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Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018
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Shopping Iguatemi supera obstáculos e ganha espaço em Florianópolis

Três anos depois da polêmica instalação, empreendimento mostra que região do bairro Santa Mônica teve mais ganhos do que perdas

Redação ND
Florianópolis
Edu Cavalcanti/ND
Iguatemi recebe 18.000 pessoas por dia, movimento que ajuda o comércio local

 

 

Em abril de 2007, Florianópolis ganhava um novo shopping center, o Iguatemi, situado no bairro Santa Mônica. A polêmica em torno do empreendimento se arrastou por mais de três anos, gerando debates, ações judiciais e embargos. Afinal, o que o shopping trouxe para a cidade? Três anos depois é possível fazer um balanço de ganhos e perdas. O receio dos ambientalistas da época não se confirmou: o mangue não foi prejudicado, o trânsito está organizado e o comércio da região foi revitalizado. Sem falar dos imóveis, também mais valorizados com a proximidade do empreendimento.

A chegada de um shopping center não é encarada meramente como a abertura de um novo ponto comercial. É muito mais do que isso. Pelas dimensões dos empreendimentos, empregos gerados e movimento de clientes nas lojas, um shopping traz impacto profundo nas relações comerciais do entorno. Em geral, os imóveis costumam se valorizar bastante, novos pontos comerciais são abertos na região e o local transforma-se em um ponto movimentado da cidade.

Há quem não goste desse movimento, mas pelo menos para o comércio, os benefícios são inegáveis, como explica Doreni Caramori Júnior, presidente da Acif (Associação Comercial e Industrial de Florianópolis). “O impacto da abertura de um shopping é sentido em todo o seu entorno. Junto com ele, surgem concessionárias, postos de gasolina, lojas e outros tipos de estabelecimentos. Porém, a soma disso requer intervenções do poder público para não causar problemas à região, principalmente urbanísticos”. A opinião de Caramori Júnior é compartilhada por outras instituições comerciais da cidade, como a Fecomércio.

Para Paulo de Tarso Guilhon, consultor econômico da entidade, um shopping leva à região algo de muito valor ao comércio: pessoas dispostas a comprar. “Hoje, encaramos os shopping centers como âncoras que transformam toda a região a sua volta, assim como grandes outros empreendimentos. Outro exemplo é a UFSC que, quando se instalou em Florianópolis, não havia quase nada ao seu redor e, aos poucos, transformou em muito os bairros da Trindade, Córrego Grande e Pantanal”, conta.


Nem poluição, nem degradação ambiental
As primeiras críticas do Iguatemi surgiram dos ambientalistas, que fizeram pela imprensa dura campanha contra a sua instalação no bairro. Apesar do receio inicial que o shopping poderia provocar, até agora não foi registrado nenhum aumento da poluição ou degradação do mangue do Itacorubi. Quem afirma isso é o professor de geociências e coordenador de Meio Ambiente da UFSC, Erico Porto Filho.

Segundo ele, o centro comercial não trouxe impacto negativo ao mangue ou aumento da poluição nos rios próximos. Isso porque os resíduos líquidos e sólidos produzidos pelo shopping não são lançados diretamente na região.

Além disso, a obra respeitou o limite do mangue e manteve intacta a área de preservação ambiental.
“Desde o início tive a posição de que a ocupação não teria impacto efetivo direto. A obra não reduziu a área do manguezal porque fica no mesmo local onde antes estava instalada a Santa Fé e, anteriormente, havia uma fazenda”, opina o professor. Porém, Porto Filho ressalta a necessidade de um estudo complementar do levantamento da fauna e da flora na área de influência da obra.



Alegria no final da tarde
O empresário Marcos Oliveira, 25 anos, saiu do Centro há oito meses para morar no Santa Mônica. A mudança de endereço não foi uma mera questão de residência. Nos planos do empreendedor, estava o de abrir um estabelecimento no bairro e aproveitar o bom momento econômico da região.

“O Santa Mônica virou uma rota obrigatória da cidade com a chegada do shopping. Muita gente passa por aqui para fazer compras e acaba usufruindo de outros serviços do entorno”, comenta Oliveira.

Poucos meses depois de se mudar, o empresário abriu as portas do Benvenuto Bar, um estabelecimento especializado em happy hour, que funciona de terça a domingo, atraindo tanto moradores do bairro quanto clientes de outras regiões.

“Toda essa região é muito boa. Transformou-se em um lugar agradável, simpático e as pessoas gostam de conviver e se divertir por aqui. Por isso, muitos de nossos clientes são moradores do bairro”, conta.


Pizzaria fatura com movimento
Quem se instalou na região antes mesmo do shopping inaugurar também vê grandes benefícios para a economia. É o caso do restaurante e pizzaria Rancho da Jackie, que abriu as portas há cerca de quatro anos na avenida Madre Benvenuta. De olho na clientela já crescente nas redondezas, o estabelecimento pretendia aproveitar o bom movimento da via e atrair para as mesas os trabalhadores, moradores e frequentadores da região.
Mas com a chegada do shopping, a clientela aumentou ainda mais.“Muitos dos nossos clientes são reflexo do movimento no shopping. Há quem trabalhe por lá e outros aproveitam que já estão na região para comer aqui”, afirma a gerente do restaurante, Franciele Ribeiro. Segundo ela, o movimento no Rancho da Jackie do bairro é constante o ano inteiro e o público se divide entre almoço ou pizza à noite.

Raio X – O Iguatemi em números

Área construída: 108.290 m² de área
Área bruta locável: 28.257 m²
Lojas âncoras: 3
Total de lojas: 186
Estacionamento: 908 vagas
Cinema: 7 salas multiplex
Movimento: 18.000 pessoas por dia
Funcionários diretos: 1.650
Inauguração: 17 de abril de 2007


Valorização dos imóveis da região
A valorização imobiliária em regiões no entorno de shoppings centers é imediata e com altos índices, de acordo com o vice-presidente de locação do Secovi (Sindicato da Habitação) de Florianópolis, Leandro Ibagy.

“No mercado de aluguel, a instalação destes modelos de centros comerciais transforma as características da região, indo de residencial para um perfil comercial e com valorização de até 40% nas edificações”, aponta.

Para Marcos Alcauza, diretor comercial de vendas da Imobiliária Brognolli, que atua na região, a instalação e abertura do Shopping Iguatemi trouxe vantagens para quem possui imóvel nas proximidades do centro comercial.

“Os potenciais comerciantes querem aproveitar o fluxo de passageiros por conta do shopping e isto faz com que a valorização gire entre 30% e 40% nas residências e de até 100% para prédios comerciais”, calcula Alcauza.


Entrevista - Paulo Cezar Maciel da Silva


Superação de obstáculos

Sofia Franco/ND
Paulao Cezar afirma que mudança no sistema viário beneficiou toda a região

 

O empresário Paulo Cezar Maciel da Silva é o idealizador e executor do Shopping Iguatemi. Catarinense de Araranguá montou sua própria empresa de engenharia em 1972. Desde então, atuou em diversos empreendimentos. Por muito tempo dirigiu a concessionária Santa Fé, no mesmo terreno onde ergueu o shopping. Na entrevista a seguir, o empresário, de 62 anos, conta como formulou a ideia do empreendimento e fala das dificuldades que enfrentou.

Concepção do shopping
A ideia surgiu em 1981, na cidade de Criciúma. Desde então, pesquisei muito sobre o mercado de shopping center. Compramos este terreno em 1985 e sempre mantivemos a ideia de, no futuro, erguer um shopping aqui. Quando fizemos a Santa Fé, deixamos um terreno na parte da frente, onde havia um campo de futebol, com o objetivo de construir ali um centro comercial. Mas achamos mais interessante ter um shopping maior. Em 2000, começamos os estudos de projeto, financeiro e sócio-econômico.

Dificuldades
Enfrentamos muitas dificuldades para transformar o shopping em realidade. Criaram-se exigências, principalmente na questão ambiental, totalmente exageradas e que não tinham qualquer tipo de amparo jurídico. Sofremos também ações na Justiça que resultou no embargo da obra, por duas vezes, num total de 47 dias. Pode parecer pouco tempo, mas é um grande transtorno, tumulto e prejuízo parar uma construção onde trabalham mais de 700 pessoas.

Contrapartida
Fizemos muita coisa, como o bicicletário com 52 vagas e a mudança no sistema viário que solucionou o problema do trânsito na região. Mas alguns pontos fugiram do nosso alcance e ainda estão em andamento. A ciclovia é bem clara no acordo, mas os outros envolvidos (Prefeitura, comunidade, Ministério Público) têm ideias diferentes. Ainda não recebemos autorização para fazer. Estamos aguardando.

Meio ambiente
Estamos mapeando as ligações clandestinas de esgoto. Inicialmente, como acordado, usamos um robô para entrar na tubulação e verificar as irregularidades. Mas a Vigilância Sanitária e a Casan disseram que o robô não iria ajudar em nada. Então, começamos a trabalhar e analisar casa por casa e contratamos 10 pessoas para fazer o levantamento. Mais de 70% do levantamento já está pronto e vamos concluir o restante em cinco meses, o que vai ajudar na despoluição do Rio Sertão. Sobre o Parque do Jacaré: falta a desapropriação de uma parte do terreno por conta da Prefeitura. Enquanto não se desapropria, eu não consigo fazer nada.

Diálogos
Quando havia apenas a Santa Fé, de 1989 a 2005,  ninguém nunca falou nada, nenhum advogado entrou com ação civil pública. Tudo começou quando tiveram certeza de que o shopping iria sair. Sempre conversamos com todo mundo. A comunidade foi nossa parceira, favorável ao shopping e sempre fizemos tudo em comum acordo e chamamos a comunidade para opinar. O Ministério Público Federal também entrou na história, mas a ação não resultou em embargo, e sim num Termo de Ajustamento de Conduta que serve para beneficiar a cidade.

Benefícios
A vinda do shopping beneficiou todo mundo. É um bem público onde não se pede cartão de identificação para entrar. Funciona como se fosse a praça de uma comunidade nos tempos antigos. Um ponto de encontro onde todo mundo gosta de conviver e passear. É um centro de compras que proporciona segurança, conforto e comodidade. Além disso, valorizou a região. Um lote na Madre Benvenuta, de 360 metros quadrados, se comprava por R$ 250 mil há cinco anos. Hoje, está em R$ 1,2 milhão. O comércio teve upgrade em todos os sentidos e a segurança do bairro melhorou muito.

Repercussão e polêmicas
Nunca imaginava que o empreendimento fosse ter tanta repercussão, polêmica e problemas a serem enfrentados. Tenho empresa de engenharia desde 1972. Para mim, seria apenas mais uma obra, como tantas outras. A única diferença que enxergava eram as dimensões do prédio, uma construção maior. Jamais pensei que seria algo tão polêmico.

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