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Sábado, 22 de Setembro de 2018
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Em expansão, startups buscam profissionais diferenciados no mercado

Senso coletivo e engajamento podem pesar mais do que diploma na hora das contratações

Letícia Mathias
Florianópolis

Bom ambiente de trabalho, equipe jovem e inovadora e oportunidade de crescer e empreender são algumas das características que atraem interessados pelo trabalho em startups. Mas envolvidos nesse mercado afirmam que não se pode olhar apenas essas questões: é preciso comprometimento e muito trabalho que, às vezes, tira o profissional do conforto em atuar apenas na área em que é especialista e dentro do horário de trabalho pré-definido. Exige mais do que a competência técnica.

As características comportamentais e a proatividade são essenciais nesse mercado. Diferente da maioria das empresas tradicionais, que buscam um perfil específico, com currículo e características bem focadas em um único cargo, as startups procuram profissionais empreendedores, multidisciplinares que tenham como foco os valores da empresa e entendam que o processo de crescimento será coletivo. Quem entra nesse mercado precisa saber que é necessário dar tempo para que a empresa se estabilize e se organize e, além disso, ter paciência para construir sua carreira junto ao desenvolvimento da startup.

Especialista em gestão de pessoas na Sinergia Recursos Humanos, empresa que atende dezenas de startups, Carolina Pizolati afirma que sempre é possível observar dois tipos de profissional: aquele que deseja fazer carreira na empresa, ser presidente ou diretor e aquele que tem o obetivo de fazer com que a empresa cresça para que ele acompanhe isso.

Nas startups, segundo ela, geralmente os donos são empreendedores e eles mesmos estão aprendendo sobre gestão, por isso precisam de profissionais engajados que queiram construir a carreira junto com a empresa. Por isso valorizam o intraempreendedorismo, que é quando a empresa estimula empreendedorismo interno: “O intraempreendedorismo é recorrente e capacidade mais criativa e estratégica muito valorizada”.

Bruno Ropelato/ND
Vinícius e Gesiel destacam que versatilidade e senso coletivo são características importantes

 

“Tem videogame, mas é muito trabalho”

Gesiel da Silva, 26, foi contratado há um mês. Formado em sistemas de informação, ele trabalha há seis anos com TI e queria mudar, trabalhar em um ambiente mais colaborativo que pudesse desenvolver mais funções. Por isso começou a procurar vagas em startups e acredita que, além das qualificações técnicas, o interesse contribuiu para a contratação. “Queria muito isso e acredito que demonstrei que queria estar aqui, gostei da metodologia e estou sempre estudando, me atualizando”, contou.

“O diretor faz parte do dia a dia da gente, temos liberdade para falar quando temos uma opinião, mas tem que ser bem fundamentada, é preciso saber argumentar. Tem videogame e música também, mas não se limita a isso, é muito trabalho”, esclarece.

O colega Vinicius Duarte, 25, está no mercado há mais tempo e diz que o que move os profissionais é justamente o senso coletivo, a determinação em busca do mesmo objetivo e não apenas no desempenho da função individual. “Por isso o contato com os administradores é tão direto e dinâmico. Minha opinião aqui não vai para um formulário e para gaveta para depois uma única pessoa ler e guardar de novo, ela conta para somar”, afirma.

O redator diz que faz parte de uma geração que não fica mais em um emprego só pelo salário, quer trabalhar com qualidade e ser feliz, mas ressalta que é preciso comprometimento para conquistar isso. “O que atrai é esse ambiente que aparenta descontração, mas temos metas sérias a cumprir. Tem que ter esse equilíbrio, não é só tentar vaga, mas mostrar que merece estar no time. A empresa vai crescendo e me sinto parte disso porque participamos em tudo”, afirma.

A especialista em gestão de pessoas Carolina Pizolati diz que recebe muitos interessados sem foco não só em relação à vaga, mas também sobre o que deseja na vida. Ela considera essencial ter autoconhecimento e onde quer chegar na carreira. “Em muitos casos falta comprometimento e maturidade. A maioria das startups ensina a parte técnica, oferece cursos, mas falta a questão comportamental de assumir o problema e resolver o desafio”, afirma Carolina.

Bruno Ropelato/ND
Krummenauer afirma que na Involves todo o grupo participa da seleção de novos colaboradores


Gostar de desafios faz a diferença


Segundo o secretário executivo da Acate (Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia), Gabriel Sant’Ana Palma Santos, o que se busca, especialmente nas startups tecnológicas, são pessoas com bom raciocínio lógico e conhecimento de inglês, pelo menos de leitura. “Na startup se faz um pouco de tudo. A pessoa vai ajudar na gestão, tem que gostar de desafios e o volume de trabalho geralmente é bem grande. Cerca de 40% dos desenvolvedores na indústria de tecnologia no Brasil não são formados ou estão na graduação. O diploma não é o principal, o conhecimento e habilidade contam muito”, ressalta.

Além dos interessados em trabalhar, nos últimos três anos o volume de pessoas que querem ter uma startup pelo menos dobrou, principalmente por causa do intraemprendedorismo, segundo Santos. Nesse caso, os empreendedores estão chegando mais maduros, geralmente com mestrado, doutorado e uma vasta experiência profissional.

Startup que desenvolve software de gestão, a Involves foi fundada em 2008 e se manteve inicialmente somente com o trabalho dos seis sócios. Começou a contratar em 2010 e há três meses a equipe passou de 35 para 63 colaboradores. Apesar de os gestores tomarem a decisão final, todo o grupo participa da escolha. Depois da seleção do currículo e de uma prova técnica, o candidato passa por uma sabatina entre colaboradores de outros setores sobre os mais diversos assuntos. “Fazemos isso porque é importante que toda a equipe esteja integrada. Se alguém tem objeções, levamos muito em consideração e avaliamos”, diz o sócio André Krummenauer.

Para ele, o principal requisito é alinhamento à cultura da empresa. Mas também engloba empreendedorismo e relação interpessoal. “Precisa estudar a empresa, se identificar com a proposta, se sentir dono do negócio também. Tem que ter paixão e não vir só pelo emprego em si e depois de contratado esperamos que esteja estimulado a empreender”.

O administrador recorda que um dos processos seletivos se deparou com um profissional extremamente preparado tecnicamente e outro sem muita experiência que estava no fim da graduação, que acabou contratado pelo perfil comportamental. De modo geral, ele acredita que as startups buscam alguém que tenha senso coletivo e espírito de equipe, focado no crescimento do time entendendo que isso vai permitir crescimento pessoal.

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