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Temer fala em usar senhas para entrada de venezuelanos

Declaração inicial gerou mal-estar no governo, pois a criação de cotas de entrada se opõe à política de acolhida do Brasil e poderia gerar questionamentos na Justiça

Folha de São Paulo
Brasília (DF)
29/08/2018 às 22H32

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Michel Temer afirmou nesta quarta-feira (29) que o governo pode limitar a entrada de venezuelanos no Brasil por meio do uso de senhas. Em entrevista à Radio Jornal, do Recife, o presidente admitiu ter discutido em reunião na terça-feira (28) um mecanismo para reduzir o número de migrantes que cruzam a fronteira diariamente, atualmente na casa das centenas.

Imigrantes venezuelanos no Norte do País - Marcelo Camargo/Agência Brasil
Imigrantes venezuelanos no Norte do País - Marcelo Camargo/Agência Brasil

"Eles pensam em, quem sabe, colocar senhas de maneira que entrem 100, 150, 200 por dia e cada dia entre um pouco mais para organizar essas entradas", afirmou Temer.

No entanto, horas depois, depois da repercussão da declaração, o Planalto afirmou em nota que as senhas serviriam para o atendimento aos imigrantes, e não para controlar sua entrada no Brasil.

"O governo federal esclarece que a 'possibilidade de distribuição de senhas' a que o presidente da República, Michel Temer, referiu-se na entrevista à Rádio Jornal de Pernambuco, nesta quarta-feira (29), visa a aprimorar um processo de atendimento humanitário em Roraima, o que não pode ser confundido, em hipótese alguma, com fechamento à entrada de venezuelanos no Brasil", afirma a nota, que não fornece detalhes.

A declaração inicial gerou mal-estar no governo, pois a criação de cotas de entrada se opõe à política de acolhida do Brasil e poderia gerar questionamentos na Justiça. O presidente afirmou que hoje ingressam em território brasileiro entre 700 e 800 venezuelanos diariamente e que isso estaria criando problemas para a vacinação.

Temer classificou como "inadmissível" a situação da Venezuela e disse estar em contato com presidentes de opaíses como Colômbia, Peru e Equador, que também têm recebido refugiados.

"Há tempos propusemos ajuda humanitária com alimentos e remédios e o governo recusou. O governo recusa lá e os venezuelanos vem para cá. O ideal para nós é que eles recebessem nossa ajuda humanitária e pudessem permanecer [em seu país]", afirmou Temer à rádio.

O presidente ressaltou, contudo, que a política do Brasil é de acolhimento dos refugiados, o que significa que a fronteira não deve ser fechada, como solicita a governadora Suely Campos (PP).

Temer autorizou nesta terça-feira (28) a atuação das Forças Armadas em Roraima, que enfrenta uma crise migratória com o fluxo de venezuelanos que fogem da crise no país de Nicolás Maduro.

A partir desta quarta, militares podem atuar nas faixas de fronteira norte e leste e também nas rodovias federais. O decreto, a princípio, terá validade de duas semanas, até o dia 12 de setembro.

Desde 2015, mais de 120 mil migrantes cruzaram a fronteira com o Brasil para fugir das dificuldades enfrentadas na Venezuela, onde falta comida e remédios e a inflação deve bater em 1.000.000% neste ano, segundo o FMI.

O governo afirma que, apesar do número elevado de venezuelanos, alguns já deixaram o território nacional e foram para outros países. Permanece no Brasil cerca de metade dos que chegaram, a maioria deles ainda em Roraima, dado o atraso da política de interiorização proposta pelo governo.

Diante do volume de recém-chegados a um estado de 520 mil pessoas, a governadora de Roraima reclama de falta de recursos para atender a demanda em segurança pública, saúde e educação.

O estado também enfrenta aumento nos casos de xenofobia, com confrontos e perseguição dos venezuelanos por brasileiros.

Segundo a ONU, a crise venezuelana já se aproxima, em termos de emergência, do êxodo de africanos e povos do Oriente Médio pelo mar mediterrâneo.

Cerca de 2,3 milhões de pessoas deixaram o país -- ou 7,5% da população--, sendo que dois terços desse contingente o fizeram após 2015.

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