Publicidade
Quarta-Feira, 26 de Setembro de 2018
Descrição do tempo
  • 25º C
  • 19º C

Talento de artista para combater o crime

Ferramenta da investigação policial, retrato falado é produzido com software e com técnica quase extinta

Gabriela Rovai
Florianópolis

Alexandro Albornoz/NDonline


Policial, Cassius Clay usa sua arte para ajudar a desvendar crimes

Tradicional ferramenta na investigação policial, o retrato falado é usado para identificar ou descartar autores de crimes, principalmente os de roubo, homicídio e os sexuais.

Com base nas características repassadas pela vítima ou testemunha, o policial desenha os traços do criminoso que procura identificar.

Do kit americano com acetato - em que um papel vegetal era sobreposto em modelos de rosto, cabelo, barba e bigode - ao software Horus, criado pela Polícia Federal e utilizado com o programa Adobe Photoshop, a técnica a lápis, quase extinta, continua em uso pela Polícia Civil de Santa Catarina.

Em uma sala no subsolo da Deic (Diretoria Estadual de Investigações Criminais), na Capital, um policial com nome de boxeador, tímido, observador, e dono de um traço inconfundível, trabalha cercado de desenhos e álbuns com mais de 3.000 fotografias de criminosos.

Cassius Clay Bortoli, 43 anos, natural de Capinzal, Meio Oeste catarinense, já produziu mais de 5.000 retratos falados ao longo de 25 anos de carreira e auxiliou na solução de uma infinidade de casos investigados em todo o Estado.

Os retratos são em preto e branco para dar textura, volume e sombra.

Lápis preto 6B, os mais macios, são apontados com estilete para a ponta ficar mais redonda ou chata, ótima para sombrear.

As borrachas são as próprias para desenho, mais macias. E o papel é ofício normal.

As características como cor da pele e dos olhos, que a cor poderia trazer ao retrato, são escritas no papel, próximo a assinatura do autor, que coloca dois pontinhos em cima do “Y”, de Clay. “Sou dessa época”, diz Cassius, rindo.

O talento foi descoberto quando fazia caricaturas dos colegas da Acadepol (Academia de Polícia Civil).

Mulheres e crianças observam mais  

A experiência como inspetor de polícia ajuda Cassius Clay na criação do retrato, inclusive para perceber quando uma testemunha está inventando.

“Vários inventam. Pergunto até a testemunha se perder”, revela o policial.

“Converso muito com a testemunha ou a vítima, pego um monte de informação e passo para os colegas. Deixo ela tranqüila, falo que estou aqui para ajudar. Pessoas envolvidas em crimes violentos sempre é delicado”, observa.

O trabalho começa com Cassius mostrando as fotografias para que a testemunha aponte características em comum com o autor do crime.

“Tento imaginar o que a pessoa está descrevendo. Um retrato é 80% do que a vítima me diz, e 20% é eu tentar passar para o papel o que ela está falando”, diz Cassius, que disponibiliza o retrato na rede interna da polícia.

Um retrato não é prova, nunca é idêntico ao retratado, e leva geralmente uma hora para ser feito.

“Se for necessário fico três horas conversando. Numa empresa assaltada em Brusque fiquei das 9h às 18h conversando com as testemunhas. O retrato é individual, faço um para cada testemunha.”

Mulheres e crianças são as que mais tem facilidade para descrever um criminoso.

“Mulher é detalhista por natureza e criança porque não tem a noção real do perigo”, observa o retratista que fica “meio envolvido” quando o crime é sexual e envolvendo criança.

 

Perseverança e paciência  

A técnica a lápis está quase extinta, e segundo Cassius, as pessoas que o procuraram para aprender, logo desistiram.

“Tem que ter o dom para o desenho”, diz o policial, que, se quiser, poderá se aposentar daqui a um ano para poder curtir a filha, as telas que pinta (e que estão à venda no saguão da Deic), tomar uma cerveja e comer ostras.

“Daqui para a frente é só software. Não tenho programa, nem quero, mas a evolução é natural e bem vinda”, garante.

Delegado titular da Divisão Anti-Sequestro da Deic, Renato Hendges, ainda prefere a técnica a lápis.

“Quando a descrição não é perfeita, o colorido do software pode atrapalhar. A testemunha pode dizer que o homem é branco quando na verdade é negro”, observa o policial com 44 anos de carreira.

“Já resolvi uma infinidade de casos por meio do retrato falado. Com um retrato que corresponda ao meliante, é meio caminho andado na investigação ”, conta Hendges.

“O Cassius é um dos maiores experts nessa área, além de ser um grande caricaturista. Ele é perseverante e paciente, isso é fundamental”, diz o experiente delegado.

Para o papiloscopista da PF (Polícia Federal), no Estado, Leandro Mascarenhas, 31 anos, é difícil encontrar alguém como Cassius.

“Ele nasceu com o dom”, diz o policial que, entre outras funções, trabalha com o software Hore, há dois anos. 

“Admiramos bastante o trabalho dele. O método dele não tem como aprender, ninguém consegue fazer um retrato nesse nível”, diz Leandro.

“Cassius Clay é um mestre no traço à mão.”

 

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade