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Segunda-Feira, 24 de Setembro de 2018
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Professora de sociologia mostra em livro as transformações do balneário de Ingleses

Professora e socióloga Adriane Nopes fez um minucioso estudo onde defronta o antigo e o moderno de um dos balneários mais tradicionais da Ilha

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
Marco Santiago/ND
Em “Memórias da tradição: praia dos Ingleses, Ilha de Santa Catarina”, Adriane Nopes reconta a trajetória do bairro, que hoje tem uma população fixa maior que muitas cidades do Estado

No terceiro cantar do galo, lá pelas quatro e meia da manhã, o homem se levantava, vestia a melhor roupa, tomava um café e caminhava pela praia até o ponto do ônibus, na subida do morro. Havia uma linha para o Centro às 6h, com volta programada para o final da tarde, num roteiro que incluía Cachoeira do Bom Jesus, Canasvieiras e as vilas da orla da baía Norte. Se chovesse, era preciso saltar e colocar correntes no coletivo para seguir adiante. Comprar pregos ou uma fechadura era trabalho de um dia, porque ali nos Ingleses, reduto distante e isolado, custaram a chegar a primeira loja de ferragens, a luz elétrica e a escola pioneira – que dirá uma estrada decente para outros lugares da Ilha.

Este cenário, comum a distintas localidades de Florianópolis, é pintado a partir da memória de antigos moradores ouvidos pela professora e socióloga Adriane Nopes, no livro “Memórias da tradição: praia dos Ingleses, Ilha de Santa Catarina” (PalavraCom Editora, 254 páginas). A parte dos depoimentos é a que mais desvela a alma dos pescadores e colonos que até os anos de 1960 davam vida ao pequeno balneário que se transformou a ponto de ser maior, hoje, que dezenas de cidades catarinenses. O dinheiro era pouco e pouco valia, porque não havia o que comprar. O escambo era mais comum, e trocar produtos dos engenhos de cana e farinha por peixe escalado ou galinhas vivas era prática corrente na comunidade.

Para Adriane, professora do Centro Universitário Estácio de Sá, ter escrito o livro foi um prazer, pela afinidade com o lugar que há quase 30 anos escolheu para viver, mas também serviu para mostrar que o progresso gerado pela expansão do turismo de massa custou caro dos pontos de vista cultural e ambiental. “Não concordo com a privatização da praia e com a destruição da história local”, diz.

Seria possível crescer com mais cuidado, mantendo as memórias, a tradição das festas religiosas e o patrimônio original, entende a autora. A última “invasão”, que incluiu também o Rio Vermelho, veio depois do Plano Diretor dos Balneários, aprovado em 1985, e hoje a praia dos Ingleses é uma babel de tipos e sotaques que reflete o caráter desordenado do crescimento da região.

Divulgação/ND
Isolado, sem comércio, economia se baseava na subsistência e troca

Tempo de trocas e subsistência

O isolamento do Norte da Ilha pode ser medido pela maratona que era ir até a cidade quando não havia a opção do único coletivo diário. Até a década de 50, sem a tradição da carroça ou do cavalo, os nativos saíam a pé pela praia do Moçambique, passavam pela Barra e pela Lagoa da Conceição e chegavam ao Itacorubi. Ali, dormiam na casa de um parente ou conhecido e no dia seguinte retomavam a caminhada. Caminhar, aliás, era o que mais se fazia, por falta de outras opções de deslocamento. Quando veio o primeiro ônibus, o tempo de viagem caiu para três horas.

Se o horário era dado pelo cantar dos galos, a pequena economia local se baseava na subsistência e na troca. Muitas famílias trabalhavam nos engenhos e outras viviam da pesca e da salga dos peixes – salgados e secos, eles duravam muito mais num tempo sem refrigeração. “As mulheres faziam rendas de bilro e preparavam seus enxovais de casamento com o dinheiro dessa atividade”, conta Adriane Nopes. Muitos proprietários venderam suas terras – chamadas de devolutas e com pouco valor monetário – ao primeiro forasteiro que aparecia, e assim começou a mudança de posse de amplas áreas do Norte da Ilha.

Divulgação/ND
Imagem dos pescadores empurrando canoa de voga ilustra a capa do livro de Adriane Nopese. Originalmente está na obra do jornalista Crispim Mira, “Terra catharinense”, de 1920

Quando pescar era para preguiçosos

Durante muitos anos, vigorou nos Ingleses o preconceito dos moradores dos sítios, voltados para a agricultura, com o pessoal da praia, porque os pescadores eram acusados de não trabalhar. “Quem esperava pelo peixe era taxado de preguiçoso”, diz Adriane Nopes.

Muitos homens passavam temporadas pescando na região de Rio Grande (RS) ou no Rio de Janeiro e às vezes nem voltavam para cá, enquanto as mulheres cuidavam da casa e dos filhos, criavam frangos no quintal e tomavam conta das salgas. As moradias eram feitas com material extraído ali mesmo, como o bambu, o barro e a palha para o telhado.

Em “Terra catharinense”, escrito na década de 1920, o jornalista Crispim Mira ressalta o “encanto do comoros em enormes e alvíssimos blocos de 5 a 8 metros de altura, numa linda superfície que se estende até a praia do Santinho, comoros esses cuja conformação se modifica conforme a direção do vento”. A capa do livro de Adriane Nopes traz uma fotografia que Mira reproduziu em sua obra mostrando pescadores empurrando uma canoa de voga para pesca. Também Virgílio Várzea, escritor que deixou vastos registros sobre a Ilha, fala dos Ingleses e ensaia uma explicação sobre o nome do lugar, que teria nascido do naufrágio de uma embarcação inglesa vítima de uma lestada ainda no século 19.

 

Divulgação/ND
A procissão de Navegantes. Muitos dos costumes do bairro foram se perdendo com o crescimento desordenado

Nativos sem saudades do passado

A noite em que a luz elétrica chegou aos Ingleses foi lembrada por uma nativa como um acontecimento memorável – mas ninguém abandonou a pomboca (lamparina), companheira de muitos anos. Com a primeira farmácia muitos deixaram de lado o chá com cachaça e o limão para combater a gripe.

Em seis anos de pesquisa, Adriane Nopes percebeu que os nativos não sentiam saudade dos velhos tempos e estranhavam que alguém como ela pudesse ter interesse pelas coisas do passado. “Não tenho nada para contar, minha filha”, ouviu várias vezes. Ela buscou no historiador Eugen Weber e no sociólogo Anthony Giddens, entre outros estudiosos, a explicação para a transformação social em diferentes contextos. “A modernidade destrói a materialidade da história de um povo”, afirma.

“Hoje tá muito melhor, muito, muito melhor. (...) A gente passou sacrifício. (...) Agora tem tudo, agora o super [supermercado] é uma cidade, tem tudo que você quer” são frases de uma das mulheres entrevistadas por Adriane para o livro “Memórias da tradição: praia dos Ingleses, Ilha de Santa Catarina”. Os anos de sacrifício a que se refere a depoente eram aqueles em que a energia ia embora às 21h e os moradores tinham que se virar com velas ou com a pomboca, dormiam cedo e cultivavam rituais como o terno de reis e as procissões religiosas.

Um dos capítulos do livro, chamado de “Era uma vez”, trata justamente dos hábitos do passado, a partir de depoimentos de moradores tradicionais. As mulheres nativas não tinham o hábito de ir para a praia – por isso, quando algumas turistas apareceram de biquíni foram expulsas pelos nativos.

Por outro lado, com a chegada do conforto, costumes consagrados foram suprimidos. “O terno de reis decaiu porque as pessoas não queriam dança e arrasta-pés em suas salas luxuosas”, conta Adriane. Mobílias finas, carro bom na garagem, telefone, computador, ônibus na porta – tudo leva a crer que nunca houve tempo melhor. Não há a percepção da padronização generalizada que tomou conta da rotina social. “É como Mefisto, um monstro que força todos a se adaptarem às novas formas de vida”, comenta a autora.

Praia fora do campo de visão

A Ilha de Santa Catarina começou a se transformar nos anos 60, com aparatos públicos como a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e a Eletrosul, que trouxeram para cá muita gente de fora do Estado. Mais tarde, a construção das pontes Colombo Salles e Pedro Ivo Campos, embora sem o mesmo impacto, teve papel semelhante. Com o Plano Diretor de 1985, a transformação foi radical, porque o poder público não conseguiu fiscalizar a aplicação das regras criadas para as áreas de destinação turística. Muitos moradores da cidade tinham casas de praia nos balneários, mas a partir dali a ocupação ficou fora de controle.

“Atualmente, as pessoas chegam e não veem a praia”, denuncia Adriane Nopes, “porque a orla foi privatizada, há poucos acessos, apenas corredores entre os prédios e casas”. Se há bancos, lojas e supermercados, 80% do bairro não tem saneamento e multiplicaram-se os restaurantes e hotéis que dão para a faixa de areia, ajudando a poluir a orla.

São cerca de 25 mil pessoas como moradores fixos, e uma multidão na alta temporada, sobrecarregando a precária infraestrutura existente. “Hoje, já ocorre uma fixação das pessoas nos balneários, criando um movimento identitário com o espaço”, comenta a autora do livro. Quem chega – agora para ficar – é um morador mais família, mas há também as favelas, uma novidade impensável meio século atrás.

As velhas casas, os caminhos ou trilhas, os riachos limpos, as domingueiras, as brincadeiras do boi e a própria Festa do Pescador deixaram de existir. Deram lugar a outros ambientes e a práticas afinadas com a modernidade. E, também, ao tráfico de drogas e a assaltos à mão armada. No final do livro, Adriane diz que Ingleses está numa encruzilhada que requer atenção com a preservação e o planejamento. Se nada for feito, no futuro o bairro estará inserido “nos piores problemas da sociedade moderna – e a queda da qualidade de vida será inevitável”.

Um depoimento

“Naquele tempo era lindo, cantava um Terno de Reis, tinha uma roda, ficava aquele bando de mulheres cantando e batendo palmas e fandango. E acabava tudo (sic) mundo tomava café com rosca, era simplicidade. E hoje o luxo acabou tudo, porque se eu tenho uma televisão, eu tenho uma sala, vou querer mais um Terno de Reis, aonde todo mundo entra, todo mundo senta, todo mundo dança? Naquele tempo era assim, quando um Terno de Reis chegava aqui, já se fazia um baile. Já virava, daí ia na tua casa e fazia a mesma coisa, amanhecia, ia até 10, 11 horas da manhã o Terno de Reis. Era tudo (sic) mundo cantando, brincando, dançando, era ‘temperada’, todo mundo brincava, entende?”

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