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Renda de bilro, artesanato tradicional de Florianópolis, busca a modernização

Projeto quer profissionalizar a atividade, capacitando e aproximando os artesãos do universo da moda

Andréa da Luz
Florianópolis
02/08/2018 às 22H47

Uma tradição que se recusa a morrer. Assim é a prática da renda de bilro, que se entrelaça com a história da Ilha de Santa Catarina há 270 anos, quando os primeiros açorianos chegaram por aqui. No começo, a renda era a profissão de muitas mulheres, colaborando com os ganhos da família.

Durante gerações, a técnica foi passada de mães para filhas, mas hoje poucas são as crianças e jovens que se interessam pelo artesanato local. Para que a tradição não se perca e possa continuar contribuindo como fonte de renda para as famílias, pelo menos dois projetos tentam revitalizar a prática do artesanato tradicional.

Segundo a superintendente da Fundação Cultural Franklin Cascaes, Roseli Pereira, uma dessas propostas é o projeto Promoarte, que selecionou 65 polos de artesanato tradicional em todo o Brasil, sendo dois deles em Santa Catarina: o de pêssankas e bordados ucranianos em Itaiópolis, no Norte do estado, e a renda de bilro, em Florianópolis.

Realizado em parceria com o Museu nacional de Folclore Edison Carneiro, do Rio de Janeiro, o projeto está em andamento desde 2009 e até o momento, cerca de 100 rendeiras participaram dos cursos de capacitação, troca de experiências, orientações sobre planejamento estratégico e metas para transformar a atividade em negócio. O encontro mais recente aconteceu em 28 de julho no Mercado Público da Capital catarinense, reunindo artesãos de São Paulo, Santa Catarina, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Piauí e Paraíba.  

A outra proposta é um desdobramento do projeto nacional chamado "Escola de Empreendedores – Renda-se à moda", conduzido pela Fundação Franklin Cascaes em parceria com a prefeiturade Florianópolis e a Casa dos Açores. Entre os objetivos estão o fomento de políticas públicas permanentes que unam moda e artesanato, além da capacitação e do incentivo ao empreendedorismo. "Queremos que o artesanato tenha reconhecimento como patrimônio imaterial de Florianópolis, mas que também possa ser uma fonte de trabalho e renda para as artesãs", afirma Roseli.

O projeto municipal reúne inicialmente rendeiras, fuxiqueiras e estudantes de moda das universidades Udesc, Unisul e Estácio, promovendo encontros mensais no Centro da Capital, para profissionalizar as atividades, divulgar os produtos e impulsionar a comercialização do artesanato local, para que a produção se torne referência no país. Também haverá oferta de cursos de qualificação ministrados pelo Sebrae de Santa Catarina, com início previsto para 15 de agosto.

Os grupos de rendeiras se espalham em vários polos pela cidade: no Rio Vermelho, Sambaqui, Forte de São José da Ponta Grossa em Jurerê, Lagoa da Conceição, Armação e Pântano do Sul. Em vários deles as pessoas podem aprender a fazer a renda de bilro, como no Casarão Bento Silvério, que oferece cursos gratuitos às terças-feiras.

Novos mercados

O principal mercado para a renda de bilro, segundo a superintendente da fundação, está localizado no próprio município, mas as próprias rendeiras recebem encomendas nas suas comunidades e despacham os produtos para outras cidades do Brasil. É uma ação mais individualizada, portanto há um caminho a ser explorado, com vistas à valorização da produção, até mesmo no exterior.

A rendeira Elita Catarina Ramos, 65 anos, concorda com a modernização dos produtos. "Precisamos mudar, inovar, não dá para ficar só na toalhinha e nos trilhos", afirma. Tecendo a renda de bilro desde os 7 anos de idade, ela conta com o apoio do Casarão das Rendeiras de Florianópolis, onde juntamente com outras artesãs ocupam uma sala para produzir a renda.

O grupo levou 78 peças para o evento A Casa - Museu do objeto brasileiro, em São Paulo, onde o vestido produzido por Elita teve destaque, ao lado de reconhecidos estilistas brasileiros, como Martha Medeiros e Ronaldo Fraga. " Precisamos participar desses eventos para valorizar o trabalho", avalia a artesã.

Elita Catarina Ramos, rendeira há 58 anos aposta na modernização dos produtos - Marco Santiago/ND
Elita Catarina Ramos, rendeira há 58 anos, aposta na modernização dos produtos - Marco Santiago/ND


As roupas e acessórios, aliás, parecem ser o grande filão desse mercado. Elita conta que produziu um vestido de noiva, junto com mais sete rendeiras, em um trabalho que levou 40 dias. "É um trabalho diferenciado, único, feito sob medida e por encomenda", explica. "Mas não adianta fazer uma blusa e colocar na arara para vender, demora muito para o produto sair", avalia.

A aposta em itens diferenciados é compartilhada pelo grupo do Rio Vermelho, orientado por Fernanda Gonçalves, que produz desde sapatinhos de bebê até flores para decorar elásticos de cabelo ou porta-guardanapos.

Na Lagoa da Conceição, os dedos ágeis das rendeiras tecem uma história que se perde no tempo. O grupo com cerca de 20 mulheres se reúne às quartas e sextas no Casarão Bento Silvério, como uma forma de convivência e para manter a tradição.

Dona Judite dos Santos Vieira, 85 anos, rendeira desde os sete, conta que aprendeu a tecer com a mãe e ensinou as filhas, porém nenhuma das seis netas quis aprender. Tecendo uma linda coruja, Normezia Gomes, 75, moradora do Rio Tavares, concorda que há uma falta de interesse dos jovens em manter a tradição.

A opinião é a mesma para quase todas do grupo, inclusive a mais jovem, Cleonice Jaques Dias, 56, que aprendeu com a mãe Maria Nunes Jaques, 76. Ambas frequentam o grupo e adoram tecer o bilro como passatempo. "Hoje ninguém dá mais valor, a gente faz para dar de presente e porque ama fazer, para mim é uma terapia, mas vender é muito difícil", afirma Cleonice.

Mãe e filha, Maria Nunes Jaques e Cleonice Jaques Dias, se unem para tecer a renda de bilro - Marco Santiago/ND
Mãe e filha, Maria Nunes Jaques e Cleonice Jaques Dias, se unem para tecer a renda de bilro - Marco Santiago/ND


Seja como atividade econômica ou como passatempo, nenhuma rendeira quer que a tradição se perca. "Quero durar até os 100 anos para continuar fazendo a renda, seria muito triste se essa tradição se acabasse", diz Cleonice.

A renda e sua origem

A renda de bilro é produzida pelo cruzamento sucessivo ou entremeado de fios têxteis, executado sobre o pique (cartão com o padrão do desenho a ser tecido) e com a ajuda de alfinetes e dos bilros (pequenas peças de madeira torneada). Uma das extremidades do bilro tem a forma de pera ou de esfera, e o fio está enrolado na outra extremidade. Eles são manuseados aos pares, em movimentos rotativos, orientados pelos alfinetes. O pique é fixado sobre uma almofada feita com palha ou algodão, apoiada sobre um suporte de madeira ajustável, de forma a ficar na altura do trabalho da rendeira.

A origem dessa renda é controversa, mas a cidade de Peniche, em Portugal, é citada por seu elevado nível em arte e produção. Em meados do século XIX, existiam em Peniche quase mil rendeiras e as oficinas particulares ensinavam crianças a partir dos quatro anos de idade.

Serviço

Próximas feiras de exposição no Largo da Alfândega:

31/8 - 10h às 17h

28/9 - 10h às 17h

26/10 - 10h às 17h

30/11- 10h às 17h

21/12 - 10h às 17h.

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