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Sem rodoviária, moradores de São José enfrentam insegurança e falta de infraestrutura

Ônibus passam trabalho para estacionar e, como a região é ponto de pessoas em situação de rua, cada agência faz o seu horário

Michael Gonçalves
São José
14/06/2018 às 15H14

Para o dicionário Aurélio, uma rodoviária é uma estação ou terminal de ônibus destinado à compra e venda de passagens, embarque e desembarque de passageiros. Em São José, município com mais de 210 mil habitantes, a situação é um pouco diferente. Há 41 anos, três agências de venda de bilhetes e uma lanchonete preenchem a falta de uma rodoviária na Rua Josué Di Bernardi, bairro Campinas, em meio ao trânsito movimentado. Segundo o secretário de Planejamento de São José, Rodrigo de Andrade, a melhor opção é uma PPP (Parceria Público Privado) em terreno às margens da BR-101.

Segundo prefeitura, melhor opção é uma PPP em terreno às margens da BR-101 - Flávio Tin/ND
Segundo prefeitura, melhor opção é uma PPP em terreno às margens da BR-101 - Flávio Tin/ND


Sem um espaço adequado, os ônibus passam trabalho para estacionar e os passageiros também sofrem pela falta de segurança e de infraestrutura básica. Como a região é ponto de pessoas em situação de rua, cada agência faz o seu próprio horário de atendimento, das 6h às 20h30min, em função do medo. “Pegar o ônibus aqui em Campinas é uma ótima opção para quem quer enfrentar a fila da Via Expressa e da ponte. O único problema é não poder desembarcar após as 20h30min, em função da insegurança da região”, comentou o representante comercial Manoel Antonio Carvalho, 62, que desembarcou de Palmeira das Missões (RS).

As três agências embarcam mais de 300 pessoas por dia, em mais de 45 linhas. Partindo de São José, o passageiro consegue se deslocar por todo o Estado, mas as opções para outras unidades da federação são reduzidas. Poucas são as empresas que operaram para o Paraná, Rio Grande do Sul e outros estados saindo do bairro Campinas.

O agenciador de passagens Vilson Antonio Sebold, 66, trabalha no local há 41 anos. Começou como funcionário da Reunidas e, desde 2000, assumiu como um prestador de serviço terceirizado. “A falta de infraestrutura afasta os passageiros. Aqui ninguém consegue estacionar para ver o parente embarcar, porque quase não temos espaço nem para os ônibus. Também não há banheiros e a segurança já acabou faz tempo e, por isso, encerramos as atividades às 20h30min”, lamentou Vilson.

Atualmente, operam em São José as empresas Reunidas, Catarinense, Santo Anjo, Tiquin e Santa Cruz.

 

Passageiros defendem construção de terminal

Vizinha à suposta rodoviária, a bancária Vanessa Pereira Luz, 42, gosta de ter um ponto de embarque ao lado de casa. Acompanhada do marido Tiago Neri, 31, e da filha Dora, quatro anos, a família viaja com frequência para Blumenau. Utilizando a agência da Catarinense, que também atende a Santo Anjo, ela destaca a facilidade de não precisar acessar a Ilha de Santa Catarina para embarcar na Rodoviária Rita Maria.

O único problema é ao cair da noite. “Não vejo dificuldade em embarcar aqui durante o dia, apesar de ter um único banheiro na Catarinense para todos os usuários e funcionários. O problema é a falta de segurança no período noturno, pelo excesso de pessoas em situação de rua. Outra vantagem é que aqui sempre é mais tranquilo e um espaço adequado traria mais conforto”, comentou.

A advogada Lizandra Horostecki também pega o ônibus na Rua Josué Di Bernardi. Ela lamentou a falta de um coletivo que possa embarcar em São José com destino a Curitiba (PR). “Já passou da hora de a cidade ter a sua própria rodoviária, principalmente, para colaborar com a mobilidade urbana da região. Quando vou para Chapecó tenho a preferência de embarcar aqui, mas ainda faltam mais destinos, como a capital paranaense”, afirmou.

Passageiros sofrem pela falta de segurança e de infraestrutura básica - Daniel Queiroz/ND
Passageiros sofrem pela falta de segurança e de infraestrutura básica - Daniel Queiroz/ND


Agentes rodoviários resistem à violência e ao crescimento do bairro

O agenciador de passagem Vilson Sebold recorda que no início da operação, em São José, a loja da Reunidas abria das 4h30min até as 24h. Com o aumento da violência, o horário de atendimento foi reduzido na mesma proporção. Antigamente, Vilson também tinha seis funcionários e embarcava mais de 200 pessoas por dia e, hoje, trabalha ao lado do filho e atende menos da metade do público anterior.

“Reduzimos os horários após vários assaltos e outros problemas. Na gestão do prefeito Dário Berger apresentamos um dossiê sobre todo o movimento de passageiros e de ônibus de São José. Chegaram a cogitar a construção da rodoviária onde é a Cidade da Criança, às margens da BR-101, mas o projeto nunca saiu do papel”, lamentou Vilson.

Já o agente rodoviário Samir Amin Shihadeh, 42, lembrou que houve um contato para transformar o terminal de integração desativado de Capoeiras, em Florianópolis, em uma estação rodoviária. “Tentamos transformar o terminal sem uso em rodoviária, mas como não fica em São José muita gente foi contra. Enquanto isso, os ônibus passam trabalho para estacionar e somente há pouco tempo conseguimos que a prefeitura pintasse a faixa exclusiva. Em determinados horários temos fila com mais de cinco ônibus”, disse.

O agenciador de passagem Mário Coelho, 56, trabalha em São José há uma década e também convive com os problemas do bairro Campinas. Vendendo passagens aéreas e terrestres, ele destacou o tempo que os passageiros perdem para cruzar as pontes. “Não precisamos de uma rodoviária no estilo de Florianópolis, mas apenas um local adequado para os ônibus, com banheiros e segurança. Imagina quantas pessoas cruzam as pontes para pegar um ônibus e retornar pela Via Expressa”, questiona.

Única lanchonete é referência de banheiro e alimentação

Entre as agências rodoviárias, a lanchonete Estação 344 é a referência de alimentação e de banheiro para a maioria dos passageiros. Aberta das 7h às 19h30min, a proprietária Cristine Kloppel, que está no ponto há oito meses apenas, comemora o aumento do movimento aos finais de semana e feriados.

“Toda a rodoviária tem uma lanchonete e nós somos a referência de São José. O movimento é bem puxado as sextas-feiras e nas vésperas de feriados, mas o maior problema é com o banheiro. Tem gente achando que o banheiro é público e não é capaz nem de pedir. Em função disso colocamos avisos, mas não proibimos ninguém de usar. Pelo menos agora, eles pedem para usar. Em minha opinião, o maior problema é a insegurança de quando escurece, em função do grande movimento de pessoas em situação de rua”, concluiu.

Atualmente, operam em São José as empresas Reunidas, Catarinense, Santo Anjo, Tiquin e Santa Cruz - Daniel Queiroz/ND
Atualmente, operam em São José as empresas Reunidas, Catarinense, Santo Anjo, Tiquin e Santa Cruz - Daniel Queiroz/ND




Prefeitura defende PPP para viabilizar o projeto

O secretário de Planejamento de São José, Rodrigo de Andrade, informou que não há projeto para a construção de uma rodoviária. Ele disse que a única saída, em função da situação econômica dos municípios e do Estado, é a PPP (Parceria Público Privado). Os terrenos mapeados pelo município são de propriedade da iniciativa privada e estão às margens da BR-101, entre os bairros Barreiros e Serraria. O Deter (Departamento de Transportes e Terminais) afirmou que não existe plano para uma nova rodoviária na região.

Rodrigo destaca uma orientação do Plamus (Plano de Mobilidade Urbana e Sustentável da Grande Florianópolis). “O estudo do Plamus indicou que para o bem da mobilidade urbana, a rodoviária deveria ficar fora da Ilha. A situação econômica do poder público em todas as esferas não permite grandes investimentos e a parceria com a iniciativa privada poderia ser a solução. A prefeitura tem interesse de ter uma rodoviária às margens da BR-101 e estamos abertos a propostas, mas o m² da região está cada vez mais elevado”, comentou o secretário.

Um dos terrenos mapeados fica ao lado do cemitério de Barreiros e, por coincidência ou não, é de propriedade da Reunidas. A empresa, que tem a sua sede em Caçador, também manifestou interesse em uma estação ao lado da rodovia federal mais movimentada do Estado. O advogado do Grupo Reunidas, Vinícius Marins, lembrou que a empresa já teve contato com antigos prefeitos de São José.

“Não temos projeto para utilizar o terreno de forma operacional e estamos à disposição do poder público para abrir uma negociação. Já tentamos negociar a área com o município, mas a tratativa não avançou. Uma rodoviária ao lado do cemitério de Barreiros seria o ideal para todas as empresas de transporte rodoviário, porque os ônibus levam mais de uma hora para cruzar a Via Expressa em determinados horários”, afirmou o advogado.

 

“Rita Maria é excelente para a maioria dos usuários”

O chefe de gabinete do Deter, Batista Tonolli Júnior, informou que o município pode construir uma rodoviária, mas precisa pedir as concessões de linhas ao departamento e a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). Tonolli afirmou que a Rodoviária Rita Maria, que foi restaurada recentemente, atende perfeitamente a demanda da região.

“O terminal rodoviário Rita Maria é excelente e atende a maioria dos usuários perfeitamente. Muita gente quer se deslocar ao Centro de Florianópolis e a rodoviária está colada com a ponte, assim não prejudica o trânsito de veículos na Ilha. Não existe projeto para a mudança da rodoviária”, sentenciou.

 

As agências

Reunidas

Horários: de segunda a sexta, das 6h às 20h30min; aos sábados, das 7h às 20h30min; e aos domingos, das 8h às 20h30min;

Destinos: Oeste catarinense, Paraná e Rio Grande do Sul;

Linhas: 15;

Telefone: (48) 3241-2400.

 

Catarinense/Santo Anjo

Horários: de segunda a sábado, das 7h à 19h; aos domingo, das 12h às 19h;

Destinos: Cidades catarinenses/Garopaba;

Linhas: 26/8;

Telefone: (48) 3241-5866.

 

Tiquin/Santa Cruz

Horários: de segunda a sexta, das 9h às 19h; não abre aos finais de semana;

Destinos: Xanxerê, Xaxim, Chapecó e Sarandi (RS)/Santa Cruz (RS), Caxias do Sul (RS), Garibaldi (RS), Montenegro (RS), Santa Maria (RS) e Teutônia (RS);

Linhas: 4/2;

Telefone: (48) 3241-3026.

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