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Domingo, 18 de Novembro de 2018
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Sem cercas ou muros, mata do Hospital de Caridade é protegida pela vizinhança

Na ausência do poder público, moradores dos morros do Mocotó e da Mariquinha ajudam a conter invasões na encosta do maciço central de Florianópolis

Edson Rosa
Florianópolis
Flávio Tin/ND
Mata atrás do Hospital de Caridade

 

Sem cercas, muros, sinalização ou vigilância, os limites da Reserva Particular do Patrimônio Natural Menino Deus, a mata do Hospital de Caridade, são protegidos pelas comunidades do entorno. Quase sempre, sob a tutela do tráfico de drogas. Na prática, quem impede novas invasões são os próprios moradores dos morros do Mocotó e da Mariquinha, originalmente Boa vista e Cristo Redentor, as duas primeiras ocupações habitacionais do trecho mais urbanizado do maciço central de Florianópolis. Legalmente, 16 hectares estão protegidos.

“Convivemos com a realidade da vizinhança. Surpreendentemente, prevalece uma espécie de acordo velado, e desde as tratativas para criação oficial da reserva, em 1998, não houve avanço das áreas ocupadas. Acabaram-se os desmatamentos e a invasões”, garante o conselheiro da Fundação Cultural Senhor Jesus dos Passos e diretor ambiental do Hospital de Caridade, engenheiro agrônomo Ingo Jordan, 76. Na época, lideranças comunitárias do Mocotó condicionaram o “apoio” à manutenção do acesso ao morro pelos fundos do Caridade, no ponto conhecido como Cabeça do Santo.

“Ficou claro que a reserva não daria certo com a cerca”, admite Jordan duas décadas depois. Idealizador do projeto em 1996, o agrônomo defende a preservação da mata como corredor ecológico urbano, integrado a outras áreas florestadas contíguas do Centro, públicas ou privadas. Em especial, com o Parque Natural do Maciço do Morro da Cruz, administrado pela Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis).

“Esta mata é o purificador de ar e o regulador de chuvas da área central. É a moldura natural da cidade, o elo entre o que sobra da natureza original e a urbanidade. Contamos com os moradores para preservá-la, é importante manter a comunidade ao nosso lado”, diz Jordan, constrangido com o rastro deixado por viciados e olheiros do tráfico ao lado de trilhas, troncos e raízes de árvores ou nas pequenas cavernas e fendas entre as pedras.

O desinteresse do poder público e a falta de recursos no orçamento da Fundação Senhor dos Passos, segundo o agrônomo Ingo Jordan, inviabilizam a conservação das trilhas e a implantação do plano de manejo para a reserva voltar a cumprir seu papel social. Para o Estado, a existência da mata é lembrada durante planejamento de operações e incursões policiais no alto do morro, com acesso pela rua Menino Deus e pátio do hospital.

Madeira fornece energia durante dois séculos

Enferrujadas e expostas em um dos cantos do Museu do Caridade, no casarão da Fundação Cultural Senhor Jesus dos Passos, o conjunto de serras de ferro simbolizam o tempo em que a mata era fundamental para funcionamento da estrutura hospitalar durante dois séculos – até início da década de 1970. Lá nos fundos, na encosta acidentada, era retirada lenha para manter acesas as caldeiras da cozinha, da lavanderia e do setor de esterilização.

“O hospital era autossustentável. Havia roças de mandioca, milho e feijão, cafezais, hortaliças e criação de porcos”, completa Ingo Jordan. Grandes áreas vizinhas eram desmatadas ou queimadas para abertura de pastagens para rebanhos bovinos criados na encosta do maciço, onde a água farta, proveniente de nascentes perenes, também estimulou a construção do hospital, em 1765, ao lado da capela erguida pela beata Joana de Gusmão três anos antes.

O nível de conscientização está longe do idealizado por ele, mas 17 anos depois da aprovação da RPPN pelo Ibama (Instituto  Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) Jordan sente-se gratificado ao constatar que as ocupações clandestinas foram contidas, assim como as queimadas e os desmatamentos. “Não há mais crianças com estilingues ou arapucas, o que garante a presença das aves e a dispersão das sementes”, prega.

Visita de escolas é coisa do passado

Já se passaram 14 anos desde a última visita, no fim do ano letivo de 2002. Ocupada basicamente por meninos e meninas do Mocotó e da Mariquinha, morros vizinhos, a Escola de Educação Básica Celso Ramos foi extinta da rede estadual de ensino em 2011 e, de lá para cá, educação ambiental é só mais uma lacuna na trajetória da RPPN do Hospital de Caridade.  Nenhuma outra instituição de ensino, pública ou privada, tem interesse em utilizar, de graça, o imenso laboratório que se regenera a céu aberto, ao lado de um dos mais importantes núcleos do centro histórico da cidade – a ladeira da rua Menino Deus.

“Nem o Instituto [Estadual de Educação], aqui ao pé do morro, manda os alunos para conhecerem a biodiversidade desta mata. Nunca mais veio escola alguma, as crianças fazem muita falta”, lamenta o agrônomo Ingo Jordan, que atualmente vai poucas vezes à trilha escondida em parte pelo capim crescido. Ou pelo rastro de lixo [plástico, vidro e trapos] deixado por viciados e olheiros dos pontos de tráfico de drogas que operam dia e noite nos becos do Mocotó.

Acompanhado de alguém do setor de manutenção, preferencialmente do jovem Renato Stolf Filho, 22, com a foice para reabrir antigos caminhos, Jordan se arrisca a subir somente até a majestosa figueira gameleira, o símbolo da reserva. Cercada de arbustos, a árvore escolhida “rainha” da mata do Caridade espalha imensas raízes sobre rochas de granito, formando “sapatas”, como diz o engenheiro Jordan, que sustentam a copa arredondada a pelo menos 20 metros de altura, imponente entre as demais espécies da encosta não ocupada do maciço. 

Espécies nativas predominam entre as árvores

Há algumas espécies exóticas, como touças de papiro na entrada da floresta, mas predominam coqueiros jerivá, pitangueiras, ameixeiras, cafeeiros e outras frutíferas remanescentes de antigas chácaras nas áreas menos acidentadas da encosta. Exemplares de garapuvu, cedro, embaúba, camboatá e maria-mole parecem proteger raríssimas canelas pretas e perobas, madeiras de lei praticamente extintas das mata original da Ilha.

“Temos trechos de capoeira, ao lado de outros de capoeirão, e mata em segundo estágio de regeneração.”, explica Ingo Jordan. Sem recursos para plantio de mudas e implantação do plano de manejo, o reflorestamento ocorre de forma natural, com dispersão das sementes pelo vento e, principalmente, pelas aves.

Da fauna silvestre, aliás, só elas sobrevivem no morro urbanizado, já que os mamíferos foram escorraçados pelos cães da vizinhança, fenômeno oposto ao que ocorre com os saguis invasores. “São uma praga, comem ovos e filhotes de pássaros. E, como os pinus e as casuarinas, já chegaram à cidade”, confirma Jordan.

RPPN MENINO DEUS 

Área: 16 hectares

Localização: Maciço central do Morro da Cruz, Florianópolis

Proprietários: Irmandade Senhor Jesus dos Passos/Imperial Hospital de Caridade

Início do processo: 1996

Criaçãooficial: 1999

Características

Abriga remanescente da imponente floresta urbana de Florianópolis, parcialmente em estágio avançado de regeneração (sucessão natural ecológica), constituída por remanescentes nativos da mata atlântica na área central da cidade, junto ao Hospital de Caridade, no maciço do Morro da Cruz.

É conhecida como “mata do Caridade”, e se constitui em importantes área de ocorrência de Floresta Ombrófila Densa ainda preservada no centro histórico da Ilha de Santa Catarina, vizinha a trechos ainda florestados do maciço abrangidos pelo Parque Natural Urbano do Morro da Cruz – criado pela Lei Municipal 6893/2005.

Apresenta relevante interesse pela sua biodiversidade e por localizar-se em APP com alta declividade e abrigar diversas nascentes.

Durante mais de século, a área foi de grande importância para manutenção dos serviços do Hospital de Caridade, fornecendo lenha para suas caldeiras e fogões.

Lá também eram produzidos insumos para alimentação de pacientes e funcionários, como  hortaliças, frutas, café, leite, suíno, além da pureza do ar e da vista privilegiada. 

Telefones: (48) 3221-7550 ou 3221-7500

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