Publicidade
Sexta-Feira, 16 de Novembro de 2018
Descrição do tempo
  • 26º C
  • 19º C

Sentimentos antagônicos marcam feriado do Dia da Independência

Comemorações do 7 de Setembro estão longe de representar unidade popular em torno do nacionalismo; historiadores e estudiosos analisam porque a independência aqui é diferente de outros países

Fábio Bispo
Florianópolis
06/09/2018 às 21H31

A previsão do tempo marca sol em todas as regiões do Estado. No litoral, na serra e nos cânions, as hospedagens estão praticamente com lotação máxima. Um feriado em plena sexta-feira sempre agrada ao brasileiro e à economia, que aproveita as datas comemorativas para se capitalizar. Mas definitivamente não será a venda de bandeiras ou de camisetas verde-amarelas que vão aquecer o comércio nestes 196 anos de Independência. Até há quem estará às 8h45 a postos para assistir, ou participar, do tradicional desfile cívico militar na Passarela Nego Quirido, onde alunos da rede de ensino e tropas militares marcharão. Mas de maneira geral, o 7 de Setembro está longe de representar unanimidade ao bastante arranhado sentimento patriótico do brasileiro.

O fato é que oficialmente, segundo o calendário nacional, a data celebra nada menos que a independência brasileira do Reino de Portugal, em 1822, simbolicamente marcada pelo famoso “Grito do Ipiranga”, quando Dom Pedro 1º, recusando regressar a Portugal, declarou o país independente.

Mas diferente de outras nações, como nossos vizinhos da América Espanhola, que têm Simon Bolívar, San Martin e José Artigas como símbolos nacionais, ou como o 4 de julho, uma das maiores comemorações festivas da cultura norte-americana, o Dia da Independência no Brasil desperta sentimentos antagônicos ou até mesmo de indiferença.

Pesquisador do período imperial e primeiras décadas da República, o professor Paulo Pinheiro Machado, do Departamento de História da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), diz que a relação do brasileiro com o episódio da Independência sempre foi conflituosa. “Esse sentimento não vem de hoje. Não dá para dizer simplesmente que a população tem desdém. A falta de legitimidade do 7 de Setembro é questionada desde muito tempo”, afirma.

Machado lembra que o movimento pela independência do Brasil teve diversas frentes país afora, mas o ato da independência acabou concentrado na família real, que já estava fixada na então colônia desde 1808. O historiador cita como exemplo as comemorações da Independência Baiana, celebrada com um cortejo em 2 de julho e que marca a expulsão dos portugueses daquela região; a Revolução Pernambucana, de 1817, considerada por alguns como a primeira independência, entre outros episódios.

Desfile de 7 de Setembro em Florianópolis - Marco Santiago/ND
Desfile de 7 de Setembro em Florianópolis - Marco Santiago/ND

Decreto não rompeu com regime colonial

Para Pinheiro Machado, a expectativa depositada pelo povo na independência do regime imposto pela coroa portuguesa não se efetivou com a assinatura do decreto de independência.

“Há, na época, uma frustração muito grande com o príncipe. Em outras nações, os movimentos de independência representaram também um rompimento com o regime anterior, marcaram o fim da escravidão, o que não aconteceu aqui. A monarquia continuou predominando, assim como a escravidão”, explica.

Ele emenda que a participação popular no movimento de independência acabou sufocado.  “Tanto que a partir de 1830 tem início as revoltas armadas que pipocam em todo o Brasil, como a Cabanagem, a Balaiada e a Guerra dos Farrapos”, exemplifica.

Por fim, o professor afirma que o data da independência não era o principal marco no calendário brasileiro até 1922, quando a Independência completou seu primeiro centenário. “Até lá, a data que se comemorava era a do ato de coroação de Dom Pedro I, no dia 1º de dezembro. Só em 1922, quando o governo fez um investimento simbólico na comemoração do centenário da Independência é que a data foi mais fortemente lembrada”, diz.

Primeiro centenário marcou ano de mudanças

Em 1922, o governo brasileiro realizou a Exposição Internacional do Centenário da Independência, no Rio de Janeiro, uma das maiores exposições internacionais realizadas em terras brasileiras. O evento foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1922 e se prolongou até o dia 24 de julho do ano seguinte.

O evento marcou a participação brasileira nas “vitrines do progresso”, que reuniu diversos setores do comércio e indústria. Após o evento, ampliou-se no país o estudo pelos acontecimentos históricos e a valorização de monumentos. O mesmo ano ainda foi marcado por grandes transformações sociais e culturais no país, como a Semana de Arte Moderna, a fundação do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e a Revolta do Forte de Copacabana.

Em contraponto, no mesmo dia, desde 1995, em diversas cidades do país também é realizado o Grito dos Excluídos, que tem como eixo central discutir a soberania nacional. Este ano, em Florianópolis, o Grito dos Excluídos tem como tema “Desigualdade Gera Violência”, e sairá do Morro da Caixa e seguirá pela avenida Mauro Ramos até o Morro do Mocotó.

Data é celebrada no meio escolar e militar

O Dia da Independência, como data oficial do calendário nacional, é assunto obrigatório na educação brasileira. Motivo pelo qual, em todo o país, os desfiles cívicos são em grande parte realizados pelos estudantes. A fanfarra, as roupas características e a bandeira fazem parte dessa mobilização. A data também tem grande representatividade no meio militar, que normalmente são os responsáveis pelos grandes desfiles cívicos-militares. 

Para o cientista político Julian Borba, do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC, as datas comemorativas de dimensão cívica da cidadania acabam enfrentando dificuldades de se manifestar “num contexto de profundo descrédito da população para com as instituições democráticas, como o atual”, segundo disse.

Borba diz que é difícil estabelecer relações causais entre os episódios da Independência do Brasil com a de outros países. “Mas é possível que exista algum tipo de dependência de trajetória entre as formas de constituição de uma comunidade política e os vínculos cívicos que os cidadãos estabelecem no presente. Mas é importante lembrar que vários outros fatores interferem nesse processo, como outros eventos na história de um país (guerras, crises, catástrofes), questões relacionadas ao processo de modernização econômica, a dimensão cultural, etc”, explica.

Brusquense prepara evento para celebrar bicentenário

O historiador Paulo Vendelino Kons, idealizador do Ciclo Brusquense de Conferências Magnas Temáticas, tem uma visão mais tradicional da Independência do Brasil. Para ele, o resgate da data como evento cívico “dignifica o sentimento nacionalista de construção de uma pátria maior”, nas suas palavras.

Desde 2015, através das Conferências Magnas, da qual recebeu inclusive a colaboração de Dom Bertrand de Orleans e Bragança, bisneto da princesa Isabel e líder do movimento de restauração da monarquia no Brasil, Kons prepara uma grande comemoração para o bicentenário da Independência, em 2022.

Kons critica o que considera relativismo e indiferença com a história do Brasil e aponta ideais marxistas como causadores de interpretações deturpadas da história. “Graças à família real, que manteve a unidade, é que pudemos ter um processo de independência sem precisar somar os litros de sangue derramados. Que bom que não tivemos guerra”, diz.

O Príncipe Imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e o historiador Paulo Vendelino Kons - Divulgação/ND
O Príncipe Imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e o historiador Paulo Vendelino Kons - Divulgação/ND



O Ciclo das Conferências Magnas, a cada ano até 2022, debaterá em cada ano um tema diferente. Este ano, o tema é fé e cultura. No próximo ano será desenvolvimento sustentável e em 2020 será arte da política e da administração. Em 2021 a conferência vai discutir aldeia global, nossa casa comum e às 19h do dia 6 de setembro de 2022 o bicentenário será comemorado com o tema desafios e perspectivas para o Brasil.

Kons diz não querer implantar a monarquia do país, glorifica em diversos momentos o período, mas lembra que o país realizou um plebiscito em 1993, quando 10% da população escolheu a monarquia e 66% optou pelo modelo republicano. “Para aqueles que votaram, a monarquia seria um modelo ideal”, finaliza.

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade