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Sem liderança ou pauta definida, grupo mantém bloqueio à base da Petrobras em Biguaçu

Manifestantes dizem que movimento que assinou acordo com presidente não representa anseios da população; Polícia Militar anuncia liminar para desbloqueio, mas diz não querer usar a força

Fábio Bispo
Florianópolis
29/05/2018 às 11H07

O canal de comunicação deles é o WhatsApp. Nas informações que circulam pelos grupos de bate-papo e que pedem desde a intervenção militar, a saída de Michel Temer e a redução do preço da gasolina, o recado de que não há acordo entre os caminhoneiros para o fim da greve se repete constantemente: “Seria frustrante se parássemos o movimento agora. Porque se fosse só os caminhoneiros esse movimento não teria crescido tanto. A população não teve vantagem nenhuma com essas negociações”, reclama o caminhoneiro João Lopes, 50 anos, destacado como um dos líderes do bloqueio em frente à base da Petrobras, em Biguaçu, de onde desde o dia 22 de maio não saem caminhões de combustível, salvo raras exceções sob escolta da polícia.

Bloqueio à base da Petrobras em Biguaçu - Flávio Tin/ND
Grupo mantêm bloqueio à base da Petrobras em Biguaçu - Flávio Tin/ND

O anúncio de Temer, na noite de domingo (27), em acordo assinado com a ABCam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros) e que resultou na edição de três medidas provisórias para redução do preço do óleo diesel por 60 dias, a não cobrança do pedágio para eixo suspenso e tabela mínima para o frete, aos poucos dá sinais de desmobilização da greve que parou o país. Dos 1.200 pontos de bloqueios nas estradas divulgados na sexta-feira (25), restavam 556 nesta segunda-feira (28), informou a PRF (Polícia Rodoviária Federal).

Mas o movimento que no início estava unido em torno da causa dos caminhoneiros extrapolou os limites das reivindicações de classe. Ao longo de uma semana de desabastecimento total, e da multiplicação dos grupos de WhatsApp, surgiram novas demandas. A pauta objetiva, negociada e renegociada no Planalto, no fim das contas não atendia toda a população. “E a gasolina, não vai baixar?”, reivindica um membro do grupo Revolução Brasil, organizado por caminhoneiros e apoiadores em Santa Catarina.

Os resistentes dizem que a ABCam não os representa. E as reivindicações já não são mais tão objetivas. “Intervenção militar”, estampa a faixa pendurada em um dos caminhões em frente ao bloqueio de Biguaçu. “Nós queremos é o fim desse governo político”, gritou outro manifestante.

 

Manifestação em Biguaçu  - Flávio Tin/ND
Manifestação dos caminhoneiros em Biguaçu - Flávio Tin/ND


O caminhoneiro João Lopes tentou manter a coerência: “Nossa reivindicação sempre foi pela política de preços da Petrobras. Os 46 centavos no diesel é migalha”. Questionado sobre quais lideranças poderiam negociar as novas reivindicações, Lopes se apressa em repetir que “esses que fizeram o acordo não nos representam”, e emenda: “Não sei que entidade vai se sobressair em uma liderança nacional, mas espere que vai surgir”. Ele não soube explicar ao certo como pretendem ver seus pleitos atendidos pelo governo federal.

Comando da PM anuncia liminar que não veio

Manifestação em Biguaçu  - Flávio Tin/ND
Para os caminhoneiros, a ida do comando da PM até o local soou como um blefe para tentar a liberação de combustível - Flávio Tin/ND

Passava das 15h quando o comandante da 1ª Região da Polícia Militar, coronel Renato Cruz Júnior, chegou ao ponto da manifestação, exatamente na bifurcação que bloqueia ao mesmo tempo a entrada da Petrobras e o acesso à cidade de Antônio Carlos, maior produtora de hortaliças do Estado. Acompanhado de dois policiais, o comandante trazia a informação de que uma liminar para a liberação de 30 caminhões de combustíveis estaria na iminência de ser emitida. “Eu vim aqui para tratar a questão de forma pacífica e evitar que tenha que ser usada a força policial”, disse.

Cruz Júnior explicou ainda que, se quisessem, os manifestantes poderiam tentar recorrer da decisão. Mas o movimento não cedeu aos apelos. “Se vocês vierem com a força terão que chamar muito mais policiais, porque se levarem um terão que levar todos”, retrucou um dos manifestantes. Na sequência, o comandante participou de uma reunião reservada com as lideranças.

Depois de uma hora e meia de conversa, o coronel tomou café com os manifestantes. Momento que eles aproveitaram para agradecer os empresários da região que colaboram com o acampamento, citando donos de supermercados da região e de lojas que têm apoiado com suprimentos.

Antes de deixar o local, o comandante reforçou à reportagem que o contato tinha objetivo de abrir o diálogo e disse desconhecer o conteúdo da liminar anunciada no início da tarde. “Eu não sei se já há essa liminar, mas se ela sair nós teremos que cumprir, mas não queremos ter que usar a força. O movimento é pacífico”, declarou deixando o local sem nenhuma alteração da situação. Para os caminhoneiros, a ida do comando da PM até o local soou como um blefe para tentar a liberação de combustível, que acabou não ocorrendo. Florianópolis e as cidades da região continuam sem combustíveis.

Vice-prefeito de Biguaçu procura movimento

No fim da tarde desta segunda-feira (28), o vice-prefeito de Biguaçu, Vilson Norberto Alves (PP), esteve no local e perguntou aos manifestantes como o município poderia conseguir um pouco de combustível para “algumas máquinas”. E foi indicado a fazer um pedido formal. “Nós apoiamos o movimento e temos combustível até semana que vem, mas se eventualmente precisarmos queríamos saber como fazer”, disse.

Por volta das 19h, por meio de nota oficial publicada no site, a Prefeitura de Biguaçu decretou estado de emergência. As aulas no município estão suspensas e o município informou que há desabastecimento de alimentação para os alunos.

Greve dos caminhoneiros em Biguaçu  - Flávio Tin/ND
Florianópolis e as cidades da região continuam sem combustíveis - Flávio Tin/ND



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