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Produção apícola está em 98% dos municípios catarinenses

Mapa do mel: Inventário da Apicultura Catarinense revela diversidade do produtor em Santa Catarina, que sedia esta semana, em Joinville, o maior congresso nacional do setor

Fábio Bispo
Florianópolis
15/05/2018 às 22H51

O zumbido é sinfonia garantida em praticamente todos os municípios catarinenses. A valsa de flor em flor em busca pelo néctar poliniza o campo e nos dá o melhor mel do mundo. O Estado tem a maior produtividade por quilômetro quadrado e por aqui —desde os quatro apicultores de Piçarras, no Litoral Norte, que produzem 123 quilos de mel com seis abelheiros até os picos mais frios da Serra, onde 45 mil colmeias de aluguel espalham pólen pelos pomares de maçã— todas as abelhas são majestades.

Santa Catarina é o maior produtor por quilômetros quadrado no país - Mariléia Corrêa da Silva/ND
Estado tem 30 mil colmeias e produção de 6.000 toneladas por ano - Mariléia Corrêa da Silva/ND


Que a apicultura tem reservado lugares de destaque para Santa Catarina não é novidade. Em 1979, na Grécia, o mel do Estado foi considerado o melhor do mundo. O título foi recebido em outras quatro edições mais recentes do Congresso da Apimondia (Associação Internacional das Federações de Apicultores): Austrália (2007), Ucrânia (2013), Coréia do Sul (2015) e Istambul (2017), quatro delas recebidas pela Prodapys, entreposto sediado em Araranguá.

Mas nem tudo são flores, a regência global aponta para situação de alerta com a diminuição das populações de abelhas em todo o mundo, o que terá influência direta nas próximas gerações, segundo especialistas. O uso descontrolado de agrotóxicos, alimentos transgênicos, mudanças climáticas e pragas são apontadas como principais causas para um anunciado colapso desses insetos.

Esta semana, toda a cadeia produtiva se voltará para o Estado que sedia o 22º Congresso Brasileiro de Apicultura e o 8º Congresso Brasileiro de Meliponicultura, entre os dias 16 e 19 de maio, na Expoville, em Joinville. Organizado pela CBA (Confederação Brasileira de Apicultura), FAASC, e EPAGRI (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina).

O evento deve reunir mais de 2.500 pessoas, entre apicultores, meliponicultores, entrepostos, empresas do ramo apícola e consumidores. Junto aos congressos acontecerá também a Expo-Feira de Materiais e Equipamentos Apícolas, a apresentação de 316 trabalhos científicos e uma Feira do Mel. A programação está disponível no site do congresso.

Mapa revela produção estadual em quase todo território

A média da produção de mel catarinense é de algo em torno de 6 mil toneladas por ano. Mas em a safra 2015/2016 rendeu ao Estado 8 mil toneladas de mel, um recorde da produção no Estado, que atingiu um rendimento de 84 quilos por metro quadrado, destacando o estado com a melhor produtividade do país.

Os dados do Inventário da Apicultura Catarinense, lançado em 2014 e mantido pela FAASC, dá a dimensão dessa produção no Estado. A apicultura está presente em 98% dos municípios catarinenses, com cerca de 30 mil colmeias distribuídas entre mais de seis mil apicultores.

O inventário contém informações georreferenciadas sobre as produções nas cidades e serve também como base de estratégias para estudos e ações para manter os indicadores do setor.

As maiores produções catarinenses estão em Bom Retiro, Içara, Urubici, Santa Terezinha e Fraiburgo, que juntas produzem mais de 1,2 mil toneladas por ano. Mas são a boa distribuição e o associativismo do produtor fatores primordiais para que a produção catarinense seja bastante diversificada em todo o território. Segundo o presidente da FAASC, Nésio Fernandes, “Santa Catarina é um dos estados que mais investe em tecnologia, isso tem ajudado muito a produção nos últimos anos”, afirma.

Apenas seis cidades catarinenses não têm apicultores: Balneário Camboriú, Pinheiro Preto, Bombinhas, Capivari de Baixo, Navegantes e Faxinal dos Guedes. Em todo o restante do território há pelo menos uma pessoa que faz o manejo de abelhas.

Em 13 cidades há apenas um apicultor que, dependendo de região para região, possui mais ou menos colmeias. Em Ouro Verde, por exemplo, o apicultor que tem sete abelheiros produz 143 quilos de mel por ano. Já em Ibiam, um único produtor, mas com 2.000 colmeias, consegue 4,1 toneladas.

Santa Catarina também é o maior exportador brasileiro em volume. A atuação do órgão de inspeção animal nos municípios, segundo a FAASC, contribuiu para que o pequeno produtor conseguisse o credenciamento, o que em outras regiões do país ainda é algo não tão disseminado.

Meliponário da Epagri dissemina educação apícola

O crescimento da apicultura em Santa Catarina pode ser explicado por diversos fatores, que vão das condições de clima e riqueza de floradas, pelo capricho e qualificação profissional dos apicultores, e ainda por conta do trabalho forte da assistência técnica da Epagri junto ao apicultor. A introdução de novas tecnologias e o aperfeiçoamento do manejo também têm contribuído.

Somado a isso, Nésio destaca a atuação de diferentes atores importantes na cadeia produtiva, o que também aproxima produtores. “Pelo menos 50% dos nossos produtores já passaram por algum tipo de capacitação. Todos os dias tem algum evento, treinamento ou curso da área sendo realizado em alguma cidade do Estado”, destaca o presidente da FAASC.

A Epagri é o parceiro da produção apícola catarinense, após o fim da concessão que mantinha na Cidade das Abelhas, que agora está sob responsabilidade da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) mas ainda sem atividades, os técnicos do órgão foram interiorizados para dar assistência nos polos produtores.

Em Florianópolis, no Itacorubi, o órgão mantém um meliponário — coleção de colmeias de abelhas sem ferrão —, que serve para estudos técnicos e educação ambiental. O agrônomo Rodrigo Durieux Cunha, da Divisão de Estudos Apícolas, explica que o espaço é didático e aberto à comunidade. “Aqui nós fazemos educação técnica e repassamos também conhecimentos para melhorar o manejo das abelhas”. O mel produzido pelas Mandaçaias, uma das espécies cultivadas no meliponário da Epagri, pode custar até R$ 100 o quilo.

Na sede da Epagri, em Florianópolis, segundo o agrônomo Rodrigo Durieux Cunha, as pessoas podem aprender sobre o manejo das abelhas - Flávio Tin/ND
Rodrigo Cunha, agrônomo da Epagri, com as abelhas sem ferrão do meliponário - Flávio Tin/ND

Abelhas de aluguel garantem safra da maçã

Mas um dos usos mais crescentes da melípona em todo o país é justamente aquele pelo qual a abelha é tão importante para a humanidade: a polinização. A chamada apicultura migratória, que consiste na cessão de caixas levadas para floradas, seja de bracatinga e vassourão nas regiões de Ponte Serrada,  Coronel Passos Maia e Água Doce ou para as floradas de uva-do-japão, em Caibi, o uso de abelhas garante rendimento desejado aos agricultores. Mais de 3/4 dos alimentos usados pelo homem dependem da polinização para uma produção de qualidade e quantidade.

Só para se ter ideia do potencial desses insetos, todos os anos a safra da maçã investe R$ 3,2 milhões no aluguel de 45 mil colmeias. As abelhas são responsáveis por 90% da polinização dos pomares catarinenses e, segundo produtores, sem abelhas dificilmente o estado teria tão farta produção do alimento.

Mel argentino preocupa mercado nacional

A diminuição da população de abelhas ao redor do mundo também é uma preocupação catarinense. A proteção das espécies que se reproduzem no país, livres de pragas, tem sido um dos grandes desafios do setor. Doenças vindas da Ásia, por exemplo, são capazes de dizimar rapidamente enxames inteiros. “Entre junho de 2010 e setembro de 2011 nós perdemos 45% das abelhas em solo catarinense, algo em torno de 100 mil”, conta o chefe da Divisão de Apicultura do Epagri, Ivanir Cella.

Mas uma das maiores preocupações no momento mora mais perto. A volta do mel argentino ao mercado brasileiro poderia trazer ao país pragas ainda não existentes por aqui, aponta Cella. Quando a importação do mel do vizinho foi suspensa, em 1999, o Ministério da Agricultura detectou lotes do produto contaminados com uma doença chamada loque americana, enfermidade contagiosa causada pela bactéria Paenibacilus larvae, que atinge as abelhas em estado de larva.

Agora, regiões argentinas que se dizem livres da praga foram alvos de inspeções dos órgãos de vigilância brasileiro. Mas segundo pesquisas publicadas pelo biólogo Dejair Message, do Comitê Consultivo do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), a introdução do mel argentino no mercado brasileiro vai dispersar esporos da bactéria. Em pesquisas realizadas pela Universidade Federal de Vitória o biólogo aponta que amostras coletadas em áreas que se diziam livres estavam infectadas.

“A abelha usada na argentina é de outra espécie, a floração deles não é igual à nossa e eles utilizam agrotóxicos que são proibidos no Brasil”, explica Nésio, da FAASC, que completa informando que o uso de antibióticos para tratar a praga faz com que o mel argentino perca qualidade. “Se essa doença vem para o Brasil teremos que tratar nossas abelhas com antibióticos e ai perdemos a qualidade do nosso mel”, completa.

O mel argentino é comercializado em média por R$ 5 o quilo. O mel catarinense, que era vendido até por R$ 12, já sofreu redução e hoje custa R$ 8. A retração, segundo Nésio, já impacta a abertura dos entrepostos brasileiros para negociarem com o mercado argentino.

Pelo quinto ano, Santa Catarina tem o melhor mel do mundo - FAASC/Divulgação/ND
Pelo quinto ano, Santa Catarina tem o melhor mel do mundo - FAASC/Divulgação/ND


Produção anual

272 municípios produzem mais de uma tonelada

38 cidades produzem acima da média estadual, que é de 42 toneladas

5 cidades produzem 1,2 mil toneladas (Bom Retiro, Içara, Urubici , Santa Terezinha e Fraiburgo)

45 mil abelhas são usadas para polinização de pomares de maçã

6 mil toneladas é a média da produção anual em SC 

Os dez maiores produtores de mel em SC

Apicultores

Colmeias

Produção (kg)

Bom Retiro

132

12945

310680

Içara

74

14227

293076

Urubici

30

10465

214532

Santa Terezinha

45

9816

201228

Fraiburgo

58

10759

193500

São Bonifácio

114

6602

135341

São Joaquim

62

6490

133045

Anitápolis

99

4942

101311

Angelina

188

4783

98051

São Bento do Sul

52

4505

92352

 

 

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