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Restauração da ponte Hercílio Luz avança, mas obras no entorno seguem em fase de projetos

Como o governo do Estado mantém o prazo para recuperar a primeira ligação entre a Ilha e o Continente até dezembro de 2018, a falta de obras de acesso chama a atenção dos especialistas

Michael Gonçalves
Florianópolis
24/04/2018 às 07H55

O governo do Estado ainda não confirmou, mas dificilmente a restauração da ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, será concluída em dezembro. Enquanto isso a data divulgada é o fim do ano, mas as obras de acesso para a primeira ligação entre a Ilha e o Continente não saem do papel. O projeto para a utilização da ponte metálica e dos acessos é elaborado pelo Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis) com a colaboração da Suderf (Superintendência de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Florianópolis). A ideia inicial é utilizar a estrutura para o deslocamento de pedestres e ciclistas nos primeiros meses. A divulgação deve ocorrer a partir do dia 13 de maio.

Um dos principais desafios de mobilidade é o acesso/saída na cabeceira isular, que fica em frente ao Parque da Luz - Flávio Tin/ND
Um dos principais desafios de mobilidade é o acesso/saída na cabeceira isular, que fica em frente ao Parque da Luz - Flávio Tin/ND



O diretor da região metropolitana do Ipuf, o arquiteto e urbanista Michel Mittmann, informou que os projetos estão sendo finalizados. “Muitos são de conectividade e estão previstas ações voltadas para pedestres e ciclistas, muitos de pintura, que independem até de grandes financiamentos. Existem outros projetos para o transporte coletivo que envolvem a criação de corredores exclusivos para ônibus. Estamos com vários projetos e estudando as suas eficiências para saber qual será executado primeiro”, explicou.

Mittmann afirmou que existem recursos da Caixa Econômica Federal, de pequena monta, e o prefeito Gean Loureiro (PMDB) também prometeu alocar mais verbas. O diretor do Ipuf contou que inicialmente as obras serão mais simples, como a aplicação dos programas para dar mais espaço para os pedestres nas calçadas e também para os ciclistas.

“Inicialmente, a ponte Hercílio Luz deve ser utilizada para pedestres e ciclistas e teremos gatilhos para implementar o transporte coletivo. O observatório de mobilidade da UFSC [Universidade Federal de Santa Catarina] deve fazer este monitoramento e quando cair o número de pessoas utilizando a estrutura daremos início às primeiras linhas do transporte coletivo. Os veículos devem ser os últimos a passarem, provavelmente, em horários específicos”, concluiu. Mittmann antecipou que nenhum dos projetos prevê a utilização do Parque da Luz, na cabeceira insular da ponte Hercílio Luz.

Ilha precisa de melhorias para ônibus e Continente para pedestres e ciclistas

Na próxima semana, técnicos do governo do Estado e da Prefeitura de Florianópolis farão uma reunião de governança para acertarem os últimos detalhes para a apresentação dos projetos de acesso e de utilização da ponte Hercílio Luz para a comunidade. O diretor da região metropolitana do Ipuf, Michel Mittmann, informou que as obras serão diferentes na Ilha e no Continente.

“A Ilha receberá mais modificações na ordem de reserva de espaços para os ônibus. Precisaremos melhorar as calçadas e criaremos corredores exclusivos, porque muita gente vai descer do coletivo antes de chegar ao terminal. Vamos retirar algumas vagas de estacionamento, que será mais uma operação do que uma grande obra”, afirmou. “No Continente vamos trabalhar nas sobras viárias, em grandes canteiros que serão os novos arranjos, além da inserção de semáforos. A obra mais pesada será a reestruturação do viaduto John Kennedy, que precisa receber ciclistas e pedestres também”, detalhou.

Mittmann ainda destacou que a velocidade média dos veículos nas saídas da ponte deve ser de 40 km/h. A ideia é que a passagem da ponte seja de velocidade mais controlada. “A ponte está sendo considerada como mais uma rua da cidade e, não, uma via expressa. O planejamento é em longo prazo, mas utilizando os recursos de forma mais inteligente, resignificando a estrutura existente”, completou.

Segundo o arquiteto, todos os carros que cruzam as pontes (Colombo Salles e Pedro Ivo) diariamente formariam uma fila de 900 quilômetros. Caso esses motoristas fossem colocados em ônibus, a fila seria de 90 quilômetros.

Engenheiro lembra que ponte ficou pronta antes dos acessos na década de 20

O diretor técnico da ACE (Associação Catarinense de Engenheiros), Roberto de Oliveira, lembrou que quando a ponte Hercílio Luz foi inaugurada, no início da década de 1920, os acessos também não estavam prontos. “Havia um descrédito se a ponte iria suportar o peso dos veículos na época e os acessos não foram construídos. Levou um ano até que todos os acessos ficassem prontos”, recordou o engenheiro.

A história pode se repetir com a restauração da estrutura metálica. Segundo o Oliveira, as obras não saem do papel por falta de dinheiro. “Existe um projeto geométrico do antigo DER [Departamento de Estradas e Rodagem] para atravessar o Parque da Luz, para que os veículos saíssem da ponte com mais fluidez. Eu gosto do parque, mas precisamos pensar nos benefícios para a cidade. As obras do acesso já deveriam estar em andamento, se a restauração vai terminar em dezembro de 2018, mas a prefeitura não tem dinheiro e a obra não tem como começar. O perigo é a ponte ficar pronta antes dos acessos”, disse.

Na opinião do engenheiro, a “imobilidade” na Ilha será corrigida apenas com a utilização da ponte como uma faixa reversível. Pela manhã, duas pistas do Continente para a Ilha e, à tarde, o sentido contrário. “O problema no Continente é mais complexo, porque não há espaço para se trabalhar. Deixaram construir um prédio ao lado de um patrimônio histórico e, agora, pouco pode ser feito”, afirmou.

Cartão-postal de R$ 500 milhões sem contribuir para mobilidade

O presidente da comissão de Transportes e Desenvolvimento Urbano da Alesc (Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina), deputado João Amin (PP), lembrou que promoveu uma audiência pública, um seminário e uma verificação “in loco” da obra da ponte Hercílio Luz. Segundo o deputado, a ponte pode virar um cartão-postal e sem o devido aproveitamento para a mobilidade urbana.

“A restauração é uma obra que vai consumir quase R$ 500 milhões e terá a mesma capacidade da ponte de Laguna, com relação a peso e altura de caminhões. Para atender caminhões, por exemplo, o Parque da Luz terá que sofrer uma intervenção e, por isso, precisamos definir o uso da ponte”, afirmou. “O problema é que cada um tem uma opinião sobre a utilização da ponte e nenhuma obra de acesso saiu do papel. Hoje, a ponte pode virar um cartão-postal de meio bilhão de reais”, disparou o deputado.

Segundo Amin, prefeitura e governo do Estado precisam ceder para chegarem a um consenso. “Acredito que a população deveria ser ouvida sobre a sua preferência. Existe a possibilidade de uso compartilhado - ideia que parece predominar entre os especialistas. O que me parece mais preocupante no momento é que com a obra prestes a ser concluída ainda não temos a integração dos acessos nas cabeceiras e um planejamento efetivo das ações a serem executadas”, observou.

Debate sobre conservação das pontes Colombo Salles e Pedro Ivo

Na próxima quarta-feira (25), o presidente da comissão de Transportes e Desenvolvimento Urbano da Alesc, deputado estadual João Amin, promove um debate sobre a atual condição de conservação das pontes Colombo Salles e Pedro Ivo Campos. A intenção é realizar um diagnóstico da situação e um cronograma de ações que contribuam para a manutenção dos acessos Ilha/Continente. Secretaria de Estado da Infraestrutura, Deinfra, DNIT (Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes), Defesa Civil e Suderf são alguns dos órgãos que deverão participar do encontro, além do MP-SC. 

Em março de 2017, uma decisão judicial obrigou o Deinfra (Departamento Estadual de Infraestrutura) a iniciar a execução de obras nas referidas pontes. O órgão teria orçado a obra ao custo de R$ 29 milhões, mas por recomendação do Tribunal de Contas do Estado o modelo de licitação precisou ser alterado de pregão para contratação por técnica e preço.

A ponte Colombo Sales foi inaugurada em 1975 e a Pedro Ivo Campos em 1991. Ambas nunca passaram por reforma. De acordo com laudo técnico disponibilizado ao MP-SC (Ministério Público de Santa Catarina) foi constatado estado severo de abandono, alto grau de corrosão, além de deterioração elevada de peças estruturais e problemas nos guardrails e qualidade do asfalto.

Para Amin, imbróglios burocráticos e judiciais não podem impedir o início da obra. "Há quatro anos o Ministério Público cobra das autoridades responsáveis à recuperação das pontes que ligam a Ilha ao Continente. Cada semana que se posterga as intervenções o quadro se agrava e a população da Capital fica a mercê de equipamentos sem a devida manutenção. Com esta reunião pretendemos dar transparência à situação, bem como efetivar as ações necessárias", disse.

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