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Rua Bocaiúva, no Centro de Florianópolis, passará por revitalização até o fim de 2015

Projeto coordenado pelo Sebrae/SC prevê novo centro de compras e de gastronomia para uma das principais vias da Capital

Felipe Alves
Florianópolis
Flavio Tin/ND
Com 820 metros de extensão, rua Bocaiúva é uma das principais da Capital


A exemplo da revitalização na rua Vidal Ramos, há dois anos, a rua Bocaiúva, uma das mais tradicionais do Centro de Florianópolis, também passará por grandes mudanças. O objetivo é consolidar a via como um centro de compras e gastronomia, com padronização das fachadas, capacitação de profissionais, aprimoramento de gestão interna dos comércios e a promoção da rua, com eventos específicos para atrair o público. A previsão é de que até dezembro de 2015 a tradicional rua tenha atrativos diferenciados para quem mora e visita a Bocaiúva.

Cerca de 50 lojistas participam do processo de revitalização junto ao Sebrae/SC (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), idealizador do projeto. Em paralelo, outras três ruas do Centro também começam a ter seus projetos desenvolvidos: João Pinto, Jerônimo Coelho e Conselheiro Mafra. “Teremos lojas mais atrativas, articulação com empresários e prefeitura para que haja mudanças estruturais nas ruas, agregando alterações paisagísticas, melhoria de fluxo de pessoas, movimento nas empresas, aumento de faturamento e maior segurança na região”, explica Alan Claumann, coordenador estadual dos projetos de revitalização de espaços comerciais em Santa Catarina do Sebrae.

O processo de pensar a revitalização da rua Bocaiúva começou em 2013, com a consulta aos comerciantes e as primeiras reuniões para discutir o processo. Desde então, iniciou-se uma série de capacitações, consultorias e diagnósticos de cada empresa buscando consolidar os espaços como centros de compras de qualidade.

Em parceria com prefeitura, CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) e Beiramar Shopping, um comitê gestor foi criado para discutir todos os detalhes das mudanças. O investimento para a revitalização ficará em torno de R$ 1 milhão. “A Bocaiúva é uma rua mais contemporânea do que outras, como a Jerônimo Coelho, por exemplo. Trabalharemos dentro deste contexto, pois cada rua tem sua particularidade”, diz Claumann.

Como a Bocaiúva é uma rua de grande fluxo de veículos, as alterações estruturais estão sendo discutidas com a prefeitura, como as modificações das calçadas, a permanência das ciclovias, alteração nas fiações, entre outros. Além do shopping, concentram-se na Bocaiúva comércios dos segmentos de gastronomia, roupas, calçados e hotéis. As mudanças estruturais da rua começarão a ser discutidas no meio deste mês com os lojistas e com os participantes do comitê gestor do projeto.

União de comerciantes e mais segurança

Proprietários e gerentes dos comércios da rua Bocaiúva participam, desde a semana passada, de cursos de gestão e atendimento oferecidos pelo Sebrae, com o objetivo de padronizar o atendimento. Juliana Sales, 35 anos, é sócia-proprietária do restaurante Outback Steakhouse, no Beiramar Shopping, e aprovou a ideia. “O Sebrae fez um levantamento do atendimento de todos os comércios locais. Nesse sentido, já estamos bem dentro do que o projeto visa. A vantagem será, além da união dos comerciantes, a melhoria da segurança na região”, avalia. Além de Juliana, um gerente do restaurante participará dos cursos para, posteriormente, dividir as experiências com outros gerentes e coordenadores da empresa.

Luiz Neto, 35, também é dono de um comércio na rua Bocaiúva. Em parceria com outros dois sócios, ele comanda o Yaah Cozinha Oriental há seis anos. Luiz Neto aderiu ao projeto de revitalização e aprova a ideia de mais integração entre os comerciantes locais. “Hoje em dia cada um trabalha por si, acho importante esta união de todos”, afirma.

Comércio tradicional do Centro de Florianópolis, a Macarronada Italiana está na região da Bocaiúva há 35 anos. O diretor Ezio Librizzi, 60, também considera positiva a revitalização, mas tem receios. “Tenho medo, mas nada melhor do que nos unirmos. Para mim o principal e mais importante é a ampliação das calçadas, a fiação subterrânea e a retirada de postes. Mas também quanto melhor a rua, mais caro será para alugar um espaço aqui”, analisa.

Brincadeiras na rua e jogos no Adolfo Konder

Em mais de seis décadas, o barbeiro Jurandir Vargas, 68 anos, acompanhou as mudanças ocorridas na rua Bocaiúva. Do pouco fluxo de carros e pessoas ao movimento intenso, das brincadeiras no antigo estádio do Avaí, o Adolfo Konder, à construção do shopping, e da rua pacata ao surgimento de prédios, casas, restaurantes e comércios.

Vargas nasceu, se criou e ainda vive na região da rua Bocaiúva, desde que o local tinha o nome de Praia de Fora. A infância e adolescência foram marcadas pelas brincadeiras com os amigos e os 12 irmãos nas ruas de chão batido, com o banho de mar e a pescaria no que hoje é a avenida Beira-Mar Norte e com a torcida diária aos jogadores do Avaí no estádio Adolfo Konder, palco de grande jogos entre 1929 e 1983, e onde hoje está o shopping.

“A gente andava à vontade pela rua, não tinha medo de nada, era mais seguro e sem carros”, lembra. Na recordação de Vargas, a rua Bocaiúva das décadas de 1940 e 1950 era uma via tranquila, com poucas casas, comércios e prédios, e repleta de árvores de amora, ameixa e banana, das quais ele e os amigos adoravam pegar algumas frutas.

Vargas aprendeu a profissão com o pai, em uma barbearia na rua Demétrio Ribeiro,e há 40 anos abriu a Barbearia Vargas, na Bocaiúva, que funciona até hoje sob o comando de seu filho, Rafael. É um dos comércios mais antigos da rua ainda em atividade. Sobre as modificações previstas para a rua em que se criou, Vargas nada ouviu falar, mas é receoso. Diz que já ouviu promessas de mudanças muitas vezes, “mas até agora nada”.

Casas de costas para o mar

Quando Nossa Senhora do Desterro começou a ser povoada no fim do século 17, a Bocaiúva era a rua da Praia de Fora, o mesmo nome que recebia o bairro na época, onde hoje fica o Centro de Florianópolis. Com a criação do Largo São Sebastião e a construção da igreja de São Sebastião, ao lado do colégio Menino Jesus, a via era chamada popularmente de “rua São Sebastião”. Mas, de acordo com o historiador Nereu do Valle Pereira, esta nunca foi a denominação oficial da atual Bocaiúva.

Com a proclamação da República em 1889, cidades e ruas do Brasil começaram a mudar de nome para homenagear personagens importantes no processo de queda da monarquia brasileira. Desta forma, Desterro virou Florianópolis (1894), e a rua da Praia de Fora virou Bocaiúva três anos depois. O nome foi concebido em homenagem ao político e jornalista Quintino Antônio Ferreira de Sousa Bocaiúva, único civil que cavalgou ao lado de Benjamin Constant e do marechal Deodoro da Fonseca ao quartel-general do Exército na manhã de 15 de novembro de 1889.

O local era pacato, frequentado pela elite da cidade. No início do século 20, alguns dos poucos carros que circulavam pelo bairro eram de posse de médicos, advogados, empresários e deputados. “Ainda sem a avenida Beira-Mar Norte, as casas ficavam de frente para a rua e de costas para o mar. Alguns tinham pequenos trapiches e barcos que atracavam diretamente no mar”, explica o historiador. 

O exemplo da Vidal Ramos

O mesmo processo de revitalização da rua Vidal Ramos também foi implementado em outras ruas do país em parceria com o Sebrae. Em Santa Catarina, há projetos em Balneário Camboriú, Blumenau, Chapecó, Itajaí, Itapema, Lages e Porto Belo. “Para os lojistas a vantagem é ter uma perspectiva de aumento de fluxo de pessoas, de vendas e faturamento, além de ter um lugar de convivência melhor para seus clientes. Para a sociedade, ficará um local mais aprazível, de lazer, com mais segurança”, diz Alan Claumann, do Sebrae/SC.

O conceito de “shopping a céu aberto” foi usado para a revitalização da Vidal Ramos, lançada em 15 de março de 2012 em parceria do Sebrae com a Acif (Associação Comercial e Industrial de Florianópolis). Entre as mudanças, houve troca do calçamento, drenagem do esgoto, padronização das fachadas de 56 pontos comerciais, instalação de bancos, floreiras e lixeiras, além dos cursos de capacitação e gestão para os comerciantes. O projeto levou três anos para ser executado e custou cerca de R$ 700 mil.

Dois anos depois, a presidente da Associação da Vidal Ramos, Rose Macedo Coelho, 51 anos, que esteve à frente de todo o processo ao lado dos lojistas, se diz satisfeita com a continuidade da manutenção da rua e dos eventos promovidos desde então. “A rua ganhou um conceito novo, mas as pessoas dentro das lojas não estavam preparadas. Por isso, recebemos também cursos de capacitação e metodologia de atendimento, coaching e avaliações de mercado”, explica.

Os eventos promovidos pelos lojistas também foi um diferencial que surgiu com a criação do Vidal Ramos Open Shopping. Este ano, será realizada a 3ª edição do Vidal Fashion Day, um desfile a céu aberto de peças comercializadas pelos lojistas. “Estamos em um nível em que concorremos comercialmente com os shoppings, atraindo muitas pessoas. O melhor é ver que o projeto não foi feito para ser concluído e esquecido, mas que continua a ser um ‘case’ de sucesso”, diz Rose.

A RUA BOCAIÚVA

- Paralela à avenida Beira-Mar Norte, a rua Bocaiúva recebeu este nome em 1897, três anos após Desterro virar Florianópolis, em homenagem ao jornalista e político fluminense Quintino Bocaiúva. Antes, chamava-se rua da Praia de Fora e era popularmente conhecida como rua São Sebastião.

- Inicialmente residencial e com chácaras de famílias da classe alta de Desterro, com o passar dos anos a rua ganhou ares contemporâneos com a instalação de hotéis e restaurantes, diferente de ruas históricas do Centro, como a Jerônimo Coelho.

- Com 820 metros de extensão, a rua começa no cruzamento com a avenida Mauro Ramos e vai até a esquina da rua Esteves Júnior. É uma das vias residenciais e comerciais mais nobres da cidade.

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