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Quarta-Feira, 21 de Novembro de 2018
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Sedentarismo mata 5,3 milhões de pessoas por ano em todo o mundo

Educadores físicos de Florianópolis ensinam que o corpo foi criado para se movimentar

Redação ND
Florianópolis

GIOVANA KINDLEIN
Especial para o Notícias do Dia
@gikindlein

Rosane Lima/ND
Há um mês na academia, Glaucia Coutinho da Silva está feliz com os resultados iniciais 


Gláucia Coutinho da Silva está experimentando um mundo novo. Com seu esforço, as calças começam a se ajustar aos quadris, os botões de suas camisas já não ficam mais esgaçados e ela se sente muito confortável e feliz com os primeiros resultados após um mês de atividade física na academia. Ela paga para ter saúde. Na luta contra o sedentarismo, a artesã de 38 anos deixou de fazer parte do grupo de mulheres que não praticam exercício físico ou esporte. Um levantamento do Ministério da Saúde sobre vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas, divulgado em abril último, revela que apenas 22,4% das brasileiras se exercitavam regularmente. 

Pouca coisa mudou desde a última PNAD, pesquisa nacional por amostra de domicílios, realizada pelo IBGE em 2008, mostrando que 56% das brasileiras não praticavam atividade física, pelo menos, nos três últimos meses. A preocupação de Gláucia, a mais nova ex-sedentária, não se restringe apenas à aparência, mas é voltada principalmente à saúde. “Eu prefiro mil vezes pagar por atividade física do que mais tarde gastar com medicamentos”, diz.

A convicção da artesã se alinha ao resultado de um estudo divulgado há poucos dias pela revista médica britânica Lancet, apontando a falta de atividade física como responsável pela morte de 5,3 milhões de pessoas por ano em todo o mundo. Os pesquisadores, entre eles o gaúcho Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas, dizem que uma em cada dez mortes por doenças cardíacas, diabetes e câncer de mama e do cólon tem a ver com a inatividade física.

Para Ilnei Pereira Filho, cardiologista e diretor da Associação Catarinense de Medicina, não é novidade que o sedentarismo esteja relacionado como um dos fatores principais de risco para doenças coronarianas. Embora não existam números exatos de pessoas com sobrepeso e obesas em Florianópolis, calcula-se que aproximadamente de 20% a 30% da população estejam nesta faixa. “Embora Florianópolis tenha sido considerada a capital campeã em atividade física”, observa.

Quase metade dos brasileiros está acima do peso

Levantamento divulgado em maio pelo Ministério da Saúde revela que a proporção de pessoas acima do peso no Brasil avançou de 42,7%, em 2006, para 48,5%, em 2011. “A obesidade é, sem dúvida, a maior causa de doenças isquêmicas do coração, como infarto, angina, trombose e embolia”, diz Ilnei Pereira Filho, cardiologista e diretor da Associação Catarinense de Medicina.

Para induzir o aumento da prática da atividade física na população, o Ministério da Saúde vai aplicar R$ 8,48 milhões em academias de saúde em 20 Estados. O Programa Academia da Saúde está previsto no Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis.

Serão construídas 78 novas academias da saúde em 63 municípios de 20 Estados. Em Santa Catarina, a única cidade onde serão aplicados recursos de R$ 180 mil é Faxinal dos Guedes, no Oeste, a 520 quilômetros de Florianópolis. Sua população é de 10.661 habitantes.

Fugindo do efeito sanfona

Não é fácil enfrentar o sedentarismo no dia a dia. Gláucia Coutinho da Silva bem sabe disso porque ela é daquelas que engordam, emagrecem, engordam, emagrecem. Sujeita ao efeito sanfona, fenômeno conhecido de perder e ganhar peso repetidas vezes, a artesã muda de comportamento cada vez que engorda. “Fico desanimada, a roupa não entra, e a auto-estima cai”, conta.

A disciplina da academia a ajuda a combater a preguiça e a praticar atividade física. “A gente percebe que é necessário”, observa ela que tem tendinite e trabalha em casa oito horas por dia. O marido Ricardo Pereira, 42 anos, que trabalha no setor turístico, mas sem tempo para acompanhá-la, a incentiva. 

Desde o dia 15 de junho, Gláucia vai à academia três vezes por semana, mantém exercícios e alongamentos com um personal trainer. “Além da mudança de humor e da melhora geral, vejo o resultado no espelho”, diz contente, e complementa: “Fazemos novas amizades, trocamos ideias, trabalhamos, além do corpo, a mente”.

Rosane Lima/ND
Cristiane Centeno e Michel Vilche, educadores físicos da academia I9, no Norte da Ilha

Mente sã, corpo são

Existe uma tendência hoje que leva as pessoas a pensarem na atividade física como se fosse culto à beleza. O educador físico e técnico de corrida e triatlo da I9 Assessoria Esportiva, o gaúcho Michel Vilche, 39 anos, derruba esse pressuposto. “É importante saber que nosso corpo sofre alterações metabólicas e fisiológicas associadas à ausência de atividade física”, diz. Dependendo das condições neuromusculares, segundo ele, o corpo começa a perder valência física.

Vilche lembra que o Brasil tem um percentual de 14,1% de sedentários e que quase a metade de toda a população brasileira está acima do peso. “O sedentarismo, o estilo de vida sem a prática de exercícios, não modifica apenas a aparência, mas influi diretamente na condição de saúde física e mental da pessoa”, diz.  Segundo ele, a falta de atividade física ao longo do tempo, provoca a perda da condição cardiorrespiratória, da flexibilidade, da coordenação motora e também do equilíbrio.

O educador físico indica os primeiros passos para deixar de lado a vida sedentária, como pequenas mudanças na rotina que incluam o trabalho físico na realização de atividades diárias simples. “A rotina mal administrada não é um bom hábito, mas a rotina bem administrada pode desenvolver um bom hábito. Saiu de casa a pé, em vez de pegar o carro, gerou uma rotina boa”, exemplifica.

Panorama do IBGE aponta características

Levantamento feito há quatro anos pelo IBGE apresenta dados por amostragem quanto à mobilidade e fatores de risco e proteção à saúde. O relatório apresenta um panorama e dá uma visão geral sobre as características de saúde da população brasileira.

De acordo com a pesquisa, foram observadas que 28,2 milhões de pessoas, cerca de 20% da população, com 14 anos ou mais de idade, não realizavam nenhuma atividade física. Por outro lado, há registro de que, dos 91 milhões de trabalhadores no Brasil em 2008, mais de 1/3, em torno de 30,6 milhões, ia para o trabalho a pé ou de bicicleta. No Sul do Brasil, o grupo de pessoas que costumavam ir a pé ou de bicicleta para o trabalho, com quatro a sete anos de estudo, representavam 31,8% do total e 31,5% tinham mais de 11 anos de estudos.

Ainda, segundo o relatório, 49,7% das pessoas no Sul que praticam atividade física o fazem apenas uma ou duas vezes por semana, com duração diária de 20 minutos ou mais. Entre as modalidades relacionadas estavam futebol, caminhada, corrida, ginástica aeróbica, basquete e tênis.

Atividade física como estilo de vida

Superativa, a professora de educação física e personal trainer Cristiane Centeno, a Cris, 34, pratica atividade física desde os 15 anos. “Sempre fui uma aluna viciada em malhar”, diz. Tanto que o prazer pelos treinamentos a levou a decidir pela faculdade de educação física. Junto com outras três amigas investiu no curso dos 18 aos 24 anos. “Elas me motivaram a seguir nesta profissão”.

Desde então, nunca parou. Hoje, passados 19 anos, Cris vive feliz como professora de academia. “Vejo que o corpo foi criado para o movimento. Se não mexer, enferruja”, considera. Sabe que as futuras limitações do corpo irão aparecer com o passar do tempo, mas permanece na firmeza: “Principalmente quando envelhecemos, vamos sentindo essas reduções, mas pretendo praticar atividade física por toda a minha vida”.

Prescrevendo saúde na empresa

Os malefícios do sedentarismo e do tabagismo já preocupam as empresas. Exemplo de iniciativa bem-sucedida foi o trabalho de conscientização do médico pneumologista Camilo Faoro no Grupo RIC em Curitiba. Em três meses, 65% dos funcionários que participaram das palestras e do tratamento oferecido pela empresa deixaram de fumar e começaram a praticar atividades físicas.

Segundo Faoro, que é coordenador do Ambulatório de Cessação de Tabagismo do Hospital das Clínicas, o sucesso depende do grau de motivação e dependência de cada um. “É possível parar de fumar e mudar os hábitos a qualquer tempo da vida”, diz. Os funcionários foram convidados a participar do programa sem qualquer obrigatoriedade. Eles trocaram o mau hábito de fumar pelo bom hábito de fazer atividade física.

MOBILIDADE FÍSICA
Levantamento do IBGE em 2008

- Prática de exercício físico ou esporte por pessoas de 14 anos de idade ou mais

Praticaram

Brasil

Homens
59,6%

Mulheres
40,4%

Grupo que mais praticou
14 a 17 anos    18,1%

Grupo que menos praticou
60 a 64 anos    3,3%

Sul

Homens
55,2%

Mulheres
44,8%

Grupo que mais praticou
14 a 17 anos    17,2%

Grupo que menos praticou
60 a 64 anos    3,8%

Não praticaram

Brasil

Homens
43,6%

Mulheres
56,4%

Sul

Homens
44,7%

Mulheres
55,3%

Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2008        

LIÇÃO DE CASA

- Faça 150 minutos de exercícios moderados distribuídos ao longo de toda a semana

- Os exercícios podem ser feitos em forma de caminhadas, ciclismo e até da jardinagem

- Para promover a atividade física é preciso uma mudança de mentalidade

- Lembre dos benefícios da prática de esportes, mas principalmente fique atento aos riscos da inatividade

- Prefira as escadas ao elevador

- Dê um passeio com os filhos em espaços verdes

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