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Refugiados da guerra na Síria que vivem em Florianópolis se unem pela esperança

Da luta por hospedagem aos desafios na comunicação, imigrantes buscam estabilidade, paz e recomeços: querem a cidadania brasileira

Aline Torres (Especial para o Notícias do Dia)
Florianópolis
20/04/2018 às 22H32

Choravam. Não por terem nascido e crescido na guerra, nem pelos meses escondidos no porão. Bombardeios, cidade devastada, êxodo, tampouco pela loucura que governa o mundo. Choravam porque perderam suas mães. Hanady e Amani foram mortas no dia 7 de abril, vítimas do ataque a Douma, na região de Ghouta Oriental, o vale mais fértil da Síria faminta. As vítimas são primas de Albaraa Hamoy, 30 anos, refugiado em Florianópolis há quatro anos.

“A gente não tem mais país”, diz Albaraa Hamoy (à esq. ), que fugiu da Síria junto ao amigo Mahnoud Sagherji. Ambos reconstroem suas vidas e histórias dolorosas - Daniel Queiroz/ND
“A gente não tem mais país”, diz Albaraa Hamoy (à esq. ), que fugiu da Síria junto ao amigo Mahnoud Sagherji. Ambos reconstroem suas vidas e histórias dolorosas - Daniel Queiroz/ND


Albaraa que nos últimos sete anos perdeu dezenas de amigos, quatro primos e dois tios, tem mais oito sobrinhos órfãos que não poderá visitar. Na Síria ninguém entra, ninguém sai.

“Todas as portas estão fechadas. Nenhum país recebe mais refugiados sírios. Nem o Brasil”, explica o sheik do Centro Islâmico de Florianópolis, Amin Alkaram.

A Síria cada vez mais se torna uma terra de pouco esperança, com um histórico tão assombroso quanta a omissão dos líderes mundiais: meio milhão de mortos, cinco milhões de desabrigados, sete milhões de refugiados, centenas de pessoas presas sem acusação.

Conflito que gira em torno do ditador Bashar Al-Assad, que controla quase dois terços do territórios de 185 mil km2 (extensão equivalente a dois estados de Santa Catarina), do Oeste até o Sul, graças ao apoio da Rússia, Irã e os aliados xiitas libaneses do Hezbollah. Enquanto os rebeldes estão aquartelados no Norte e no Leste e em bolsões do Centro e do Sul, apoiados, principalmente, pelos EUA, mas também por intervenções do Reino Unido e da França.

Bashar assumiu o governo com a morte do seu pai o ditador Hafez, em 2000. O escolhido para sucessão era Bassel, o irmão mais velho. Mas o fascínio por velocidade o matou, em 1994, pilotando uma Mercedes Benz. Desta forma, o oftalmologista Bashar herdou a Síria.

Os Al-Assad controlam o país desde o golpe de Estado de 1970, são da minoria alauita, os xiitas mais extremistas, e membros do Partido Baath.

A guerra começou há sete anos, após protestos pacíficos que almejavam eleições diretas, o fim da corrupção e melhora nas condições de vida, violentamente sufocados por razões evidentes.

Um país com grandes riquezas subterrâneas

Na zona de influência Rússia está a gigantesca reserva de gás e na Norte-Americana o petróleo.

Para sobreviver a esta guerra de muitos lados em que os civis são o alvo, Albaraa fugiu ao lado do seu amigo de infância Mahnoud Sagherji, 30 anos. Primeiro foram para Jordânia, onde não tinham emprego, depois vieram para o Brasil. Dormiram um mês na mesquita de Brasília e por conselho do sheik de lá, vieram para Florianópolis, que ouviram ser uma cidade tranquila.

A postos para ajudar, Sheik Amin Alkaram é o elo entre Síria e Florianópolis - Daniel Queiroz/ND
A postos para ajudar, Sheik Amin Alkaram é o elo entre Síria e Florianópolis - Daniel Queiroz/ND


Hospedaram-se na sala de um amigo por dez dias e depois alugaram uma kitnet no Centro da capital catarinense, de onde não saíram nos seus primeiros meses pela extrema dificuldade de comunicação. Aos poucos foram aprendendo português, pagaram por um cursinho, e atualmente têm seus próprios negócios, o restaurante Damasco, na Sete de Setembro, e uma shawermeria, em São José. Perceberam que trabalhar com comida seria mais fácil que validar o diploma de Economia de Albaraa e de Direito de Mahnoud.

O Brasil ofereceu documentos para que pudessem permanecer provisoriamente no país e trabalhar. Para eles é muito, mas para colaborar com eficiência pelo fim da maior crise humanitária da história recente não é nada.

“Não são tratados como refugiados, isso exigiria responsabilidades dos governos, são tratados como residentes. Puderam vir, mas chegando tem que se virar”, diz o sheik.

Mas a guerra dentro de si não impede que os sírios que vivem em Florianópolis sonhem. Eles querem estabilidade, paz, recomeços, permissão para ir e vir: querem a cidadania brasileira.

“A gente não tem mais país. Gostaríamos de ser brasileiros”, diz Albaraa.

As diferenças não importam mais

O sheik Amin Alkaram veio morar no Brasil há 34 anos a convite do Ministério dos Assuntos Religiosos, mas dezenas de familiares seus estão na Síria. Um sobrinho de 11 anos foi morto na porta de casa. Como a família não tinha armas, ligações com o governo ou com os rebeldes, acreditam que o soldado brincou de tiro ao alvo com a criança.

Por estar longe apenas geograficamente do horror, ele se tornou um elo de união entre os sírios em Florianópolis. Os cem refugiados estabeleceram uma comunidade forte e afetiva na capital, apesar de diferenças religiosas e políticas.

Se ajudam porque compartilham da mesma dor. Todos eles têm familiares e amigos deixados para traz. E conhecem muito bem a realidade do seu povo.

“Os que não morrem em terra, morrem no mar. E os que vivem em campos de refugiados estão na verdade em campos de concentração. Expostos no inverno ao frio rigoroso e à neve, no verão aos escorpiões, doenças e à fome. E entre os desesperados que se abrigaram nos países vizinhos Líbano, Turquia e Jordânia agem as máfias. Elas se alimentam da miséria da população para gerenciar crimes: prostituição, tráfico de órgãos e pessoas. Tem mulheres grávidas que são operadas antes do tempo para que o feto seja vendido", diz Alkaram.

Na Capital, os refugiados deixaram de lado as diferenças e criaram laços afetivos - Daniel Queiroz/ND
Na Capital, os refugiados deixaram de lado as diferenças e criaram laços afetivos - Daniel Queiroz/ND

Cultura de hospitalidade

Se os sírios tem uma boa amiga em Florianópolis é Bruna Kadletz, 35. Ela criou em dezembro do ano passado a ONG Círculos de Hospitalidade, mas seu trabalho é mais afetivo do que institucional. 

Em 2012, voltando para Florianópolis com mestrado em Sociologia e Mudança Global com foco em deslocamento forçado, na Escócia, se sensibilizou com os sírios. Foi então que decidiu se voluntariar na Jordânia, mas não foi chamada por falta de experiência. Ela, então, resolveu se aprofundar no assunto, visitou campos de refugiados, passou três meses na África e em 2015 retornou novamente para Florianópolis, sua cidade, e criou vínculos com a comunidade.

Passou a ajudá-los com documentações e aulas de português. Mas, percebeu que além das necessidades básicas, eles precisavam de acolhida. Ter amizades sinceras na cidade para ajudar a desconstruir a imagem que o imigrante é mal, que roubará empregos, aumentará os índices de violência, trará conflitos, não preservará a cultura local, como se o Brasil não fosse um país de imigrantes, que mesclados criaram um caldeirão cultural único, vasto e rico.

Ajuda pública é precária

Em fevereiro, o governo do Estado inaugurou o CRAI (Centro de Referência e Atendimento ao Imigrante). Os serviços de atendimento serão executados pela Ação Social Arquidiocesana, vencedora da licitação. Na sede, situada na rua Tenente Silveira, 225, os imigrantes poderão receber assistência jurídica, orientação para regularizar documentos, encaminhamento para o mercado de trabalho e atendimento psicológico.A expectativa é atender cerca de 30 pessoas diariamente. Antes do CRAI, o atendimento a imigrantes e refugiados na Grande Florianópolis vinha sendo realizado por voluntários da Pastoral do Migrante.

Já a prefeitura de Florianópolis não tem nenhum projeto específico sobre os sírios. A secretária de Assistência Social, Katherine Schreiner não atendeu as ligações e os pedidos de entrevistas da reportagem. 

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