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Recluso e de palavras desconexas: parentes descrevem homem que esfaqueou Bolsonaro

"Não posso dizer se era maluco, mas, pelas atitudes que tomava, não era normal", disse marido de sobrinho de Adelio Bispo de Oliveira; agressor visitou escola de tiro em SC neste ano

Folha de São Paulo
Brasília (DF)
07/09/2018 às 14H24

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Casado com uma sobrinha do autor do ataque a Jair Bolsonaro, o pedreiro Eraldo Fábio Rodrigues de Oliveira, de 45 anos, diz que Adelio Bispo de Oliveira tinha comportamento estranho e, quando visitava Montes Claros, sua cidade de origem, costumava se trancar num dos barracões da família, no bairro Maracanã, de classe baixa. 

"Fechava porta e janela, sei lá para quê, e ficava lá dentro queimando 'caloria'. Não posso dizer se era maluco, mas, pelas atitudes que tomava, não era normal, não. Deve ter algum distúrbio. Ficava ali o dia todo", conta.

Adelio Bispo de Oliveira esfaqueou Jair Bolsonaro nesta quinta-feira - Paulo Lopes/Futura Press/Folhapress
Adelio Bispo de Oliveira esfaqueou Jair Bolsonaro nesta quinta-feira - Paulo Lopes/Futura Press/Folhapress


O pedreiro diz que Bispo saiu de Montes Claros jovem, aos 17 anos, e que só aparecia esporadicamente na cidade. Era de falar pouco, tanto que ele se surpreendeu quando soube da militância política do algoz de Bolsonaro, ex-filiado ao PSOL por sete anos.

O pedreiro conta que, numa das passagens por Montes Claros, em 2013, Bispo arrombou o barracão de sua sogra, que estava fechado e é colado ao que vive, e passou mais de um mês no local. 

Os dois se desentenderam, segundo ele, porque Bispo se recusou a pagar a conta de luz. O episódio rendeu uma ocorrência na Polícia Militar. "Saímos no braço aqui fora. Quebrei o dedo dele. Veio a polícia e nós fomos para a delegacia."

Oliveira é companheiro de Jussara Matos, primeira parente de Bispo a dar entrevistas sobre ele, ainda na quinta. O casal soube do ataque a Bolsonaro pela TV, na tarde em que ocorreu o atentado. "Falei com a minha mulher: acho que é seu tio. Saí e, quando voltei, ela já danou a chorar", relata Oliveira.

Na mesma tarde, a Polícia Militar de Minas esteve na casa do casal em busca de eventuais objetos de Bispo. "Ficaram sabendo que ele deixou uma mala na casa do irmão. Falaram que a Polícia Federal viria também".

Jussara e Oliveira têm dois filhos, um de 11 e outro de 16 anos. Estão com medo de retaliações de apoiadores do candidato à Presidência. "As pessoas estão nos ameaçando nas redes sociais", contou ela à reportagem nesta sexta.

O filho de 11 anos participa de um projeto social do Exército e desfilaria na parada de 7 de Setembro em Montes Claros, mas a mãe não deixou.

Jair Bolsonaro é esfaqueado durante comício em Minas Gerais; segundo filho, passa bem - Reprodução
Jair Bolsonaro foi esfaqueado durante comício em Minas Gerais - Reprodução


Família diz que autor já sofreu surto e falava palavras desconexas

Responsável por ter esfaqueado o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), Adelio Bispo de Oliveira, 40, afirmou que a ação foi feita por motivos pessoais e, em certos momentos, declarou que agrediu o deputado a mando de Deus, segundo informações da Polícia Militar.

Em depoimento na delegacia, Oliveira afirmou que saiu de casa com uma faca de uso pessoal escondida para acompanhar a comitiva, já com a ideia de utilizá-la contra o deputado.

Oliveira  visitou escola de tiro de Santa Catarina frequentada por dois filhos do candidato, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ).

A assessora da ".38 Clube e Escola de Tiro" Julia Zanata, que é mulher de um dos donos da empresa, disse que há registro da ida de Bispo em 5 de julho deste ano. Ele chegou a compartilhar no Facebook sua visita ao local.

"Ele [Adélio Bispo de Oliveira] foi uma vez. Toda vez que tu vai, tem um cadastro. Ele só foi uma vez lá, dia 5 de julho. O Eduardo Bolsonaro e Carlos Bolsonaro são associados do clube e frequentadores assíduos. Está todo mundo do clube abalado", disse Zanata, afirmando que os filhos de Bolsonaro não estavam nesse dia.

"Não sei te dizer quem foi o instrutor do dia. Ele foi provavelmente para praticar tiro, né?"

A ".38 Clube e Escola de Tiro" --o nome é uma referência ao calibre do revólver 38, conhecida como "treisoitão"-- afirma, em seu site, ser "referência no país em treinamento de tiro policial e comba- te urbano".

>> Homem preso por atentado a Jair Bolsonaro postou foto em Florianópolis nas redes sociais

Adelio Bispo foi detido por seguranças e policiais em Juiz de Fora - Guilherme Leite/Folhapress
Adelio Bispo foi detido por seguranças e policiais em Juiz de Fora - Guilherme Leite/Folhapress


Uma sobrinha de Bispo de Oliveira afirmou à reportagem que o tio mudou seu comportamento nos últimos três anos. Jussara Ramos disse que ele já havia tido um episódio de surto, falava palavras desconexas e ficava dias preso no quarto.

"Foi um susto pra gente. A gente não entendeu o que aconteceu com ele. Ele mudou muito nos últimos anos, não falava coisa com coisa", disse, por telefone.

De acordo com a sobrinha, o suspeito de esfaquear o presidenciável era missionário da igreja evangélica. "Estamos sofrendo represálias nas redes sociais. A gente quer que vocês deem oportunidade para ele falar, pra gente poder entender o que aconteceu com ele", completou.

Segundo Jussara, o tio não falava muito de política. "Ele sempre foi muito discreto na questão política, nunca relatou nada em relação a isso. Ele só falava que ele queria um mundo melhor, é o que todo mundo quer, né?". A sobrinha ainda afirmou que Adélio Bispo de Oliveira fala dois idiomas fluentemente, inglês e espanhol.

Em sua página no Facebook, Oliveira tem várias postagens críticas a Bolsonaro, tendo chegado a compará-lo a um asno. Há também fotos contrárias ao presidente Michel Temer, pedindo a sua saída do cargo. "A aprovação de Bolsonaro é maior entre os menos estudados, ou seja, só analfabetos e semianalfabetos votam em Bolsonaro", escreveu na rede social em 18 de julho.

Dez dias depois, compartilhou um meme do raio-x de um crânio com fezes dentro, acompanhado da seguinte frase: "RX da cabeça de um fã de Bolsonaro". Bispo de Oliveira também compartilhava vários temas críticos à maçonaria. Sua lista de amigos incluem várias pessoas de países de língua árabe.

Na área de identificação do Facebook, aparece a seguinte frase: "Não importa em que partido tu militas, nem a ideologia que acreditas ou a fé que tu praticas. Se você tem prazer no triunfo da Justiça, então somos irmãos".

No mês passado, Bispo de Oliveira compartilhou vídeo do ator Alexandre Frota, aliado de Bolsonaro, sendo hostilizado na Câmara municipal de Sorocaba (SP). No vídeo, Frota é chamado de "coxinha".

Agressor morava há duas semanas em pensão

Adelio Bispo de Oliveira vivia há cerca de duas semanas em uma pensão no centro da cidade de Juiz de Fora. A informação foi confirmada pelo marido da dona do imóvel, que não autorizou que seu nome fosse divulgado e não revelou o valor do aluguel.

Recluso, ele saía pouco de casa. Quando saía, era para ir a cultos de uma igreja cristã local. Cerca de 15 pessoas moram no local. Vizinhos disseram à reportagem que há grande rotatividade de pessoas no local e disseram não conhecer Bispo.

Agentes da Polícia Federal estiveram no local na madrugada desta sexta-feira, onde recolheram documentos. O quarto foi lacrado e só poderá ser alugado após liberação pela PF.

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