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Sucesso da Netflix, "Os 13 Porquês" divide opiniões ao tratar de suicídio adolescente

Produção resultou no aumento de 455% no número de e-mails com pedidos de ajuda ao Centro de Valorização da Vida

Gustavo Bruning
Florianópolis
21/04/2017 às 22H19

Lançada no fim de março, a mais nova série da Netflix vem dividindo opiniões por causa de seus temas polêmicos. Na trama de “Os 13 Porquês”, no original “13 Reasons Why”, o espectador é apresentado à Hannah Baker (Katherine Langford) que, por meio de mensagens gravadas em fitas cassete, explica porque se matou aos 17 anos. Nos áudios, também cita os responsáveis por humilhá-la e os amigos que a traíram.

“A série aborda muitas questões com as quais a maioria dos adolescentes lida, como a dificuldade de entrosamento e problemas familiares. Além disso, trata de uma coisa que as pessoas não gostam de encarar, mas acontece com frequência: o abuso sexual”, explica a psiquiatra Deisy Porto, da ACP (Associação Catarinense de Psiquiatria).

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Em "Os 13 Porquês", Clay Jensen descobre as razões de Hannah Baker para tirar a própria vida através de fitas - Divulgação/ND


Em “Os 13 Porquês”, além de reviver as memórias de Hannah, o público vive o luto através dos olhos de Clay Jensen (Dylan Minnette), ex-amigo que escondia uma paixão pela jovem. Os 13 episódios, baseados no romance homônimo de Jay Asher, de 2007, foram lançados em 31 de março, fazendo com que o produto se tornasse o mais popular da Netflix, com mais de 3,5 milhões de impressões nas redes sociais na primeira semana.

Para Deisy, que foi informada da trama por pacientes adolescentes, a primeira preocupação foi em relação aos possíveis impactos negativos. “Na série o suicídio é mostrado de forma explícita e há a romantização do fato. Além disso, é ressaltado que é difícil buscar ajuda, o que não ocorre na vida real”, destaca. Por causa disso, a psiquiatra discutiu o impacto com profissionais da ACP e da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria).

>> Jogo Baleia Azul, que incentiva o suicídio, viraliza nas redes sociais entre os jovens

Coincidência ou não, desde que a série estreou houve um aumento de 455% nos e-mails com pedidos de ajuda ao CVV (Centro de Valorização da Vida), que também oferece auxílio por chat, telefone (141) e Skype. “O positivo de ‘Os 13 Porquês’ é que a série abre a discussão sobre um tema que fica sempre embaixo do tapete e dificilmente é trabalhado com o grande público”, garante Deisy. “Mas ainda é cedo para saber se esse aumento na procura pelo CVV é uma questão somente positiva, vinda de pessoas que tiveram acesso à informação, ou se ocorreu devido ao impacto da série”

O bullying enfrentado por Hannah na escola é uma das razões que leva a garota a se suicidar - Divulgação/ND
O bullying enfrentado por Hannah na escola é uma das razões que leva a garota a se suicidar - Divulgação/ND


Os sinais

Em uma análise do seriado, Deisy destaca como a visão dos fatos apresentada por Hannah corresponde apenas à verdade da personagem e não à realidade de fato. “Assim com as fitas cassetes têm os lados A e B, tudo na vida também pode ter duas perspectivas. Distorções cognitivas podem acontecer com pessoas deprimidas, e as ideias de rejeição e abandono acabam sendo sentidas de forma mais intensa”, explica. Nestes casos, é preciso de ajuda especializada para recuperar a esperança na vida.

A psiquiatra reforça ainda a necessidade de adultos e profissionais da educação estarem atentos a sinais e mudanças de comportamento nos jovens. “Temos que aproveitar esse momento para lembrar que o suicídio é evitável. Na série parece que não há mais nenhuma solução, mas sempre há”, afirma. Como Deisy sugere, é crucial que os pais estejam atentos não apenas ao comportamento dos filhos, mas também às mensagens, grupos e redes sociais, ainda mais com casos como o recente jogo da Baleia Azul, que incita o suicídio. “Muitos pais têm dificuldade para acessar a tecnologia e não acompanham os filhos, principalmente porque essa não era a realidade na adolescência deles”, acredita a psiquiatra.

Segundo psiquiatra, a série ressalta a dificuldade para buscar ajuda, o que não ocorre na vida real - Divulgação/ND
Segundo psiquiatra, a ideia de que pode haver vingança após a morte é uma distorção explorada pela série - Divulgação/ND


“O estado de depressão da personagem não foi abordado diretamente, mas coincide com a maior parte dos suicídios reais. Nestes casos, muitas pessoas não passam por tratamento por causa do preconceito de buscar um psiquiatra”, declara Deisy. O acesso à informação, no entanto, tende a diminuir a força do estigma. “É um grande erro achar que falar sobre suicídio estimula as pessoas a fazerem isso. Dialogar sobre o assunto, da maneira correta, com alguém que está em uma situação delicada, permite que a necessidade de ajuda seja identificada. Além disso, alivia a angústia e pode levar ao tratamento adequado”, garante. Contudo, é preciso cuidado com a exposição dos casos na mídia e nas redes sociais. Como orienta a psiquiatra, fotos de vítimas não devem ser compartilhas e métodos não devem ser discutidos.

A ideia de que pode haver uma vingança após a morte, sugerida pelo seriado, também é digna de preocupação e, segundo Deisy, trata-se de uma distorção. Como a classificação indicativa sugere, a psiquiatra recomenda que menores de 16 anos não assistam o programa, que exibe imagens de adolescentes em situações de violência gráfica, abuso de substâncias, estupro e porte de armas. “É preciso que os pais percebam se há identificação ou interesse grande no assunto, pois o jovem pode ter dificuldade em expor isso”, declara.

Em “Os 13 Porquês”, a protagonista é malsucedida ao buscar o apoio na escola, na família e entre os amigos. Para o espectador, portanto, fica a deixa para perceber que tais obstáculos podem ser contornados. “Na abordagem da série, a Hannah recorreu ao conselheiro escolar e ele se mostrou uma pessoa de difícil acesso, além de não ter feito uma intervenção efetiva. Nos casos reais, os profissionais precisam reconhecer isso claramente e estar cientes dos riscos”, reforça Deisy.

Na primeira semana de exibição na Netflix, o seriado ganhou popularidade nas redes sociais - Divulgação/ND
Na primeira semana de exibição na Netflix, "Os 13 Porquês" ganhou popularidade nas redes sociais - Divulgação/ND

Prevenção em Santa Catarina

Diante da repercussão do jogo da Baleia Azul e do seriado “Os 13 Porquês”, o Governo de Santa Catarina emitiu alerta aos profissionais da saúde e professores em relação aos procedimentos que devem ser tomados em casos de suspeita de automutilação ou tentativa de suicídio.

“O suicídio entre jovens é algo que sempre preocupou os serviços de saúde, mas agora está se tornando mais evidente por conta das redes sociais. A atuação dos grupos de prevenção e de saúde mental é fundamental, assim como das escolas”, enfatiza Eduardo Macário, diretor da Dive (Diretoria de Vigilância Epidemiológica e pela Gerência de Atenção Básica) do Estado. Segundo a coordenadora do programa de Sáude Mental de Santa Catarina, a psicóloga Rose Brasil, a porta de entrada para o acolhimento é sempre as unidades básicas de saúde - atualmente há 99 Caps (Centro de Atenção Psicossocial) pelo Estado.

Em Santa Catarina, o Nepre (Núcleo de Educação, Prevenção, Atenção e Atendimento às Violências na Escola) é uma iniciativa do governo que funciona desde 2011 com o objetivo de apresentar orientações a professores e fomentar ações em rede, envolvendo estudantes, famílias e membros da comunidade escolar.  Segundo a coordenadora de Educação em Direitos Humanos e Diversidade, Rosimari Kock Martins, o projeto funciona atualmente em 690 das 1.090 escolas estaduais. O Nepre engloba um espaço e uma equipe de referência nas unidades, para quem os estudantes podem relatar seus casos.

A dificuldade de entrosamento e problemas familiares são comuns entre os jovens, segundo psiquiatra - Divulgação/ND
A dificuldade de entrosamento e problemas familiares são comuns entre os jovens, segundo psiquiatra - Divulgação/ND


Os núcleos têm como referência um caderno pedagógico criado pelo governo, que trata de intervenções necessárias e questões como a abordagem e o acolhimento em situações de conflito. De acordo com Rosimari, as escolas, as gerências regionais e a secretaria de Educação estão articuladas para tratar de problemas específicos. “Nestes casos decidimos para onde vamos encaminhar a situação, se é necessária uma ajuda pedagógica, dos serviços de saúde, assistência social, conselho tutelar ou segurança pública”.

Segundo ela, nas unidades onde não há a presença do Nepre, "há falta de equipe ou o projeto está em discussão para ser implantado”. A coordenadora afirmou ainda que todas as escolas têm a possibilidade de acessar o caderno on-line e que 100% das unidades contarão com núcleos até o fim de 2017.

Quanto a campanhas específicas de combate ao suicídio nas escolas, Rosimari informou que não há projetos do tipo em andamento em Santa Catarina. “Na política do Nepre reforçamos que a educação é a chave para ter postura e novas atitudes, e que a escola é um espaço privilegiado para trabalhar essas questões”, declarou. A secretaria não soube informar quantos adolescentes já foram atendidos pelos núcleos, mas salientou que o trabalho “é focado na prevenção”.

Onde procurar ajuda

Conforme a Vigilância Epidemiológica de Florianópolis, foram registrados 46 casos de autoagressão entre pessoas de 12 a 19 anos desde 2016. Em 2017, há registro de 15 casos na mesma faixa etária. Em casos de suspeita, o atendimento pode ser encontrado em diferentes locais.

Equipes de Saúde da Família: no setor da Saúde, pode-se buscar ajuda junto aos 49 Centros de Saúde distribuídos nos bairros de Florianópolis.

Caps: a Capital conta com Centros de Atenção Psicossocial para álcool e drogas na Ilha e no Continente, para transtornos mentais na Ponta do Coral, e para crianças e adolescentes, ambos na Agronômica.

Urgência e emergência: UPA (Unidades de Pronto Atendimento) no Norte e Sul da Ilha. Samu (192) e Bombeiros (193).

Para desabafar: o CVV conta com apoio emocional e de prevenção ao suicídio 24 horas por dia e pode ser acessado pelo telefone (141) ou site.

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