganhado fãs entre familiares de pessoas com autismo. Mas não por suas comprovadas capacidades, e, sim, por uma suposta característica de combater os sintomas do transtorno. Nesta segunda-feira, 2 de abril, é celebrado o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo.

Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo é celebrado em 2 de abril - Unicef/ONU/Divulgação/ND
Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo é celebrado em 2 de abril - Unicef/ONU/Divulgação/ND


Conhecido em fóruns, redes sociais e em vídeos na internet como MMS (sigla em inglês para "solução mineral milagrosa"), o dióxido de cloro (ClO2) foi alçado à categoria de panaceia em 2006 por Jim Humble, que afirma ser um alienígena da galáxia de Andrômeda e que fundou a Genesis 2 - Igreja de Saúde e Cura (em tradução livre). Segundo seu site, Humble teria aprendido sobre os supostos poderes curativos do dióxido de cloro em 1996, durante viagem à América do Sul, onde buscava ouro.

Uma apresentação da substância (na forma de solução) é considerada um dos pilares sagrados de sua igreja - usada para tratar, além do autismo, resfriado, câncer, malária, HIV/Aids, alzheimer etc. Alguns dos problemas causados pelo contato excessivo e/ou crônico com dióxido de cloro são irritação e lesão de mucosas, desidratação, náuseas, enjoos e prostração. Entusiastas afirmam que esses sinais de intoxicação, são, na verdade, indícios de que o tratamento está funcionando.

É possível adquirir pela internet kits para fabricar a solução de ClO2 em casa.

O estudante Lucas (nome fictício) conta que os pais tratam seu irmão, que sofre de uma forma severa de autismo, com solução de ClO2 desde o último mês de dezembro. Ele diz que o tratamento é baseado nas fases da Lua e que o irmão está ficando muito magro. O protocolo deve se estender por meses.

O número de casos que deram errado tem crescido. Essa é a percepção da advogada Adriana Monteiro da Silva, que coordena a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Autista da OAB-DF e que tem coletado depoimentos. "Algumas pessoas perdem parte do intestino, há corrosão de órgãos internos e até óbitos, os quais não podemos relacionar diretamente ao tratamento. É uma alternativa que envolve desespero", diz. Em hospitalizações decorrentes das aplicações, dificilmente a família relata aos médicos o uso do dióxido de cloro, afirma a advogada.

Outros personagens, além de Jim Humble, fizeram a fama do dióxido de cloro, como a americana Kerri Rivera e o alemão Andreas Kalcker. Rivera, que, segundo a TV americana NBC, tem um filho autista e que foi morar no México após problemas legais nos EUA, escreveu um livro sobre o tema, que está disponível em diversos idiomas. Em seu site, diz não assumir qualquer responsabilidade pelas informações divulgadas e que os pais são os únicos responsáveis pela saúde dos filhos. Ela cobra US$ 120 por uma consulta via telefone.

No entanto, ela estimula o uso da MMS por via oral e anal, além de dietas restritivas e outras fórmulas caseiras, para tratar sintomas de autismo. Ela afirma ter dezenas de resultados favoráveis -nenhum na forma de artigo científico, porém.

Uma das evidências de que a droga estaria funcionando são os fragmentos de mucosa intestinal expelidos após os sucessivos enemas (injeção de líquido pela via retal). Os defensores da MMS afirmam que esses pedaços de intestino são vermes ainda desconhecidos (ou ocultados) pela medicina causadores dos sintomas do autismo.

Em 2015, quando Kalcker veio ao Brasil para uma palestra sobre o tema, uma das vozes em protesto era a de Amanda Paschoal, 26. Ela, que é autista, recrutou o namorado para tentar alertar o público sobre o perigo da MMS. "Eu sempre achei um absurdo alguém acreditar nessa história de água sanitária [como tratamento]. Mas até então era algo distante. Quando descobri que Kalcker viria para o Brasil divulgar esse tratamento, fiquei brava."

"As pessoas atacam a indústria farmacêutica, dizem que preferem dar aquilo [MMS], 'em vez desses medicamentos aí' - como se fossem somente essas as opções. Eu explico que eu também sou autista, mas já me disseram que autistas leves não existem.

"Algumas pessoas exploram a vulnerabilidade dos pacientes e de suas famílias", diz o professor de psiquiatria da criança da USP Guilherme Polanczyk. Segundo ele, há um paralelo entre o caso do ClO2 e o da fosfoetanolamina, a "pílula do câncer" - ambas as moléculas ganharam adeptos mesmo sem apresentar evidências científicas de que tratam doenças.

Mesmo se fosse algo inócuo, ainda haveria problemas, diz a psiquiatra Rosa Horita. "Esses tratamentos drenam recursos das famílias que poderiam ser direcionados para aqueles com eficácia comprovada". Outro aspecto, mascarado pelo viés de observação, é o desenvolvimento da criança autista, algo que independe de qualquer tratamento - e que é acelerado com as terapias corretas.

Dificilmente haverá uma terapia que para todos os casos, diz o professor da Universidade da Califórnia em San Diego Alysson Muotri. "Existem vários quadros que se encaixam no que chamamos de autismo. O futuro está pendendo para uma estratificação genética ligada a essa heterogeneidade. Os estudos clínicos para novas drogas já estão buscando autistas com mutações genéticas específicas."

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