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Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018
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Selecionado pela ONU, procurador do Tribunal de Justiça vai a Genebra para trabalho voluntário

Entre os dias 12 de janeiro e 10 de abril, Ezequiel Pires, procurador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, acompanhará as sessões da ONU na Suíça e poderá colaborar com trabalhos de direitos humanos

Rafael Thomé
Florianópolis
Divulgação
Ezequiel Pires, com a mulher Leandra e os filhos Caroline e Fernando


Um voo transatlântico na noite de Réveillon colocará Santa Catarina na rota internacional dos direitos humanos. No primeiro trimestre de 2015, a Missão Permanente do Brasil junto à ONU (Organização das Nações Unidas) e outros organismos internacionais em Genebra (Delbrasgen) ganhará o reforço do procurador do TJ (Tribunal de Justiça) de Santa Catarina, Ezequiel Pires, 50 anos. Selecionado com mais quatro brasileiros para o programa de formação complementar, o jurista irá com a família à Suíça para um serviço voluntário entre os dias 12 de janeiro e 10 de abril. 

Em território europeu, Pires terá a oportunidade de acompanhar debates internacionais e colaborar com os trabalhos nas áreas de migrações e refugiados, entre outros temas humanitários. “A expectativa é grande. Vou acompanhar os diplomatas e embaixadores nas sessões da ONU e nos organismos internacionais em Genebra, e vejo que a grande lição será aprender as boas práticas adotadas em relação a estrangeiros e ao trabalho, como a erradicação do trabalho infantil e análogo à escravidão”, disse.

Para fazer parte da equipe de brasileiros na Suíça, o procurador precisou ser aprovado em um concorrido processo de seleção que exigia pleno domínio da língua inglesa, recomendação de autoridades do país e conhecimento na área de atuação. “Como sou da área do direito, vou focar mais em direitos humanos, refugiados e imigrantes”, explicou. 

Vindo de uma família tradicional de Joaçaba, filho de farmacêutico, Pires já teve outras experiências com voluntariado, quando contou com a colaboração da mulher, Leandra Bündchen, e dos três filhos. “Fiz trabalho comunitário duas vezes no País de Gales, em 2007 e 2009. Minha mulher é musicista e meus filhos também tocam instrumentos, então nos apresentamos em asilos, igrejas e escolas”, disse.

Leandra ainda se emociona ao recordar a experiência. “Às vezes, tem-se recurso financeiro, mas a família não apoia. Vimos a carência emocional das pessoas, então tocamos, cantamos, fizemos teatro e pudemos dar aquilo que temos”, comentou. 

Réveillon em pleno voo com a família 

O início do projeto, em 12 de janeiro, coincide com o aniversário de 51 anos do procurador Ezequiel Pires, e a mulher e os três filhos também já estão com as passagens compradas para soprar as velas em território europeu na data especial. A família Pires embarca para a Suíça na noite do dia 31 de dezembro, fato que também causa certa curiosidade. “Será uma experiência ímpar. Nunca me aconteceu de passar uma virada de ano assim, mas faz parte de toda essa missão”, avaliou o procurador. 

Preparada para o inverno rigoroso do hemisfério norte, a filha Caroline, 17 anos, aguarda ansiosamente a oportunidade de conhecer uma cidade tão cosmopolita como Genebra, que conta com moradores de 188 nacionalidades. “Sei que lá teremos muita neve, mas não tenho muita noção (da cidade). É uma cultura e um jeito de viver completamente diferentes do Brasil”, disse.

Ela ainda não se acostumou com a ideia de dar boas vindas a 2015 dentro de um avião. “Será diferente dos outros anos. Provavelmente o piloto desejará feliz ano novo”, comentou. 

O pequeno Fernando, 4, também estará presente, assim como o primogênito, Ezequiel Pires Júnior, 19. A mulher Leandra reconhece o valor de unir a família em uma viagem tão importante como essa e comemora a oportunidade proporcionada pelo marido. “O trabalho voluntário é uma experiência indescritível, assim como morar fora do país. É primordial a família estar junto nesse processo que enriquece muito a vida”, disse. 

Protagonismo brasileiro no trabalho com refugiados e imigrantes 

“A ONU presta um papel fundamental, e a palavra mais importante no momento é o ‘multilateralismo’”. O conceito citado pelo procurador Ezequiel Pires é um dos pontos de aprimoramento do órgão que representa o conjunto de países do planeta, mas que tem apenas cinco nações como membros permanentes do Conselho de Segurança. “O mundo tem que deixar de estar centrado na hegemonia de Estados Unidos, China, Rússia, Inglaterra e França, para que países como o Brasil tenham seu espaço”, disse. 

Há um projeto de mudança na cúpula da organização encabeçado por Alemanha, Japão, Índia e Brasil, mas o gigante sul-americano já é protagonista em instâncias como a Agência da ONU para Refugiados. “Somos referência em termos de acolhimento. Temos mais de 5.000 refugiados no país, além de termos um reconhecimento muito grande pela atuação no Haiti e no Timor Leste”, disse o jurista. 

Em Santa Catarina, uma onda migratória de haitianos se fez presente recentemente, escancarando a necessidade de uma política pública inclusiva. “O Estado não está muito bem aparelhado, apesar de ter sido formado por imigrantes europeus. Agora, temos novos imigrantes e eles têm sido bem recepcionados. O estranho gera um pouco de desconforto e desconfiança, mas me parece que eles vêm com vontade de trabalhar”, analisou. 

Combate à corrupção 

Os recentes escândalos de corrupção que tomaram conta dos noticiários nos últimos meses também não passam batido pelo procurador Ezequiel Pires. As diversas denúncias no âmbito nacional e a crise instaurada na Câmara de Vereadores de Florianópolis são motivos de preocupação para os cidadãos e, em especial, para os juristas do país.

Procurador de Santa Catarina há 20 anos, com passagens pela Procuradoria do Estado em Brasília, Pires foi licenciado das funções para se dedicar ao programa de voluntários da ONU, mas nem por isso deixa de pensar no trabalho que realiza cotidianamente no exercício da profissão. 

Durante a estadia na Suíça e o acompanhamento dos trabalhos de diversos órgãos internacionais, o procurador espera adquirir conhecimento para aprimorar sua atuação no Tribunal de Justiça de Santa Catarina. “Terei como lição, também, as boas práticas contra a corrupção. Esse é um mal que está afetando o Brasil de uma forma muito grande. O procurador faz um controle interno da legalidade dos atos da administração, então espero que lá eu tenha oportunidades de aprimorar isso”, finalizou­.

Atuação da Missão Permanente em Genebra

O que são as missões?

Membro fundador da ONU, o Brasil participa dos processos de tomada de decisão e dos trabalhos da entidade por meio de representações permanentes nas cidades de Nova York (Estados Unidos), Genebra (Suíça), Paris (França) e Roma (Itália). A função das missões brasileiras é acompanhar de perto a agenda internacional, ter informações mais específicas sobre os trabalhos e ampliar a participação do país no funcionamento do organismo ao marcar posição sobre os grandes temas debatidos.

Como se estrutura uma missão?

No segundo maior escritório da ONU, em Genebra, a Missão Permanente (Delbrasgen) conta com cerca de 30 pessoas e é chefiada pela embaixadora Regina Maria Cordeiro Dunlop. Todos os anos a equipe conta com o reforço de voluntários como o procurador Ezequiel Pires – selecionados pelo Programa de Formação Complementar – e os esforços se voltam, fundamentalmente, para os trabalhos relativos à África, ao Oriente Médio e à Ásia, com ênfase nos problemas migratórios e com refugiados.

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