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Projeto cultural resgata a magia da fotografia lambe-lambe em Florianópolis

Feira de Artes Entremostras reunirá mais de 30 artistas para apresentar e comercializar obras com valores mais acessíveis

Carlos Damião
Florianópolis
03/08/2018 às 21H28

A Fundação Cultural Badesc realiza neste sábado (4), das 11 às 17h, a 12ª edição da Feira de Artes Entremostras, que vai reunir mais de 30 artistas para apresentar e comercializar obras com valores mais acessíveis.

Um dos destaques desta edição é o fotógrafo Radilson Carlos Gomes. Ele estará com uma máquina fotográfica lambe-lambe captando imagens das pessoas que passarem pelo evento. A máquina é dos anos 1960 e funciona como antigamente. Essas fotos dos moradores de Florianópolis vão ser utilizadas numa exposição no aniversário da cidade em março de 2019.

Radilson Gomes em ação com a máquina lambe-lambe que tem mais de 50 anos - Divulgação/ND
Radilson Gomes em ação com a máquina lambe-lambe que tem mais de 50 anos - Divulgação/ND


O projeto de Radilson foi contemplado no Edital Elisabete Anderle, da Fundação Catarinense de Cultura, e resgata um tipo de atividade muito comum nas praças e jardins do Brasil entre as décadas de 1930 e 1980. No início, foi um apoio profissional (e informal) para os trabalhadores que precisavam de fotos 3x4 rapidamente, com o objetivo de confeccionar a Carteira de Trabalho, instituída pelo presidente Getúlio Vargas em 21 de março de 1932, até hoje o documento mais importante do trabalhador, mesmo com a escassez de empregos provocada, entre outros aspectos, pela crise econômica e pela reforma trabalhista implantada pelo governo de Michel Temer.

O serviço de lambe-lambe surgiu bem antes, no começo do século 20, inventado no Brasil pelo fotógrafo Francisco Bernardi. O objetivo dele foi criar um estúdio portátil, carregando num caixote tudo que fosse necessário à produção instantânea das fotos. No início e até o desaparecimento, os fotógrafos lambe-lambe eram também chamados de “fotógrafos de jardim (ou de praça). Em geral, eles fotografavam famílias e amigos que passeavam nos fins de semana. Com a necessidade de confecção de fotos em 3x4 para a Carteira Profissional e outros documentos, o mercado cresceu, garantindo o sustento para dezenas de profissionais em cada cidade, inclusive Florianópolis, onde eles faziam parte da paisagem humana/urbana da Praça 15 de Novembro, principal ponto de encontro e passeio da Capital, próxima aos terminais urbanos do transporte coletivo e às repartições públicas. Os lambe-lambes, mais do que simples fotógrafos, eram figuras de referência lírica de Florianópolis, foram temas de belas reportagens dos jornais O Estado e A Gazeta, e de crônicas e contos de nossos mais destacados escritores. Hoje fotógrafos da era digital dedicam-se a pesquisas e a práticas que resgatam a potencialidade criativa e artística das máquinas lambe-lambe.

Radilson é um desses profissionais. Ele é fotógrafo há 32 anos, servidor de carreira do Ministério da Saúde, onde se dedica a registrar temas relacionados à saúde, em especial saúde mental, sempre com foco no aspecto social. Formado em História, teve a ideia de desenvolver o projeto “Floripa em 3x4 - O Retrato de Quem Passa” a partir da própria experiência com um estúdio lambe-lambe. Ele é dono de uma relíquia fabricada nos anos 1960, que adquiriu de uma colecionadora quando morava em Brasília. A ideia é produzir com ela 1.000 retratos em 3x4, que têm o objetivo de “Resgatar a identidade de Florianópolis a partir da identidade de anônimos”. Já fez 196 registros e grava vídeos em que as pessoas retratadas contam um pouco de suas histórias. Curiosamente, muitos fotografados se lembram da atividade de lambe-lambe na Praça 15 de Novembro, “são recordações de infância e adolescência dessas pessoas”, diz Radilson.

Uma clásssica lambe-lambe: criador do método na verdade inventou um “estúdio portátil” - Élcio Mello/Divulgação/ND
Uma clásssica lambe-lambe: criador do método na verdade inventou um “estúdio portátil” - Élcio Mello/Divulgação/ND


Processo instantâneo

Especializado no tema, o pesquisador Élcio Macias Mello explica o processo da fotografia lambe-lambe: “Muito se tem dito sobre o termo lambe-lambe. Segundo alguns, lambia-se a placa de vidro, que era o negativo, para saber-se qual era o lado da emulsão, ou seja, do material sensível à luz, porém, esta suposição de que a placa era lambida é pouco provável, pois é possível identificar o lado da emulsão de gelatina pelo tato. “Alguns julgam o termo pejorativo, outros não dão muita importância, e a maioria confirma, de viva voz, a explicação do filólogo Antenor Nascentes, em seu Dicionário Etimológico: os primeiros fotógrafos de praça, na hora da revelação, tinham ainda de lamber suas chapas”.

Os lambe-lambes trabalharam na Praça 15 durante décadas. Ao fundo, o Miramar - Divulgação/ND
Os lambe-lambes trabalharam na Praça 15 durante décadas. Ao fundo, o Miramar - Divulgação/ND


Artistas participantes

Na Entremostras deste sábado serão apresentadas produções nas áreas de literatura, música, audiovisual, moda e design, artes visuais entre outros tipos de arte. Artistas participantes: Denis Graeff, Wagner Éffe, Miguel Rosa, Fernando JC Andrada, Yandara de Moura, Editora Caseira, Bruno Barbi, Kelly Kreis Taglieber, Diego de los Campos, Marilena Kaily, Chris Dalla Costa, Leandro Serpa, Karina Kern Yasuda, Luisa Bel Cardoso Head, Anna Moraes, Luanda Olívia, Carol Krügel, Alvaro Bruno Barioni, Dante Acosta, Luiz Augusto Macedo, Nicolas Haverroth, Silvana Búrigo, Bernardo Mortari, Susano Correia, Ame você, Amagnolia - Simple Creativity, Mayara Barbato/Imagine Friends, Camila Dallaglio, Luã Olsen, Radilson Carlos Gomes, Urban Sketchers.

Serviço

O quê - 12ª Feira de Artes Entremostras
Quando – 4 de agosto de 2018, sábado, das 11 às 17h
Local: Fundação Cultural Badesc – Rua Visconde de Ouro Preto, 216, Centro, Florianópolis – telefone: (48) 3224-8846

Outro momento do trabalho do fotógrafo: ideia é valorizar a identidade local a partir da identidade de anônimos - Divulgação/ND
Outro momento do trabalho do fotógrafo: ideia é valorizar a identidade local a partir da identidade de anônimos - Divulgação/ND

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